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APRECIEM ESTE EXCELENTE TEXTO DE OS TERAPEUTAS DO DESERTO, DE JEAN-YVES LELOUP.

  1. O ser humano pode ser concebido e simbolizado como uma simples linha reta. É a visão unidimensional do homem. O homem considerado em uma só de suas dimensões. O homem como matéria, como corpo, apenas. Neste tipo de abordagem, o corpo tem, às vezes, dificuldades e defeitos e o papel do médico é como o trabalho de um mecânico ou relojoeiro. Ele deve recolocar a máquina em funcionamento.

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  1. A segunda visão do ser humano é a visão bidimensional, onde se considera o homem não somente como matéria, corpo, soma, mas também como uma alma, como uma psique. Esta visão não é uma crença. Ela parte da observação do ser humano. Estamos no mundo dos terapeutas, quer dizer, das pessoas que observam o vivente, o ser humano vivo. Essas pessoas observam que a informação que anima a matéria talvez possa ter uma vida independente desta matéria. Que a informação pode ser retirada do corpo e podemos constatá-la já que o corpo se torna inanimado. Mas nada nos prova que esta informação não continue a subsistir. E que esta informação que se pode chamar alma tem uma vida independente em relação ao corpo.

Nas abordagens contemporâneas, faço referência às pesquisas de Graf Dürckheim e Elisabeth Kübler-Ross que faziam esta constatação a propósito de exemplos numerosos, exemplos de saída do corpo durante o coma, nos momentos que antecedem a morte e também em outras circunstâncias.

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  1. Na época de Fílon de Alexandria, como atualmente, havia ainda outra visão do ser humano – uma visão tridimensional. É sempre preciso observá-lo e notar que há nele uma dimensão que não é somente do mundo da alma. Há o soma, há a psique e há também o que os gregos chamam nous que corresponde aproximadamente à palavra Espírito, em português.

Nous é uma palavra difícil de traduzir. Ao nível da experiência, podemos verificar em nós mesmos. Não se trata somente da inteligência analítica ou da inteligência racional. Não se trata do mundo da emoção e do mundo do sentimento. Trata-se deste tipo de inteligência contemplativa que, na antropologia semita terá o nome de “coração inteligente”.É uma inteligência silenciosa. É a experiência, no homem, de um espaço e de um silêncio além do mental, além das emoções, além das sensações. Esta é uma dimensão do ser humano que os antigos reconheciam e que redescobrimos atualmente através de determinadas práticas de relaxamento profundo ou de meditação. Podemos experienciar em nós mesmos este espaço de silêncio que os antigos chamavam nous e que é uma dimensão importante do ser humano.

Quando desejamos acompanhar alguém que sofre, cuidamos do seu corpo, não esquecemos sua alma com todas as memórias nela inscritas, não esquecemos seu mundo psicológico, emocional, e não esquecemos, também, este mundo de silêncio que existe nele. Na prática terapêutica há uma forma silenciosa de estar sentado e pode acontecer uma transfusão de serenidade neste espaço onde a pessoa reencontra algo deste silêncio interior. Esta prática vai lhe permitir não se identificar mais apenas com o seu corpo, de não mais se identificar somente com o seu psiquismo, mas de descobrir esta outra dimensão do seu ser. Os antigos consideram o nous como a parte divina do homem.

Outra antropologia considera o nous não como a parte divina do homem, mas como o local onde o divino se reflete no homem. Para falar do nous eles utilizarão frequentemente a imagem do espelho. O espelho que, quando completamente limpo, pode refletir a luz e tornar-se luz apesar de não ser fonte de luz.

Na tradição cristã se dirá que João Batista é o testemunho da luz, mas não é a luz. Ele é o nous, mas não é o Pneuma. Ele é a lua que reflete a luz e que ilumina a noite, mas não é o sol. Ele apenas reflete o sol. Muitas vezes reencontraremos estes símbolos da lua e do sol. Da relação entre João Batista e o Cristo se dirá que é a relação entre o Ego e o Self. João Batista diz esta palavra: “É preciso que ele cresça e que eu diminua”.

Assim, nesta visão, pode-se divinizar uma parte do ser humano e, de novo, desprezar o resto do composto humano. Esta visão é muito corrente entre os monges, na qual para libertar esta parte deles mesmos têm tendência a desprezar o corpo e também desprezar os sentimentos, as emoções e o pensamento racional. Então ele se retira do mundo para melhor conhecer este silêncio.

  1. Há uma quarta visão do homem. Nela nós reencontramos as três dimensões anteriores como que atravessadas por uma quarta dimensão. As três anteriores, reconhecidas e respeitadas são o soma, a psique, o nous e elas estão atravessadas pelo Pneuma. O Pneuma é o sopro da vida, a energia criadora.

