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A Terceira Idade cá de Águas promoveu uma palestra interessante na Semana da Mulher. Na saída distribuíram uma folha impressa, que eu tive que deixar para ler em casa, pois estava sem óculos para melhorar a visão ‘de perto’. Lendo-o, que beleza: RUBEM ALVES. No rodapé a anotação de onde viera: A ALEGRIA DE ENSINAR. Brindo-os com este texto.

Casulos… Vários deles apareceram colados à parede de minha casa. Lá dentro, eu sabia, se encontravam lagartas que dias antes haviam comido folhas das plantas do meu jardim.

Enquanto dormiam, espantosas transformações aconteciam com os seus corpos. As criaturas aladas que antes moravam nelas apenas como sonhos estavam se tornando realidade. Metamorfoses. Eu os deixei onde estavam, intocados, e vigiei, pois não queria perder o evento mágico. Tive sorte. Pude ver o momento que um dos casulos se rompeu. Tímida, fraca e desajeitada sem saber direito o que fazer com a sua nova forma, uma borboleta apareceu. Suas asas se abriram, mostrando delicados desenhos coloridos. O tempo não me permitiu ficar, para ver tudo. Quando voltei, ela não estava mais lá. Seguira seu novo destino de voar a procura de flores. Se o mundo da lagarta não era maior que a folha que comia, o universo da borboleta era o jardim inteiro. Iria, flutuando ao vento, por espaços com que uma lagarta não podia sonhar.

A criança de seis anos quando saem do casulo, vejo-a a cada dia que passa suas asas crescerem: novos desenhos, novas cores, voos cada vez mais distantes. Está se transformando em borboleta.

Não! Borboletra

Ela aprendeu a falar, e as palavras lhe deram asas.

Até se esqueceu das bolinhas. De repente elas ficaram pouco para o muito que cresceu dentro da sua cabeça.

Enquanto brincava com as bolinhas ela não era muito diferente de um gatinho que também gosta de brincar com bolinhas. Seu corpo se movia colado as coisas, rente ao chão. Mas ao aprender a usar as palavras ela começou a voar por espaços infinitos, como a borboleta.

Palavras, coisas etéreas e fracas, meros sons. No entanto, é delas que o nosso corpo é feito. O corpo é a carne e o sangue metamorfoseado pelas palavras que aí moram. Os poetas sagrados sabiam disto e disseram que o corpo não é feito só de carne e sangue. O corpo é Palavra que se fez carne: um ser leve que voa por espaços distantes, por vezes mundos que não existem, pelo poder do pensamento. Pensar é voar. Voar com o pensamento é sonhar.

É nisto que a psicanálise acredita. Somos sonhos cobertos de carne. Por isto que, diferente dos médicos que apalpam, olham, examinam e medem os sintomas físicos do corpo, ela se dedica a ouvir as palavras. Pois é nelas que moram as coisas que não existem, os sonhos, os pensamentos que nos fazem voar. Sem prestar muita atenção ao rastejar da lagarta, ela procura ver a forma dos movimentos que a borboleta desenha no ar por meio das palavras.

A criança aprendeu a falar e ganhou o poder de voar pelos mundos que moram nas palavras. O mundo da sua fantasia se liberta dos limites do casulo. As palavras nos dizem que estamos destinados a voar, a saltar sobre abismos, a visitar mundos inexistentes: “pontes de arco-íris que ligam coisas eternamente separadas.”

Não existe amor que resita a um corpo vazio de fantasias. Um corpo vazio de fantasias é um instrumento mudo, do qual não sai melodia alguma.

O corpo de uma criança é um espaço infinito onde cabem todos os universos. Quanto mais ricos forem estes universos, maiores serão os voos da borboleta, maior será o fascício, maior será o número de melodias que saberá tocar, maior será a possibilidade de amar, maior será a felicidade.

Por vezes, entretanto acontece uma metamorfose ao contrário: as borboletas voltam ao casulo e se transformam em lagartas. Porque voar é fascinante, mas perigoso. É preciso que não se tenha medo de flutuar sobre o vazio com as asas frágeis. É mais seguro viver agarrado à folha que se come. E eu me pergunto sobre o que aconteceu conosco. Pois um dia, fomos como uma criança, borboletas aladas, em busca de espaços sem limites. Talvez, por medo, tenhamos abandonado as asas. Talvez, por medo, já não sejamos mais capazes de voar e sonhar. Grandes lagartas, que não tem coragem de desprender das seguras folhas onde rastejam…

 

Li A Alma Celebra, livro que recebi emprestado e do qual já postei um texto de Jung. Apreciem agora os comentários de Jaffe Lawrence sobre ensinos de Jung sobre este tema sempre atual.

“Jó não é senão o momento externo do processo interior de dialética em Deus[i].

A suposição ingênua de que o criador do mundo é um ser consciente precisa ser vista como preconceito desastroso que mais tarde deu origem às confusões mais incríveis da lógica[ii].

É difícil para a mente moderna assimilar a ideia de que Deus tem algo a aprender do homem, provavelmente devido ao “preconceito desastroso” de que Deus é um ser consciente. A necessidade emocional que temos dessa noção é o estado relativamente infantil de nossa consciência coletiva que precisa da presença de bom pai no alto. É difícil aceitar a ideia de que nosso pai é misto de opostos, e por isso ela continua sendo o maior obstáculo à compreensão do mito junguiano da transformação da imagem de Deus.

Pode ser que somente os que tiveram a experiência de Jó, que viram as “costas de Iahweh”, o “mundo abismal de cacos[iii]” – isto é os que foram primeiro esmigalhados e depois curados por Deus – estejam em condições de conciliar a imagem de Deus paradoxal, que Jung chamou de “contradição trágica de Deus[iv]

A visão junguiana complementa o ponto de vista freudiano precisamente no que este é mais frágil. Esclareço. Certa vez, alguém propôs ao notável psicanalista Salman Akhtar uma pergunta à qual, imagino, era difícil ele responder, o que não seria bem o caso para um junguiano. A pergunta era: Qual seria o resultado ótimo da psicanálise de um distúrbio de personalidade grave? Akhtar respondeu com o que ele chamou de “parábola” de dois vasos de flores, ambos valiosos e de igual valor, um quebrado e em seguida reconstituído por um perito. E conclui:

Os sinais de reconstituição (do vaso quebrado). . . serão sempre perceptíveis a olho experiente. No entanto, esse vaso terá certa sabedoria, uma vez que conhece alguma coisa que o vaso que não foi quebrado não conhece: sabe o que é quebrar e o que é ser recuperado[v].

Pode-se considerar o mito junguiano o estudo do sentido de ser esmigalhado ou esmagado. Para muitos de nós que passamos por essa experiência, esse sentido é redentor. É importante sabermos que não fomos quebrados porque somos inferiores, mas porque, aparentemente, Deus quer recipientes quebrados. O Talmude nos diz que os seres humanos rejeitam recipientes quebrados, mas que Deus gosta deles. Jung concorda:

Por causa de sua pequenez, insignificância e impossibilidade de defender-se contra o Todo-poderoso, (o homem) possui. . .consciência um pouco mais aguçada baseada na auto-reflexão[vi].

Não há estímulo mais eficaz à auto-reflexão do que o sofrimento.”

Jaffe, Lawrence W.; A Alma celebra: preparação para a nova religião – Celebrating Soul: preparing for the New Religion, 1999 – (tradução de Euclides Calloni); São Paulo; Paulus, 2002, Sentido do Sofrimento,  pg.s 67 e 68.


[i] Resposta a Jó, Psicologia e Religião, Obras Completas, 11; também Edinger, Creation of Consciousness, p. 70.

[ii] Ibid., par. 600, n 13.

[iii] Ibid., par. 595.

[iv] Memories, Dreams, Reflecions, p. 216.

[v] Revisão de Broken Structures: Severe Personality Disorders and Their Treatment, in “Psychotheraphy Book News”, vol. 26, 15 de outubro de 1992, p. 16.

[vi] Resposta a Jó. . ., o.c.

O Perdão

Mais uma resposta de Jean-Yves Leloup, no livro Além da luz e da sombra:

“. . . O perdão, quando bem compreendido, é um instrumento de cura. Frequentemente ficamos doentes porque não perdoamos e o rancor e a cólera nos corroem o fígado e os rins. A questão é como manter justos o perdão e a justiça, uma boa continuação da pergunta anterior – manter juntos o olho da verdade e o olho da misericórdia.

Creio que não devemos perdoar muito rápido. É necessário, antes de perdoarmos, que expressemos o sofrimento pelo que nos foi feito e a isso chamo justiça. O Sinal da Cruz, tal como era feito nos doze primeiros séculos de nossa era, expressava bem esse sentimento. Começava-se por uma linha vertical, da testa ao peito, em seguida levava-se a mão ao ombro direito e depois ao esquerdo (atualmente faz-se o contrário), simbolizando a passagem da justiça para a misericórdia. Começando sempre pela justiça, exigindo que fosse reconhecido o mal que nos foi feito, o inaceitável de certas situações e de certas violências. Portanto, o pedido de justiça é essencial. Mas é essencial, também, ir além da justiça, em direção à misericórdia, em direção ao perdão, em direção ao lado esquerdo – que é o lado do coração.

O que é perdão? O perdão é não aprisionar o outro nas conseqüências negativas de seus atos. É não nos aprisionarmos nas conseqüências negativas de nossos atos. É não nos aprisionarmos ou aprisionarmos o outro no carma. O perdão é a própria condição para que nossa vida continue a ser vivível. Se não perdoarmos uns aos outros a vida vai se tornar impossível de ser vivida.

Voltando à primeira parte da pergunta, como fazer para que este perdão se torne algo verdadeiro? Platão dizia:”Aquele que tudo compreende, tudo perdoa”. Aquele que se conhece a si mesmo, com suas ambigüidades, suas ambivalências, pode compreender o outro em suas sombras. Portanto, inicialmente, o perdão pode ser uma questão de inteligência, de compreensão. Perdoar você significa que eu o compreendo, mas não quer dizer que eu o desculpo ou que o que você fez é bom. Compreendo que você é um ser humano, que é capaz de me enganar como eu próprio faria se, provavelmente, estivesse nas mesmas condições.

A atitude de Cristo aos que queriam lapidar a mulher adúltera é: “Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra”. Lembrem-se como aos poucos todos se retiraram, do mais velho ao mais jovem. Nesse caso Jesus se serve da Sagrada Escritura, não para mostrar aos outros como eles são pecadores, mas para fazê-la de espelho onde eles podem ver suas fraquezas, suas falhas e compreender as dos outros, não os aprisionando nas conseqüências negativas de seus atos.

Além de perdoar com a cabeça é preciso perdoar com o coração e, vocês sabem, o corpo é o último que perdoa. Se alguém lhes fez mal, se lhes causou sofrimento, vocês podem tê-lo perdoado com a “cabeça”, tê-lo compreendido como o coração, pensar que o passado passou. Entretanto, quando essa pessoa se aproxima, seu corpo se crispa e se enrijece mostrando bem que ele ainda não perdoou, que muitas memórias estão ainda bem guardadas.