Nesta visão do ser humano, trata-se de introduzir o Pneuma no soma, não desprezando o corpo, mas permitindo que ele receba melhor o sopro. E isto pode levar a experiências de transfiguração, a momentos em que a matéria fica transparente à luz. Poder-se-ia dizer que, nestes momentos, a nossa matéria vibra em outra velocidade, passa para outra freqüência.

Trata-se também de introduzir o Pneuma em nossa psique. Não para destruir nossas emoções, não para destruir nossas memórias, mas para nos sentirmos livres em relação a elas. Não seremos mais o objeto das nossas emoções, mas nos tornaremos o sujeito de nossas emoções. Não somos mais dominados pela cólera diante das injustiças, por exemplo, mas podemos manifestar uma cólera justa. Não somos mais dominados pelas emoções, mas somos o sujeito dessas emoções. Da mesma maneira, não se trata de negar o nous, mas, sim, de não idolatrá-lo, de não tomá-lo pela parte divina do nosso ser, de considerá-lo o espelho da luz.

Vocês sentem a diferença que essas visões antropológicas terão no mundo da educação. Se nossas escolas têm uma antropologia do homem tridimensional, será preciso não apenas nutrir o nosso corpo ou nossa inteligência racional, mas será preciso cuidar da nossa dimensão contemplativa e nos ensinar algumas práticas de meditação.

Na visão “pneumática” do ser humano, o terapeuta, que é um psicólogo, cuida do corpo, cuida do psiquismo, cuida do nous, pratica a meditação e respeita todas estas dimensões. Esta quarta antropologia é a que encontramos em Fílon de Alexandria e em Graf Dürckheim.

O que me parece interessante é que esta visão do homem não é um objeto de crença ou de revelação, mas é o aprofundamento de uma observação que tem seu ponto inicial na matéria. É preciso interrogar-se sobre o que anima esta matéria e entrar neste silêncio existente no íntimo de todas as coisas. Entrar neste sopro que não destrói nada do que existe, mas que abre o coração e o torna livre, que abre a inteligência e a torna livre em relação a tudo o que ela sabe. E a conduz um pouco mais longe.

TERAPEUTAS DO DESERTO – De Fílon de Alexandria e Francisco de Assis a Graf Durckheim; LELOUP, Jean-Yves e BOFF, Leonardo; 11ª edição, Organização de Lise Mary Alves de Lima; tradução de Pierre Weill; Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. Capítulo 2 – 2.1 A antropologia dos Terapeutas de Alexandria e de Graf Dürckheim, pg.s 49 a 57

Acabo de ler “Verdadeiros Filósofos, de Jean-Yves Leloup. O capítulo 8º, dedicado a Gregório de Nissa, muito me impressionou, razão pela qual ofereço a vocês um pequeno trecho.

Alguns textos são suficientes para mostrar a riqueza e energia do pensamento de Gregório, assim como o percurso e as etapas do que poderíamos chamar o “Eros gregoriano”, ou seja, o caminho que deve percorrer o desejo do homem em direção à Realidade da qual ele é sedento. Com efeito, para Gregório, a causa do sofrimento e do mal-estar do homem é a sua separação do Real, a saber: a ignorância do Ser de que ele conserva, apesar da espessura do esquecimento, a nostalgia e o desejo. Por seu parentesco com o infinito, o homem transforma-se em um animal insatisfeito, em ser de desejo:

Com efeito, do mesmo modo que, graças aos princípios luminosos de que é constituído, o olho participa da luz e, em virtude desse poder inato, atrai para si aquilo que tem a mesma natureza, assim também uma certa afinidade com o divino foi misturada à natureza humana para lhe inspirar, por meio dessa correspondência, o desejo de se aproximar do que lhe é aparentado (Discurso catequético).

O desejo não surge do homem, mas é criado por essa afinidade com a natureza divina que Deus depositou em nós. Afinal de contas, Deus é que, desta forma, nos atrai para ele: “Assim, o homem foi dotado de vida, de razão, de sabedoria e de todas as vantagens divinas, a fim de cada uma delas faça surgir nele o desejo pelo que lhe é aparentado” (discurso Catequético)

Neste caso, apesar de existir no homem criado à “imagem e semelhança de Deus” um desejo pelo que lhe é aparentado, esse desejo permanece livre. “O homem é um espelho livre”; aliás, esta imagem é familiar para os filósofos da Antiguidade. Na época, o espelho era feito de metal e, na esteira de Plotino, Gregório indicava com precisão que era necessário retirar a ferrugem para que a luz possa refletir-se nele; e, além disso, ainda era necessário orientá-lo. Não basta reconhecer o desejo, ainda é necessário purificá-lo e, em seguida, orientá-lo: “Acaba-se recebendo em si a semelhança do que se observa”.

O espelho voltado para o caos reflete o caos, enquanto voltado para a luz, ele próprio torna-se luz. Tornamo-nos o que observamos, tornamo-nos o que amamos.

Como afirmava o Evangelho: “Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6,21). Daí a importância da vigilância e do discernimento em relação ao “obscuro objeto de nosso desejo”.

O que merece verdadeiramente ser amado? Formular esta pergunta é fazer apelo ao conhecimento, à gnose inspirada que irá iluminar o desejo e a vontade a fim de orientá-los em direção “ao que verdadeiramente é”.

Um texto do Contra Eunômio mostra com clareza as etapas que Abraão percorre a caminho do Real e as mutações do seu desejo. Em primeiro lugar, Abraão observa o que está à sua volta, o movimento de seus rebanhos, o ciúme de suas mulheres, a alternância entre dia e noite, as estrelas mais numerosas do que as areias do deserto.

Em seguida, tendo superado sua sabedoria nativa, quero dizer a filosofia caldeia que se detém nas aparências, Abraão elevou-se acima de tudo que é conhecido pelos sentidos (noites dos sentidos). No entanto, do mesmo modo que a harmonia das maravilhas celestes (objeto da filosofia caldeia) lhe havia fornecido o desejo de ver a beleza sem formas, assim também transformou todas as coisas que tinha conhecido nesta segunda etapa – poder, bondade, asseidade[ii], infinidade (objeto da filosofia simbólica) – em outros tantos degraus para avançar mais longe.

Tendo purificado inteiramente seu espírito de qualquer representação da natureza divina (noite da inteligência) e tendo adquirido uma fé sem mistura e livre de qualquer conceito, ele aceitou como sinal de uma inteligência infalível da divindade o fato de considerá-la superior a qualquer sinal determinado (objeto da filosofia apofática[iii])(Contra Eunômio).

Aqui reconhecemos três ordens da realidade que, na esteira de Abraão podem servir de referência para nossa inteligência e nosso desejo:

  • A realidade fenomenal (as aparências) descrita por Gregório como o objetivo da filosofia caldeia, ciência do que pode ser percebido através dos sentidos ou dos instrumentos que os prolongam. Trata-se, portanto, da realidade apreendida por um tipo de conhecimento científico; encontramo-nos no campo do observável.
  • A realidade evocada pela harmonia, ordem e beleza das formas, objeto do conhecimento noético ou simbólico, realidade inteligível ou “imaginal”: neste aspecto, encontramo-nos no campo dos transcendentais (o Ser, o Belo, o Bem) ou dos arquétipos. Para Gregório, as diferentes abordagens de tais campos “sutis” do Real devem ser consideradas “como outros tantos degraus para avançar mais longe”, na medida em que o espírito está purificado de qualquer representação.
  • A realidade pura a respeito da qual nada é possível dizer, nem pensar, objeto do conhecimento apofático. Passamos do campo do observável para o campo do conceitualizável. Encontramo-nos, agora, no campo do inconcebível.

O tema dos diferentes planos da realidade, harmonizados com diferentes tipos de conhecimento, será retomado por São Boaventura[iv] na Idade Média e, mais recentemente por Ken Wilber. Neste caso, eles falam dos “três olhos do conhecimento”: o olho da ciência, o olho da filosofia e o olho da contemplação. Cada olho desenvolve seu modo de apreensão do Real e a metodologia que lhe é própria; em vez de confundi-las ou estabelecer uma oposição entre elas, trata-se de manter juntos os diversos objetos de nosso desejo, “ordenando-os” e respeitando a especificidade de suas ordens.

Não é possível chegar, de repente, ao Real Absoluto; existe um certo número de “passagens”, de mutações, que devem ser percorridas pelo espírito e pelo desejo.

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INTRODUÇÃO AOS “VERDADEIROS FILÓSOFOS”; Os padres Gregos: um continente esquecido do pensamento ocidental – LELOUP, Jean-Yves; Título original francês: Introduction aux “vrais philosophes” – Les Péres grecs: un continent oublié de la pensée occidentale; tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira; 2ª edição; Editora Vozes – Petrópolis, 2003; capítulo 8º, pg.s 180 a 183.[v]


[i] 2.Psican. Princípio de ação, símbolo do desejo, cuja energia é a libido. [Cf., nesta acepç., tânatos (2).]-Aurélio

[ii] Atributo divino fundamental, que consiste em existir por si próprio. (Aurélio)

[iii] Relativo a, ou que encerra apófase.Apófase: Proposição negativa; negação. (Aurélio)

[iv] São Boaventura (1221-1274), teólogo italiano, foi geral da Ordem dos Franciscanos; suas numerosas obras de teologia, inspiradas pela doutrina de Santo Agostinho, valeram-lhe o cognome de Doutor Seráfico Cf. Le Petit Lar. Op. Cit. (N. do trad.