Creio que é verdadeiramente uma graça quando nos encontramos perto de alguém que nos tenha feito mal e sentimos nosso corpo calmo, nosso coração límpido. Podemos dizer que, verdadeiramente, estamos curados. Por isso, creio que o perdão é uma prática de cura.

No Pai-nosso se diz: Perdoai-nos do mesmo modo como perdoamos. Como se o dom da vida só pudesse circular em nós dependendo de nossa capacidade de perdão. Se não perdoamos ficamos prisioneiros, bloqueados em uma situação, em um rancor, e a vida não pode circular.

Perdoar não é fácil . . .

Quando eu era um jovem padre e morava no interior da França, todos os domingos levava uma senhora paralítica à missa. Ela era portadora de esclerose em placas. Um dia contou-me do ódio que nutria pela mão porque a tinha impedido de casar-se com o homem que amava, e, apesar disso, passara a vida inteira cuidando da mãe, ocupando-se dela. Apesar de exteriormente comportar-se como uma mulher respeitável e admirável, dizia-me que em seu interior só havia raiva. A dureza de seu coração impregnara seu corpo, transformando-o em um corpo rígido e paralisado. Assim, as doenças psicossomáticas têm, às vezes, uma origem espiritual.

Disse a esta senhora: “Já que você é cristã pode perdoar sua mãe”. Tornou-se encolerizada e, com uma raiva muito densa e muito íntima, respondeu-me: “Não, não, jamais a perdoarei. Minha mãe impediu-me de viver, o que sinto por ela é um veneno que levarei ao túmulo.” Nesse momento compreendi o meu erro e lhe disse: “Você tem razão. O que você viveu é imperdoável. Você não pode perdoar quem a impediu de viver. Mas, pense, creia, o Cristo que existe em você pode perdoá-la”. Atualmente eu lhe diria: “O ego não pode perdoar: Não se deve tentar perdoar com o ego. Entretanto, talvez o self possa perdoar. Talvez haja dentro de nós uma dimensão maior que nós mesmos, mais amorosa que nós mesmos, mais inteligente que nós mesmos, que pode compreender e perdoar”. Passaram-se cinco longos minutos. Em dado momento vi uma lágrima correr pela face daquela senhora. Ela chorou, chorou muito. Levantou-se da cadeira de rodas e saiu andando de seu quarto. Há mais de quarenta anos não chorava, há mais de dez anos não andava. Esse é o milagre do perdão.

Muitas vezes, está acima de nossas forças perdoarmos a partir de nosso pequeno ego. Se disséssemos “Eu te perdôo”, seríamos hipócrita, pois nosso corpo e nosso coração não conseguem perdoar. Porém, podemos abrir-nos a uma dimensão mais vasta que nós mesmos e então o perdão pode chegar.

O perdão não é humano, é um ato divino. Quando Jesus perdoa, seja a mulher adúltera, seja Miriam de Magdala, seja um “colaborador” como Zaqueu, os fariseus que o cercam se perguntam: “Quem é este homem que perdoa? Pois só Deus pode perdoar”.

Assim, é preciso lembrar que, cada vez que perdoamos depois de termos pedido justiça, acordamos para uma dimensão divina de nós mesmos. O perdão é um exercício de divinização onde o humano se torna divino. Continuando humanos, temos que reclamar justiça e, quando for possível, dizer o que foi mau ou destrutivo para nós e pedir uma reparação. Também somos capazes de misericórdia e de perdão. Portanto, é preciso que mantenhamos juntos o humano e o divino dentro de nós. Mantenhamos justas a justiça e a misericórdia. São dois olhos, às vezes estrábicos. Podemos esquecer a justiça e nosso perdão ser superficial, podemos esquecer o perdão e partimos para uma justiça inquisitorial.”

ALÉM DA LUZ E DA SOMBRA: sobre o viver, o morrer e o ser / Jean-Yves Leloup / organização de Lise Mary Alves de Lima; tradução de Pierre Weil, Regina Fittipaldi. 5ª edição, Petrópolis, RJ: Vozes, 2007 (© 2001, Editora Vozes); Parte II – O absurdo e a graça, Perguntas, pg.s 101 a 104).

 

Mais um pouco ded Einstein. Tudo aqui é importante, mas chamo a atenção para a visão dele sobre a “competitividade” – igualzinha à minha (Chato, né!).

“Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornará assim uma máquina utilizável, mas não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto. A não ser assim, ele se assemelhará, com seus conhecimentos profissionais, mais a um cão ensinado do que a uma criatura harmoniosamente desenvolvida. Deve aprender a compreender as motivações dos homens, suas quimeras e suas angústias para determinar com exatidão seu lugar exato em relação a seus próximos e à comunidade.

Estas reflexões essenciais, comunicadas à jovem geração graças aos contactos vivos com os professores, de forma alguma se encontram escritas nos manuais. É assim que se expressa e se forma de início toda a cultura. Quando aconselho com ardor “As Humanidades”, quero recomendar esta cultura viva, e não um saber fossilizado, sobretudo em história e filosofia.

Os excessos do sistema de competição e de especialização prematura, sob o falacioso pretexto de eficácia, assassinam o espírito, impossibilitam qualquer vida cultural e chegam a suprimir os progressos nas ciências do futuro. É preciso, enfim, tendo em vista a realização de uma educação perfeita, desenvolver o espírito crítico na inteligência do jovem. Ora, a sobrecarga do espírito pelo sistema de notas entrava e necessariamente transforma a pesquisa em superficialidade e falta de cultura. O ensino deveria ser assim: quem o receba o recolha como um dom inestimável, mas nunca como uma obrigação penosa.”

Einstein, Albert, 1879-1955; COMO VEJO O MUNDO / Albert Einstein; tradução de H. P. de Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. Tradução de: Mein Weltbild; pg. 16.

Mudanças Sociais

Em seminário realizado em 1998, cá no Brasil, Jean-Yves Leloup dissertou sobre a “arte de morrer”. Fizeram uma indagação, tão atual naquela época como agora (pra mim mais atual hoje), sobre os procedimentos cabíveis diante do descalabro social e político tanto na América Latina, como no Brasil. Eis a resposta do pensador:

“Do ponto de vista prático, podemos dizer que, antes de querer fazer o bem, antes de levarmos luz à sombra, importa não acrescentar sombra a sombra, violência a violência, julgamento a julgamento. Há muito sofrimento no mundo e não é preciso ajuntar mais sofrimento ao sofrimento. Por isso, a primeira coisa que podemos fazer é tentarmos ser felizes, pelo menos um pouco. Porque se estivermos com um pouco de paz, haverá um lugar no mundo em que existe um pouco de paz.

Já contei a vocês o sonho que teve o jovem Davi. Deus lhe disse: “Davi, o mundo vai mal, é preciso salvar o mundo”. Pela manhã, quando acordou, Davi respondeu a Deus: “Sim, Senhor, eu vou salvar o mundo”. Davi perguntou a si mesmo por onde começar, pois o mundo era muito grande. Pensou em começar pelo seu país, mas seu país era muito grande. Por onde poderia começar? Por sua cidade? Mas sua cidade era muito grande. Quem sabe vou começar pelo meu edifício, mas o meu edifício é muito grande. E assim, pouco a pouco Davi compreendeu que ele devia salvar o mundo começando pelo seu próprio quarto, começando pelo seu próprio coração porque a sua inteligência, o seu coração, o seu corpo eram este pedaço de universo que lhe foi confiado, este pedaço da sociedade que lhe foi confiado.

Se quisermos muito mudar os outros, mudar a sociedade sem primeiro mudar a nós mesmos, geramos um totalitarismo que vai conduzir a outro totalitarismo e, quer ele venha da direita ou da esquerda, é sempre a mesma atitude, a mesma vontade de poder. Creio que hoje, uns e outros, somos como Davi. Sabemos o que vai mal no mundo, podemos nos lamentar, julgar a causa deste ou daquele problema, mas nada mudamos porque é preciso começar por este pedaço da humanidade que nos foi confiado. A partir daí as coisas realmente podem se transformar. E essa atitude nossa não será visível imediatamente mesmo que seja efetiva, pois, como nos lembram os físicos, tudo está ligado com tudo e, portanto, todo homem que se eleva, eleva o mundo.

Um dia fizeram a seguinte reflexão à madre Tereza de Calcutá: “Para que serve o que fazeis? Ajudais um ancião a morrer e se olhais na rua eles morrem às centenas. O que fazeis não serve para nada. É apenas uma gota d’água no oceano, uma gota d’água neste oceano de miséria que existe no mundo”. Ao que madre Tereza respondeu: “Eu seu que o que faço é apenas uma gota d’água, mas o oceano é feito de gotas d’água”. Nós todos, cada um de nós é uma gota d’água e é nossa responsabilidade transformar este oceano de miséria e de dor em um oceano de água doce e clara. Esta resposta é um convite a uma prática, às vezes humilde e invisível. Alguns teóricos, com suas grandes teorias sobre as dificuldades econômicas e políticas, sobre a violência, apenas remexem em água lamacenta. E, em vez de remexer em água turva, é preciso trocar de vaso, mudar de comportamento, mudar de consciência. Essa prática nós a encontramos em todas as grandes tradições espirituais da humanidade.

Não se pode mudar o mundo e a sociedade sem primeiro transformar-se a si mesmo. É por aí que é preciso começar. Começar não acrescentando perturbações e dores. Começar por estar em paz, olhando tudo com limpidez e transparência. Então, alguma coisa dessa transformação interior poderá se comunicar ao exterior. É preciso olhar onde estamos colocados na sociedade, o que nos é pedido. A alguns é pedido que falem, que se sirvam de sua inteligência para observar as conseqüências de tal ou tal crise. A outros é pedido que se ocupem de alguém que vive na rua, que trabalhem com suas mãos, que levem um pouco de ternura e paz ao coração de alguém.

Não devemos nos comparar com ninguém e cada um de nós sabe o que, realmente, tem a fazer. Não existem coisas pequenas ou grandes. Existem maneiras pequenas de fazer o que temos a fazer, assim como existem maneiras grandes de fazer as pequenas coisas que temos a fazer. É este caminho que nos foi dado para caminhar. “

ALÉM DA LUZ E DA SOMBRA: sobre o viver, o morrer e o ser / Jean-Yves Leloup / organização de Lise Mary Alves de Lima; tradução de Pierre Weil, Regina Fittipaldi. 5ª edição, Petrópolis, RJ: Vozes, 2007 (© 2001, Editora Vozes); Parte II – O absurdo e a graça, Perguntas, pg.s 104 a 106).

Estou lendo a Antologia do Extase, de Pierre Weil (vocês podem baixar este livro gratuitamente em seu Site), que apresenta inúmeros e variados depoimentos de pessoas que tiveram experiências transpessoais. Coisas muito interessantes. E  não é que ontem meu filho Esli me encaminha um video de Jill Taylor, neuroanatomista, descrevendo seu próprio derrame celebral: relata sua extraordinária vivência do

“NÓS SOMOS UM”

e afirma repetidas vezes:

“Eu conheci Nirvana!, Eu conheci Nirvana!”