[v] Obs: Inseri, presunçosamente, algumas notas de esclarecimentos. Estão em negrito.

 

Como alimentar a amizade e tornar possível a vida em comum? Em resposta, João Cassiano (365dC – 435dC) propõe 6 princípios: 1) A amizade é um bem tão precioso que deve ser preferido a qualquer coisa de material; 2) Nunca impor sua vontade; 3) Tudo o que é útil e necessário deve ceder lugar ao amor e à paz; 4) Seja qual for o motivo, nunca ficar com raiva; 5) Considerar os defeitos ou pecados do outro como seus; 6) Pensar que, em qualquer instante, podemos emigrar deste mundo.

De maneira especial me impressionou o comentário de Leloup sobre o quinto ponto proposto por Cassiano. Compartilho-o.

No deserto, trata-se de uma regra de ouro: “Nunca acusar os outros, mas sempre auto-acusar-se”; não por sórdido sentimento de culpa ou masoquismo, e sim para descobrir a eficácia não violenta de tal método. Se amo meu próximo como a mim mesmo, tudo o que observo nele, posso observá-lo em mim: “Somos um mesmo corpo, membros uns dos outros”. Aquilo mesmo que pretendo corrigir nele, devo começar por corrigir em mim; ao ser incomodado por determinado defeito de meu amigo, devo superá-lo em mim.

Trata-se aí de uma espécie de “reflexologia” espiritual. No plano fisiológico, a reflexologia parte do princípio de que agir em um membro ou elemento do corpo é uma forma de agir no restante do corpo: a massagem bem localizada da orelha, por exemplo, pode exercer influência no fígado ou nos rins. Tal é, também, de alguma forma, o ensinamento dos Padres da Igreja: empreender a mudança em si mesmo, antes de pretender mudar os outros – “Estás observando uma atitude de orgulho em teu irmãos? Neste caso, arranca em ti todas as raízes dessa atitude. Cupidez em teu irmão? Observa onde se encontra teu desejo. Violência em teu irmão? Fica vigilante a tuas mãos tensas e teus pensamentos assassinos.”

Quando o coração se amplia, ele chega mesmo a sentir-se até “responsável por tudo e por todos”. Cassiano lembrava-se do ensinamento de João Crisóstomo: “O pão que mofa em teu armário é o pão que roubas ao esfomeado; os sapatos que guardas na sapateira são aqueles que roubas ao descalço… Tens galpões para os teus coches e cavalos, mas não tens um cômodo para o pobre que bate à tua porta…”

Lutar contra as injustiças existentes no mundo é começar por combater tudo o que há de injustiça em nós mesmos. Nesse sentido, talvez – e não como uma justificação do egoísmo -, deveria ser compreendido o provérbio: “Caridade bem compreendida começa por si mesmo”. Modificar a terra consiste, antes de tudo, em cultivar, lavrar, lançar semente no pedaço de terra que nos foi confiado. Se dermos crédito aos físicos e às teorias contemporâneas sobre a interconexão de todas as coisa, nada há de menos egoísta do que trabalhar pela própria salvação, ou seja, pela libertação de seus egoísmos: a santidade de uma só pessoa incrementa a santidade de todos. Não seria megalomaníaco o ermita que, em sua gruta, responde à pergunta – “O que está fazendo aqui” – com a seguinte frase: “Estou colocando em ordem o universo”. Cuidar em si dos defeitos do outro ou do mundo, também não carece de bom senso já que o nosso corpo, nosso sopro, nossos pensamentos, nossos sentimentos são espaços do universo nos quais podemos exercer uma certa influência ou poder sem nos arrogarmos qualquer direito em relação ao outro. “Aquele que evita o julgamento de seu irmão e se julga a si mesmo será poupado do juízo final”, afirmavam os antigos; neste aspecto, Cassiano torna-se o eco de tal sabedoria.

INTRODUÇÃO AOS VERDADEIROS FILÓSOFOS; LELOUP, Jean-Yves; Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira; Petrópolis, RJ; Editora Vozes, 2ª edição, 2003. Pg.s162, 163.

 

O Perdão

Mais uma resposta de Jean-Yves Leloup, no livro Além da luz e da sombra:

“. . . O perdão, quando bem compreendido, é um instrumento de cura. Frequentemente ficamos doentes porque não perdoamos e o rancor e a cólera nos corroem o fígado e os rins. A questão é como manter justos o perdão e a justiça, uma boa continuação da pergunta anterior – manter juntos o olho da verdade e o olho da misericórdia.