Espetacular, tenho que compartilhar.

 Me fez um bem danado conhecer uma análise dos sete principais chakras sob o ponto de vista da psicologia.  Vejam o que Pierre Weil disserta a respeito do quinto chakra.

               ”Sob influência da caça aos prazeres relacionados aos três primeiros níveis, acirrada pela propaganda e manipulação de massa, próprias de nossa cultura industrial fundada na segurança, na sensualidade, na posse e nos poderes de classes sociais, o egoísmo e o egocentrismo, inerentes ao ego narcísico, são estimulados ao máximo. Daí resulta toda espécie de sofrimento e neurose: lutas, competições, agressões, medos e angústias; enfim, mortes em lutas interpessoais e guerras, frutos ainda do primeiro chakra.

                Todo processo de conscientização levam a um descondicionamento dos apegos do ego vinculados aos papéis. São esses apegos que criam o medo de não possuir, de perder ou de não reaver objetos ou pessoas, os quais, como vimos, são apenas formas mais densa de energia. Querendo possuir outros objetos ou pessoas, o ego é uma forma de energia que pretende a posse de outras posses de energia. E isto é bastante ilusório. Vimos também que tal ilusão se cria por outra forma de energia: a mente nos obriga a ver tudo de forma dual. Então, sob o efeito da frustração que resulta da presença de um obstáculo na realização de um desejo com relação aos três primeiros níveis, nascem as tensões ligadas ao stress provocado pela multiplicação das frustrações.

                Quanto mais os processos de conscientização (terapias ocidentais e métodos orientais) conseguem dissolver as dualidades ilusórias, tanto mais estas aproximam o homem da unidade fundamental do Ser, e mais fácil se torna para a energia a ascensão aos níveis superiores ao chakra do coração. À medida que se dissolvem as dualidades e conflitos associados ao prazer e à dor, ao bem e ao mal, ao masculino e ao feminino, à dominação/submissão, a energia se torna disponível para ser aproveitada em outros níveis. Tal disponibilidade se torna patente quando as pessoas em evolução começam a se dedicar uma à outra, começam a amar. É o que caracteriza o quarto nível do coração. A energia potencializada nos três níveis inferiores se atualiza no nível cardíaco.

                O ato de doar, de amar, torna a pessoa progressivamente receptiva e disponível. Essa disponibilidade e abertura são próprias do quinto nível energético.

                O quinto chakra, situado na altura da garganta, tem como característica principal o vácuo. Por isso é simbolizado pelo quinto elemento, o éter. É um lugar de passagem, de recebimento da alimentação, da água, do ar. É também o lugar de vibração sonora, da palavra e do canto, e por isso mesmo considerado o centro de recepção das idéias criativas e, em geral, da aceitação daquilo que vem de cima, a ‘inspiração’ aérea e criativa. Os aspectos alimentares correspondem ao estágio oral da primeira infância, que permanecem ativos em casos neuróticos ou psicóticos assinalados pela psicanálise. Mas, segundo Rama (Ballentine e Ajaya), este chakra se refere sobretudo ao segundo aspecto: o da disponibilidade em receber inspiração dos níveis superiores, entrega e confiança nas forças criativas provenientes dos últimos chakras. A psicanálise tem demonstrado que esta disponibilidade pode ser aniquilada ou seriamente perturbada pela desconfiança esquizoparanóide de origem frustrativa oral deste mesmo nível, mas com origem defensiva do primeiro chakra. O importante é estar disponível para uma ‘alimentação’ psicológica, de origem ‘transpessoal’, que transcende o ego dos três primeiros chakras e se diferencia muito daquilo que chamamos ‘pseudofusão’, característica de regressões psicóticas. Aqui se situa a aceitação de viver, do ritmo respiratório e da mensagem que lhe está subjacente. Efetivamente, podemos sustar voluntariamente a respiração e nos expor à morte, fechando os músculos da garganta de tal modo que o ar não passe mais. A mensagem que a respiração nos dá é a seguinte: se paramos de respirar com os pulmões cheios, morreremos, pois pretendemos guardar para nós o que não nos pertence. Em outras palavras, tudo o que recebemos terá de ser devolvido mais cedo ou mais tarde. De nada adianta ser possessivo. Se, ao contrário, nos recusarmos a inspirar o ar trancando a passagem da garganta, depois da expiração, também correremos o risco de morrer. A natureza, portanto, nos obriga também a receber. Se deixarmos de receber, não poderemos viver. O mesmo se diga da recusa oral de alimentação ou da recusa possessiva de evacuação anal, que, aliás, lembra muito a relação da analidade com certos mutismos observados nas psicoterapias e enfatizados pela psicanálise.

                A emissão da voz se liga também à passagem do ar e à respiração. O grito de terror se associa ao primeiro chakra, o do gozo ao segundo, e o da raiva ao primeiro e ao terceiro chakras, enquanto o timbre de voz carinhosa depende do chakra do coração. A emissão da palavra é própria do quinto centro energético, que, através da palavra, liga este chakra ao pensamento, que nada mais é do que a interiorização da vibração sonora da linguagem. Linguagem, pensamento e respiração são realidades inseparáveis, como afirma Gaiarsa. Também é o centro de emissão da linguagem criativa, da poesia, da literatura, do pensamento filosófico, da expressão verbal, de toda espécie de criação. Voltamos aqui ao que já afirmamos mais acima, no que se refere à criatividade: a fonte da linguagem e a da criatividade ligadas ao penúltimo chakra. No ioga empregam-se certas palavras ou  ‘mantras’, para se chegar, numa viagem interior, à fonte das palavras e da linguagem, que é a fonte do Ser. Toda pessoa criativa deixa falar sua voz interior e se torna receptiva ao que vem de dentro dela. É o que faz o artista, o poeta, o escritor e o homem de ciência. A linguagem simbólica é o elo de comunicação com os dois últimos chakras. Estamos aqui em plena psicologia da escola de Carl Gustav Jung.”

AS FRONTEIRAS DA EVOLUÇÃO E DA MORTE -Os limites da transformação da energia no homem; III.Os níveis de realidade; 1. A realidade interior; Weil, Pierre; Petrópolis, RJ; Vozes, 1983; pg.s 62 a 64.

 

Recebi hoje este texto de uma pessoa muito querida, que gostaria de compartilhar:

“Quando você sente que existe algo que você, e somente você, precisa fazer, mas não sabe exatamente o que é, o que você faz? Quando você se sente fortemente impelido a realizar algo, quando o sentido de missão toma conta de você, e te chama para agir de um jeito que ninguém agiria, a fazer o que ninguém faria. Quando você sabe que não é necessário esperar nada em troca, pois seu maior premio já lhe foi concedido, na gratuidade, antes de qualquer realização pela força criadora do amor: sua vida nesta terra. O que você faz? 

Quando existe uma briga dentro de você onde um lado o leva a buscar a recompensa pelo ato a ser realizado, quer seja esta recompensa financeira, ou um simples reconhecimento social, e o outro lado o pede para agir imediatamente, sem busca de retorno ou recompensa, que você faz? Zanga-se? Encontra um culpado para deixar de fazer o que é preciso?

Não estamos no lugar que estamos, convivendo com quem convivemos, por coincidência, por obra do acaso. Temos, cada um, no lugar onde temos a possibilidade de realizar nossa missão, quer seja na construção imediata de uma nova realidade coletiva, quer seja na construção de uma nova e mais consciente realidade interior. O que nos move é o amor, é o desejo de manter e preservar esta vida nesta terra. Qualquer reação que não reflita amor está em conexão com o SISTEMA, e não com a Criação.

A quem ouvimos, com quais energias estamos sintonizados? 

Cada vez mais nos vemos cercados pelo SISTEMA, sofrem mais aqueles que já atingiram algum grau de consciência acerca do controle que tenta nos dominar, mas não dão os passos necessários para sua caminhada; sofrem menos aqueles que aceitam seu papel, naquilo que fazem, e dizem não, conectados com seu interior. Sempre foi assim, desde a antiguidade. Hoje, porém, a quantidade de despertos é maior, e eles estão em várias esferas de nossa sociedade, ajudando a encaminhar para a LUZ aqueles que assim escolheram, apesar dos riscos que esta escolha representa. 

Pessoas com objetivos comuns unem-se, pela força da grande inteligência. Algumas vezes entre elas formam-se elementos que deturpam o verdadeiro objetivo de sua união. Relações de trabalho regidas pelo capital, pela competição, impedem ou dificultam a ação do AMOR para a produção da mudança necessária; a liga não se dá no nível da colaboração mas sim da competição e da exploração. 

O individualismo atualmente impera e impede que as pessoas se vejam em sua essência. As forças superiores as colocam juntas e é preciso esforço para que permanecem juntas pelo propósito que as uniu. 

Casamentos, amizades, empresas… isto acontece a todo momento. Somos ainda pouco evoluídos para perceber as forças que nos controlam e abdicar de agir movidos por qualquer coisa que não seja nosso EU SUPERIOR, que não seja o grande Amor que nos une a todos. 

Precisamos mudar nossas relações, precisamos dar chance de criar novas formas de trabalho e de relacionamento, novas formas de criar em conjunto. Novas formas menos egoístas e não centradas no medo da perda: perda da propriedade, perda do poder, perda do status, perda da falsa sensação de segurança oferecida pelo SISTEMA, que nos deixa cego para nossa mais profunda e assustadora realidade atual: a de que juntamente com a destruição do planeta, estamos, em nossos menores atos, aprisionando a essência do outro e a nossa em conseqüência disto…estamos nos desumanizando….”

Sandra Souza

Cuidado com a Normose

Através de minha irmã recebi um texto que achei espetacular. Perguntei-lhe se era dela e se podia postá-lo; não era, mas indagou de quem o recebera; também não era de sua autoria mas entendeu que nada impediria sua publicação. Logo, aí vai ele – e espero que gostem tanto quanto eu. 

Normose
Lendo uma entrevista do professor Hermógenes, 86 anos, considerado o fundador da ioga no Brasil, ouvi uma palavra inventada por ele que me pareceu muito procedente: ele disse que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal. Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar. O sujeito “normal é magro, alegre, belo, sociável, e bem-sucedido.

Quem não se “normaliza” acaba adoecendo.
A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento.
A pergunta a ser feita é: quem espera o que de nós?
 
Quem são esses ditadores de comportamento a quem estamos outorgando tanto poder sobre nossas vidas?
Eles não existem. Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado.
Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha presença através de modelos de comportamento amplamente divulgados. Só que não existe lei que obrigue você a ser do mesmo jeito que todos, sejam lá quem forem todos.
 
Melhor se preocupar em ser você mesmo.

A normose não é brincadeira.
Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer o que não se precisa. Você precisa de quantos pares de sapato? Comparecer em quantas festas por mês? Pesar quantos quilos até o verão chegar?