Creio que não devemos perdoar muito rápido. É necessário, antes de perdoarmos, que expressemos o sofrimento pelo que nos foi feito e a isso chamo justiça. O Sinal da Cruz, tal como era feito nos doze primeiros séculos de nossa era, expressava bem esse sentimento. Começava-se por uma linha vertical, da testa ao peito, em seguida levava-se a mão ao ombro direito e depois ao esquerdo (atualmente faz-se o contrário), simbolizando a passagem da justiça para a misericórdia. Começando sempre pela justiça, exigindo que fosse reconhecido o mal que nos foi feito, o inaceitável de certas situações e de certas violências. Portanto, o pedido de justiça é essencial. Mas é essencial, também, ir além da justiça, em direção à misericórdia, em direção ao perdão, em direção ao lado esquerdo – que é o lado do coração.

O que é perdão? O perdão é não aprisionar o outro nas conseqüências negativas de seus atos. É não nos aprisionarmos nas conseqüências negativas de nossos atos. É não nos aprisionarmos ou aprisionarmos o outro no carma. O perdão é a própria condição para que nossa vida continue a ser vivível. Se não perdoarmos uns aos outros a vida vai se tornar impossível de ser vivida.

Voltando à primeira parte da pergunta, como fazer para que este perdão se torne algo verdadeiro? Platão dizia:”Aquele que tudo compreende, tudo perdoa”. Aquele que se conhece a si mesmo, com suas ambigüidades, suas ambivalências, pode compreender o outro em suas sombras. Portanto, inicialmente, o perdão pode ser uma questão de inteligência, de compreensão. Perdoar você significa que eu o compreendo, mas não quer dizer que eu o desculpo ou que o que você fez é bom. Compreendo que você é um ser humano, que é capaz de me enganar como eu próprio faria se, provavelmente, estivesse nas mesmas condições.

A atitude de Cristo aos que queriam lapidar a mulher adúltera é: “Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra”. Lembrem-se como aos poucos todos se retiraram, do mais velho ao mais jovem. Nesse caso Jesus se serve da Sagrada Escritura, não para mostrar aos outros como eles são pecadores, mas para fazê-la de espelho onde eles podem ver suas fraquezas, suas falhas e compreender as dos outros, não os aprisionando nas conseqüências negativas de seus atos.

Além de perdoar com a cabeça é preciso perdoar com o coração e, vocês sabem, o corpo é o último que perdoa. Se alguém lhes fez mal, se lhes causou sofrimento, vocês podem tê-lo perdoado com a “cabeça”, tê-lo compreendido como o coração, pensar que o passado passou. Entretanto, quando essa pessoa se aproxima, seu corpo se crispa e se enrijece mostrando bem que ele ainda não perdoou, que muitas memórias estão ainda bem guardadas.

Creio que é verdadeiramente uma graça quando nos encontramos perto de alguém que nos tenha feito mal e sentimos nosso corpo calmo, nosso coração límpido. Podemos dizer que, verdadeiramente, estamos curados. Por isso, creio que o perdão é uma prática de cura.

No Pai-nosso se diz: Perdoai-nos do mesmo modo como perdoamos. Como se o dom da vida só pudesse circular em nós dependendo de nossa capacidade de perdão. Se não perdoamos ficamos prisioneiros, bloqueados em uma situação, em um rancor, e a vida não pode circular.

Perdoar não é fácil . . .

Quando eu era um jovem padre e morava no interior da França, todos os domingos levava uma senhora paralítica à missa. Ela era portadora de esclerose em placas. Um dia contou-me do ódio que nutria pela mão porque a tinha impedido de casar-se com o homem que amava, e, apesar disso, passara a vida inteira cuidando da mãe, ocupando-se dela. Apesar de exteriormente comportar-se como uma mulher respeitável e admirável, dizia-me que em seu interior só havia raiva. A dureza de seu coração impregnara seu corpo, transformando-o em um corpo rígido e paralisado. Assim, as doenças psicossomáticas têm, às vezes, uma origem espiritual.

Disse a esta senhora: “Já que você é cristã pode perdoar sua mãe”. Tornou-se encolerizada e, com uma raiva muito densa e muito íntima, respondeu-me: “Não, não, jamais a perdoarei. Minha mãe impediu-me de viver, o que sinto por ela é um veneno que levarei ao túmulo.” Nesse momento compreendi o meu erro e lhe disse: “Você tem razão. O que você viveu é imperdoável. Você não pode perdoar quem a impediu de viver. Mas, pense, creia, o Cristo que existe em você pode perdoá-la”. Atualmente eu lhe diria: “O ego não pode perdoar: Não se deve tentar perdoar com o ego. Entretanto, talvez o self possa perdoar. Talvez haja dentro de nós uma dimensão maior que nós mesmos, mais amorosa que nós mesmos, mais inteligente que nós mesmos, que pode compreender e perdoar”. Passaram-se cinco longos minutos. Em dado momento vi uma lágrima correr pela face daquela senhora. Ela chorou, chorou muito. Levantou-se da cadeira de rodas e saiu andando de seu quarto. Há mais de quarenta anos não chorava, há mais de dez anos não andava. Esse é o milagre do perdão.