Não é necessário fazer curso de nada para aprender a se desapegar de exigências fictícias.
Um pouco de auto-estima basta.
Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e sim aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu “normal” e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante.
O normal de cada um tem que ser original.

Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros.

É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.

Por isso divulgo o alerta: a normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes.”

P.S: Se você conhece o autor, por favor nos informe para que o divulguemos.

Abaixo as reflexões finais do livro AS FRONTEIRAS DA EVOLUÇÃO E DA MORTE – os limites de transformação da energia no homem, de Pierre Weil (Petrópolis, RJ; Vozes, 1983, 2ª edição, pg.s 123 a 127).

Você pode obter muito mais deste autor em seu Site: http://www.pierreweil.pro.br/Brazil.htm

“De uma determinada geração de homens e mulheres

bem poucos alcançam a finalidade suprema da vida

humana. A oportunidade de chegar ao conhecimento

 unitivo será, de uma forma ou de outra, oferecida,

até que todos os seres humanos compreendam, de fato,

quem eles são”

Aldous Huxley

                Estamos agora no fim de mais uma jornada, de mais uma viagem através da Realidade. Considero cada um de meus livros como tal.

                Neste fim de viagem, convém pararmos e tentarmos algumas reflexões complementares e sintéticas. Mostramos, antes de tudo, que nossa vivência da Realidade, interna e externa, depende do estado de consciência em que nos encontramos. E lançamos a fórmula:

VR = f(EC)

                A Vivência da Realidade VR é função f do Estado de Consciência EC. Esta fórmula permitirá, se convenientemente divulgada, dirimir inúmeros mal-entendidos entre os que falam da realidade dentro de um determinado estado de consciência e outros que se referem à mesma realidade, mas dentro de outro estado de consciência.

                Cada vez que uma pessoa se pronuncia sobre alguma coisa ou divulga alguma descrição da Realidade, deveria esta sua afirmação ser precedida de uma declaração quanto ao EC (Estado de Consciência) em que fala. O mesmo podemos dizer de todas as ciências que são na realidade ciências emitidas em determinado estado de consciência.

                Dentro do estado de consciência de vigília, predominam a dialética dos opostos, o princípio de contradição, a percepção da lei dos antagonismos da energia, pois os nossos cinco sentidos, a linguagem e a atividade mental nos levam fatalmente ao mundo da dualidade. A dialética é própria deste estado de consciência e faz parte do mundo pessoal do ego e da mente. A sua função é ajudar o homem a sobreviver e a evoluir, descobrindo aos poucos, através da eliminação progressiva, das contradições, o seu caráter ilusório. Assim se transpõem progressivamente as dualidades próprias a cada nível energético que descrevemos neste livro. Ao desmistificar a dualidade própria a cada nível evolutivo, o homem se desapega também das características próprias a este nível. Desfaz-se do medo de perder aquilo que ele já não valoriza mais até chegar, como a micro-física, aos confins das possibilidades de uso da linguagem e da mente, até que tenha que superar a última dualidade: eu/mundo. Ao transpor esta última fronteira, terá de abandonar toda veleidade de usar a mente, o pensamento, pois terá chegado à conclusão experiencial de que a partir daí a mente lhe prejudica a consecução da verdade.

                Do nível de consciência pessoal terá ele chegado ao nível transpessoal. É o que aconteceu com Lupasco, que tentou trilhar os caminhos do uso da mente, isto é, da lógica formal até as suas últimas conseqüências. Lupasco chegou aos limites a que pode chegar a dialética.

                A dialética, produto da mente que vivencia a realidade dentro do estado de consciência de vigília, tem uma função precípua, a mesma que este estado de consciência: permitir ao homem sobreviver dentro do mundo da energia densa que é a matéria. Por isso mesmo sente-se ela à vontade dentro dos primeiros níveis energéticos descritos neste livro.

                Os níveis transpessoais de consciência, ao contrário, permitem uma vivência da Realidade, da mesma realidade, diferente da dialética. Eles levam a uma vivência holística, molar, unitiva.

                Quer isto dizer que a dialética é desprezível? Certo que não. Ela é válida para o estado de consciência de vigília e sua utilidade não se coloca em questão aqui. Apenas ela chega a certos limites que foram justamente transpostos por Lupasco, quando descobriu que existe dentro do homem a afetividade que escapa à lei do antagonismo da energia. E chegou a isso depois de ter estado todas as possibilidades da lógica formal de não-contradição e criado uma nova lógica de contradição.

                Lupasco teve o mérito de verificar a validade dos seus princípios energéticos em todos os níveis do universo e em todas as ciências das partículas subatônicas até as nebulosas, da célula até a vida psíquica. Em todos os níveis e em todas as ciências que os estudam, encontrou ele a mesma lógica do antagonismo.

                Mesmo na vida psíquica, o próprio conceito não escapa a esta lógica. Efetivamente, um conceito é resultado de um equilíbrio T entre heterogeneização e homogeneização que procuram se atualizar e só chegam a meio caminho entre atualização e potencialização. Por exemplo, falar de um homem consiste, ao mesmo tempo, colocá-lo dentro de uma categoria homogênea, afirmando que todos os homens são iguais e, no entanto, discriminar este homem dos outros, tornando-o heterogêneo pela cor dos cabelos, sobrenome, tamanho, etc. O sono, o sonho, a memória e a imagem, obedecem à mesma lógica.

                Lupasco notou apenas uma exceção que o levou a inferências muito importantes: afetividade não obedece a nenhuma das leis enunciadas aqui. Ela aparece e desaparece sem haver nenhuma potencialização ou atualização do homogêneo ou do heterogêneo dentro dela.