Muitas vezes, está acima de nossas forças perdoarmos a partir de nosso pequeno ego. Se disséssemos “Eu te perdôo”, seríamos hipócrita, pois nosso corpo e nosso coração não conseguem perdoar. Porém, podemos abrir-nos a uma dimensão mais vasta que nós mesmos e então o perdão pode chegar.

O perdão não é humano, é um ato divino. Quando Jesus perdoa, seja a mulher adúltera, seja Miriam de Magdala, seja um “colaborador” como Zaqueu, os fariseus que o cercam se perguntam: “Quem é este homem que perdoa? Pois só Deus pode perdoar”.

Assim, é preciso lembrar que, cada vez que perdoamos depois de termos pedido justiça, acordamos para uma dimensão divina de nós mesmos. O perdão é um exercício de divinização onde o humano se torna divino. Continuando humanos, temos que reclamar justiça e, quando for possível, dizer o que foi mau ou destrutivo para nós e pedir uma reparação. Também somos capazes de misericórdia e de perdão. Portanto, é preciso que mantenhamos juntos o humano e o divino dentro de nós. Mantenhamos justas a justiça e a misericórdia. São dois olhos, às vezes estrábicos. Podemos esquecer a justiça e nosso perdão ser superficial, podemos esquecer o perdão e partimos para uma justiça inquisitorial.”

ALÉM DA LUZ E DA SOMBRA: sobre o viver, o morrer e o ser / Jean-Yves Leloup / organização de Lise Mary Alves de Lima; tradução de Pierre Weil, Regina Fittipaldi. 5ª edição, Petrópolis, RJ: Vozes, 2007 (© 2001, Editora Vozes); Parte II – O absurdo e a graça, Perguntas, pg.s 101 a 104).

 

Mudanças Sociais

Em seminário realizado em 1998, cá no Brasil, Jean-Yves Leloup dissertou sobre a “arte de morrer”. Fizeram uma indagação, tão atual naquela época como agora (pra mim mais atual hoje), sobre os procedimentos cabíveis diante do descalabro social e político tanto na América Latina, como no Brasil. Eis a resposta do pensador:

“Do ponto de vista prático, podemos dizer que, antes de querer fazer o bem, antes de levarmos luz à sombra, importa não acrescentar sombra a sombra, violência a violência, julgamento a julgamento. Há muito sofrimento no mundo e não é preciso ajuntar mais sofrimento ao sofrimento. Por isso, a primeira coisa que podemos fazer é tentarmos ser felizes, pelo menos um pouco. Porque se estivermos com um pouco de paz, haverá um lugar no mundo em que existe um pouco de paz.

Já contei a vocês o sonho que teve o jovem Davi. Deus lhe disse: “Davi, o mundo vai mal, é preciso salvar o mundo”. Pela manhã, quando acordou, Davi respondeu a Deus: “Sim, Senhor, eu vou salvar o mundo”. Davi perguntou a si mesmo por onde começar, pois o mundo era muito grande. Pensou em começar pelo seu país, mas seu país era muito grande. Por onde poderia começar? Por sua cidade? Mas sua cidade era muito grande. Quem sabe vou começar pelo meu edifício, mas o meu edifício é muito grande. E assim, pouco a pouco Davi compreendeu que ele devia salvar o mundo começando pelo seu próprio quarto, começando pelo seu próprio coração porque a sua inteligência, o seu coração, o seu corpo eram este pedaço de universo que lhe foi confiado, este pedaço da sociedade que lhe foi confiado.

Se quisermos muito mudar os outros, mudar a sociedade sem primeiro mudar a nós mesmos, geramos um totalitarismo que vai conduzir a outro totalitarismo e, quer ele venha da direita ou da esquerda, é sempre a mesma atitude, a mesma vontade de poder. Creio que hoje, uns e outros, somos como Davi. Sabemos o que vai mal no mundo, podemos nos lamentar, julgar a causa deste ou daquele problema, mas nada mudamos porque é preciso começar por este pedaço da humanidade que nos foi confiado. A partir daí as coisas realmente podem se transformar. E essa atitude nossa não será visível imediatamente mesmo que seja efetiva, pois, como nos lembram os físicos, tudo está ligado com tudo e, portanto, todo homem que se eleva, eleva o mundo.

Um dia fizeram a seguinte reflexão à madre Tereza de Calcutá: “Para que serve o que fazeis? Ajudais um ancião a morrer e se olhais na rua eles morrem às centenas. O que fazeis não serve para nada. É apenas uma gota d’água no oceano, uma gota d’água neste oceano de miséria que existe no mundo”. Ao que madre Tereza respondeu: “Eu seu que o que faço é apenas uma gota d’água, mas o oceano é feito de gotas d’água”. Nós todos, cada um de nós é uma gota d’água e é nossa responsabilidade transformar este oceano de miséria e de dor em um oceano de água doce e clara. Esta resposta é um convite a uma prática, às vezes humilde e invisível. Alguns teóricos, com suas grandes teorias sobre as dificuldades econômicas e políticas, sobre a violência, apenas remexem em água lamacenta. E, em vez de remexer em água turva, é preciso trocar de vaso, mudar de comportamento, mudar de consciência. Essa prática nós a encontramos em todas as grandes tradições espirituais da humanidade.

Não se pode mudar o mundo e a sociedade sem primeiro transformar-se a si mesmo. É por aí que é preciso começar. Começar não acrescentando perturbações e dores. Começar por estar em paz, olhando tudo com limpidez e transparência. Então, alguma coisa dessa transformação interior poderá se comunicar ao exterior. É preciso olhar onde estamos colocados na sociedade, o que nos é pedido. A alguns é pedido que falem, que se sirvam de sua inteligência para observar as conseqüências de tal ou tal crise. A outros é pedido que se ocupem de alguém que vive na rua, que trabalhem com suas mãos, que levem um pouco de ternura e paz ao coração de alguém.

Não devemos nos comparar com ninguém e cada um de nós sabe o que, realmente, tem a fazer. Não existem coisas pequenas ou grandes. Existem maneiras pequenas de fazer o que temos a fazer, assim como existem maneiras grandes de fazer as pequenas coisas que temos a fazer. É este caminho que nos foi dado para caminhar. “

ALÉM DA LUZ E DA SOMBRA: sobre o viver, o morrer e o ser / Jean-Yves Leloup / organização de Lise Mary Alves de Lima; tradução de Pierre Weil, Regina Fittipaldi. 5ª edição, Petrópolis, RJ: Vozes, 2007 (© 2001, Editora Vozes); Parte II – O absurdo e a graça, Perguntas, pg.s 104 a 106).

Para gáudio daqueles que me honram com sua visita a este blog, transcrevo texto de Jean-Yves Leloup.

  1. O ser humano pode ser concebido e simbolizado como uma simples linha reta. É a visão unidimensional do homem. O homem considerado em uma só de suas dimensões. O homem como matéria, como corpo, apenas. Neste tipo de abordagem, o corpo tem, às vezes, dificuldades e defeitos e o papel do médico é como o trabalho de um mecânico ou relojoeiro. Ele deve recolocar a máquina em funcionamento.
  2. A segunda visão do ser humano é a visão bidimensional, onde se considera o homem não somente como matéria, corpo, soma, mas também como uma alma, como uma psique. Esta visão não é uma crença. Ela parte da observação do ser humano. Estamos no mundo dos terapeutas, quer dizer, das pessoas que observam o vivente, o ser humano vivo. Essas pessoas observam que a informação que anima a matéria talvez possa ter uma vida independente desta matéria. Que a informação pode ser retirada do corpo e podemos constatá-la já que o corpo se torna inanimado. Mas nada nos prova que esta informação não continue a subsistir. E que esta informação que se pode chamar alma tem uma vida independente em relação ao corpo.

Nas abordagens contemporâneas, faço referência às pesquisas de Graf Dürckheim e Elisabeth Kübler-Ross que faziam esta constatação a propósito de exemplos numerosos, exemplos de saída do corpo durante o coma, nos momentos que antecedem a morte e também em outras circunstâncias.

          3.    Na época de Fílon de Alexandria, como atualmente, havia ainda outra visão do ser humano – uma visão tridimensional. É sempre preciso observá-lo e notar que há nele uma dimensão que não é somente do mundo da alma. Há o soma, há a psique e há também o que os gregos chamam nous que corresponde aproximadamente à palavra Espírito, em português. 

Nous é uma palavra difícil de traduzir. Ao nível da experiência, podemos verificar em nós mesmos. Não se trata somente da inteligência analítica ou da inteligência racional. Não se trata do mundo da emoção e do mundo do sentimento. Trata-se deste tipo de inteligência contemplativa que, na antropologia semita terá o nome de “coração inteligente”.É uma inteligência silenciosa. É a experiência, no homem, de um espaço e de um silêncio além do mental, além das emoções, além das sensações. Esta é uma dimensão do ser humano que os antigos reconheciam e que redescobrimos atualmente através de determinadas práticas de relaxamento profundo ou de meditação. Podemos experienciar em nós mesmos este espaço de silêncio que os antigos chamavam nous e que é uma dimensão importante do ser humano.