                No nível orgânico ela surge sem ter nenhuma ligação com o sistema em que aparece como um sinal de alteração do equilíbrio. É ela que constitui o sinal de consciência da necessidade de se restabelecer o equilíbrio. A consciência é a sede da afetividade orgânica, da dor assinala o desequilíbrio e do prazer de restabelecer o conflito antagônico. A consciência é também a sede da afetividade psíquica, da emoção e do sentimento. O próprio amor é a manifestação de um princípio unitivo, pois o amor leva à união, à eliminação do desequilíbrio. A afetividade surge quando há desequilíbrio entre as forças. E aparece como tendo ua natureza própria e diferente da energia. Todo sistema energético, intelectual, orgânico ou molecular é uma relação. Uma coisa, um sistema, só existe em relação a outra coisa ou a outro sistema. A afetividade existe por si só. Ela é porque é. Aparece na consciência na potencialização, como produto de uma atualização desequilibrante.

                Qual a razão de sua existência dentro da consciência? Tudo indica que a afetividade e a consciência fazem parte ou são a manifestação de um princípio unificador, pois surgem justamente quando o conflito dos antagonismos se dissolve, isto é, aparecem para restabelecer um equilíbrio de forças.

                Cada desequilíbrio de forças obriga, pela dor que desperta na consciência, a restabelecer o conflito, isto é, a restabelecer uma unidade que contém os antagonismos, pois não pode haver um sem dois. Mas não pode haver também um sem zero. É do zero que provém a energia simbolizada pelo um que implica a dualidade antagônica do dois.

                A pergunta que agora se impõe é esta: quem restabelece o conflito necessário para a unidade? Só há uma resposta possível: é este princípio unificador ao qual se deu o nome de self.

                O self hoje já não é um princípio abstrato e produto de meras deduções lógico-metafísicas. Pode ser experimentado dentro de cada um de nós, tal como se pode vivenciar e constatar um sonho, um pensamento, uma lembrança ou emoção.

                Através de métodos próprios, como a psicossíntese de Assagioli, do sonho acordado de Désoille, de técnicas de meditação do ioga ou do za-zen, do cosmodrama criado por nós e que se inspira na psicanálise do psicodrama, da gestalt-terapia e dos outros métodos que acabamos de citar, conseguimos experienciar o self.

                O self PE o princípio, dentro de cada um de nós, que nos faz superar os desequilíbrios da dualidade própria das percepções do ego. O ego é dual, é produto da identificação do self com a vida mental, emocional e física. Nós o descobrimos através da desidentificação, do afastamento, da tomada de distância dos nossos próprios sistemas e subsistemas. Se temos corpo e mente, não somos este corpo e esta mente. Podemos servir-nos deles para cumprir nossa tarefa de existir que consiste justamente em consolidar, fortalecer a formação desta consciência maior da existência deste self. Isso se dá passando-se de um nível de consciência a outro, de um estado de consciência a outro, ou, melhor ainda, mudando progressivamente de nível de sistema dentro da hierarquia que descrevemos. Cada nível obedece à lógica do antagonismo, mas a passagem de um nível a outro nos permite chegar gradativamente à realização do self como parte integrante do self universal.

                É esta realização que constitui a finalidade última de todos os seres humanos. Uns vivem mais conscientes disso do que os outros. Mas todos procuram, a maioria sem saber, reencontrar o “paraíso perdido”. A tendência mais comum é procurá-lo no mundo exterior, nos prazeres efêmeros propiciados pela nossa civilização de consumo. O presente livro mostra que este “paraíso perdido” se encontra dentro de cada um de nós. Cabe a nós mesmos e só a nós mesmos reencontrá-lo. Ninguém mais pode fazer isso por nós. O que fizemos aqui é apontar as etapas, as fases. Demos o mapa. Fornecemos a cartografia. Cabe ao leitor seguir a rota traçada. Só ele poderá fazê-lo, se assim o desejar, da forma que o desejar e puder, com ou sem mestre exterior, mas sempre com a força interior.

                O homem é um potencial, uma grande semente que precisa se abrir, crescer, dar flor, desabrochar: em suma, atualizar o self, o seu ser interior. Esta é a sua tarefa essencial. Enquanto não tiver atingido esta experiência sublime e aprendido a se reerguer de sua queda adâmica adquirindo plena consciência de si mesmo, enquanto o homem inteiro não se tiver desenvolvido a partir dos animais da esfinge, enquanto não tiver adq2uirido a plena consciência de si mesmo e de sua unidade com o universo, ele sentirá que está lhe faltando algo. Sentirá uma saudade interior. Haverá uma sereia a cantar e a lhe dizer que ele  não atualizou o seu potencial.

                Mesmo que tenha atualizado todos os seus potenciais, realizado todos os seus desejos de riqueza, fama, poder e sexo, ele estará sentindo que algo lhe falta. Ver-se-á como um potencial não atualizado. E se alcançar essa realização, nesta sua existência, a própria morte adquirirá um significado diferente para ele, como é o caso experienciado por todos os que passaram para este novo e mais real estado de consciência. Longe de uma alienação da realidade, como muitos o concebem, quem alcança esta realização verdadeira está mais em paz consigo mesmo e com os outros, mais integrado e sensível à vida social, mais disponível e aberto para acabar com o sofrimento humano de toda espécie.

                Mas, querendo ou não, o Homem morre e renasce a si mesmo no plano físico, emocional e mental, a toda hora. Cabe a ele, e só a ele, tomar consciência desse fato relevante da sua existência. Será este o começo de sua maior realização.”

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