Quando desejamos acompanhar alguém que sofre, cuidamos do seu corpo, não esquecemos sua alma com todas as memórias nela inscritas, não esquecemos seu mundo psicológico, emocional, e não esquecemos, também, este mundo de silêncio que existe nele. Na prática terapêutica há uma forma silenciosa de estar sentado e pode acontecer uma transfusão de serenidade neste espaço onde a pessoa reencontra algo deste silêncio interior. Esta prática vai lhe permitir não se identificar mais apenas com o seu corpo, de não mais se identificar somente com o seu psiquismo, mas de descobrir esta outra dimensão do seu ser. Os antigos consideram o nous como a parte divina do homem.

Outra antropologia considera o nous não como a parte divina do homem, mas como o local onde o divino se reflete no homem. Para falar do nous eles utilizarão frequentemente a imagem do espelho. O espelho que, quando completamente limpo, pode refletir a luz e tornar-se luz apesar de não ser fonte de luz.

Na tradição cristã se dirá que João Batista é o testemunho da luz, mas não é a luz. Ele é o nous, mas não é o Pneuma. Ele é a lua que reflete a luz e que ilumina a noite, mas não é o sol. Ele apenas reflete o sol. Muitas vezes reencontraremos estes símbolos da lua e do sol. Da relação entre João Batista e o Cristo se dirá que é a relação entre o Ego e o Self. João Batista diz esta palavra: “É preciso que ele cresça e que eu diminua”.

Assim, nesta visão, pode-se divinizar uma parte do ser humano e, de novo, desprezar o resto do composto humano. Esta visão é muito corrente entre os monges, na qual para libertar esta parte deles mesmos têm tendência a desprezar o corpo e também desprezar os sentimentos, as emoções e o pensamento racional. Então ele se retira do mundo para melhor conhecer este silêncio.

           4.   Há uma quarta visão do homem. Nela nós reencontramos as três dimensões anteriores como que atravessadas por uma quarta dimensão. As três anteriores, reconhecidas e respeitadas são o soma, a psique, o nous e elas estão atravessadas pelo Pneuma. O Pneuma é o sopro da vida, a energia criadora.

Nesta visão do ser humano, trata-se de introduzir o Pneuma no soma, não desprezando o corpo mas permitindo que ele receba melhor o sopro. E isto pode levar a experiências de transfiguração, a momentos em que a matéria fica transparente à luz. Poder-se-ia dizer que, nestes momentos, a nossa matéria vibra em outra velocidade, passa para outra freqüência.

Trata-se também de introduzir o Pneuma em nossa psique. Não para destruir nossas emoções, não para destruir nossas memórias, mas para nos sentirmos livres em relação a elas. Não seremos mais o objeto das nossas emoções, mas nos tornaremos o sujeito de nossas emoções. Não somos mais dominados pela cólera diante das injustiças, por exemplo, mas podemos manifestar uma cólera justa. Não somos mais dominados pelas emoções, mas somos o sujeito dessas emoções. Da mesma maneira, não se trata de negar o nous, mas, sim, de não idolatrá-lo, de não tomá-lo pela parte divina do nosso ser, de considerá-lo o espelho da luz.

Vocês sentem a diferença que essas visões antropológicas terão no mundo da educação. Se nossas escolas têm uma antropologia do homem tridimensional, será preciso não apenas nutrir o nosso corpo ou nossa inteligência racional, mas será preciso cuidar da nossa dimensão contemplativa e nos ensinar algumas práticas de meditação.

Na visão “pneumática” do ser humano, o terapeuta, que é um psicólogo, cuida do corpo, cuida do psiquismo, cuida do nous, pratica a meditação e respeita todas estas dimensões. Esta quarta antropologia é a que encontramos em Fílon de Alexandria e em Graf Dürckheim.

O que me parece interessante é que esta visão do homem não é um objeto de crença ou de revelação, mas é o aprofundamento de uma observação que tem seu ponto inicial na matéria. É preciso interrogar-se sobre o que anima esta matéria e entrar neste silêncio existente no íntimo de todas as coisas. Entrar neste sopro que não destrói nada do que existe mas que abre o coração e o torna livre, que abre a inteligência e a torna livre em relação a tudo o que ela sabe. E a conduz um pouco mais longe.

TERAPEUTAS DO DESERTO – De Fílon de Alexandria e Francisco de Assis a Graf Durckheim; LELOUP, Jean-Yves e BOFF, Leonardo; 11ª edição, Organização de Lise Mary Alves de Lima; tradução de Pierre Weill; Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. Capítulo 2 – 2.1 A antropologia dos Terapeutas de Alexandria e de Graf Dürckheim, pg.s 49 a 57

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