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OS TEMPOS MUDAM

 

Outro dia, no rápido interregno (3 horas ou +) de espera por uma consulta, vi uma menina (30/40 anos) que me chamou a atenção. Lembrei-me de algo que se cantava 60 anos atrás:

Cintura fina, cintura de pilão.

                Vem cá menina linda, vem cá meu coração.

 

E agora, como se cantaria:

Vem cá menina linda,

                Tão bem alimentada.

                               Traz aqui seu pneuzinho

                               De truck fora de estrada.

                Traz logo este corpo adiposo

                Que eu aliso com carinho.

Há!!! Precisei fazer uma pequena substituição na penúltima linha, pois o meu veio poético foi mal compreendido.

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Quando sentires da vida o cansaço

e tiveres vontade de chorar…

Quando conheceres a dor do fracasso

e teu coração de tristeza penar…

 

Quando não vires estrelas no céu

a brilhar na escura amplidão,

e notares que a dor, como um véu,

obscurece o teu coração…

 

Lembra que alguém pensa em ti

Com saudade, enlevo e amor

e ajudar-te deseja, aqui,

à esqueceres das mágoas a dor.

 

APRENDENDO A VIVER, STOPATTO, Siléa, Rio de Janeiro, RJ: Eclesiarte Bureau de Edição Ltda, 2013, pg. 35.

 

dialetica

                                                                             livrepensamento.com

Segunda parte da décima sétima aula do CURSO NOVA HUMANIDADE, ministrado por Huberto Rohden, em 30/08/1977.

Coexistência de Inteligência e Espírito

Só existem no universo inteiro duas potências grandiosas: a inteligência e o espírito. Ambos são do universo. A inteligência é o polo negativo, e o espírito é o polo positivo do universo. Elas são contrárias uma à outra? Não. Tanto a inteligência vem da Divindade como o espírito também vem da Divindade. Vamos tentar usar a linguagem dos filósofos para explicar isto: Diremos que a Divindade é a tese. Em contraposição à Tese temos duas Antíteses (anti = contra): uma contraposição positiva – o Espírito; e uma contraposição negativa – a Inteligência. E estas duas podem se unir em uma composição, ou seja, em uma síntese.

Quando consideramos o Espírito (antítese positiva) e a Inteligência (antítese negativa), separadamente, nós temos a impressão de que uma é contrária à outra. Que não há compatibilidade entre Inteligência e Espírito.

A Bhagavad Gita afirma que a Inteligência é a pior inimiga do Espírito, mas o Espírito é o melhor amigo da Inteligência. Inteligência também se chama Ego (Antítese negativa), e Espírito se chama EU (Antítese positiva), a nossa alma.

Então, a Bhagavad Gita diz: “o Ego intelectual é o pior inimigo do Eu espiritual”. E isto é verdade. “Mas, por outro lado, o Eu espiritual não é inimigo do Ego intelectual”. E por causa disto pode haver um tratado de paz entre as duas antíteses. O tratado de paz não pode partir da Inteligência. O Ego não vai fazer tratado de paz com o Eu. Mas o Eu, o Espírito, que é amigo da Inteligência (embora a Inteligência seja inimiga do Espírito), pode influenciar a Inteligência ao ponto desta se conciliar com o Espírito. Esta é a única esperança. O menor não pode fazer as pazes com o maior, mas o maior pode convidar o menor para fazer as pazes.

E quando os dois fazem a paz, então, se dá a Síntese.

Quando nós olhamos como míopes, só por um lado, dizemos: “Inteligência e Espírito são irreconciliáveis, não há possibilidade de Síntese”. Mas não é verdade. A divindade não creou coisas incompatíveis. Os dois polos são sempre polos complementares.

 

A bipolaridade no universo

Toda a natureza está cheia de bipolaridade. Toda a natureza é feita na base de bipolaridade. Não existe nada na natureza que não tenham dois polos: polo positivo e polo negativo. Nem no mundo físico, nem no mundo orgânico, nem na metafísica, nem no mundo espiritual. Um átomo tem dois polos: o positivo que denominamos próton, e o polo negativo que denominamos elétron. Os astros têm dois polos: atração e repulsão. Não pode haver atração sem repulsão, nem repulsão sem atração. A atração é positiva e a repulsão é negativa. O universo é todo baseado em atração e repulsão. Toda a eletricidade é positiva e negativa – a luz é bipolar, é uma síntese entre o positivo e o negativo. E toda natureza é assim.

E na humanidade, em todos os seres vivos também há positivos e negativos: a um se chama masculino e ao outro se chama feminino. Existem as amebas, mas que não são organismos, são células; as bactérias que não são organismo são células isoladas: aí não há dois polos. Não, neste sentido. Talvez em outro sentido haja, mas neste não. Mas se vocês vão ao plano superior dos vegetais… – todo vegetal se multiplica por dois polos, pelo masculino e feminino. Pelos órgãos masculinos e femininos, em síntese.

 

A não síntese entre Inteligência e Espírito

Onde não há síntese entre as antíteses, não acontece nada. Esta mesma regra também vale para o nosso caso. Aqui está o Espírito – um polo da antítese. E aqui está a Inteligência que é outro polo da antítese. Nós pensamos sempre que sejam eternamente incompatíveis. Mas, isto é miopia nossa. A tese, que é a Divindade, não iria crear duas coisas eternamente incompatíveis. Temporariamente incompatíveis sim – porque isto é necessário para a evolução. Eternamente incompatíveis – não existe nada no mundo.

Tudo é temporariamente contrário, mas realmente complementar. O polo positivo e o polo negativo da luz são polos complementares. Não são polos contrários. O masculino e o feminino são polos complementares. Não são polos contrários. O Próton (positivo) e o elétron (negativo) são polos complementares para formar o átomo completo. A atração e repulsão na astronomia são polos complementares para formar o universo. E assim também é aqui no mundo metafísico. Estamos aqui falando do mundo metafísico, fora da física.

Há uma possibilidade de síntese entre o positivo do Espírito e o negativo da Inteligência, porém, não é fácil de acontecer. E o primeiro casal, de que fala o Gênesis, não fez a síntese, ficou na antítese, estagnando. A inteligência cometeu uma sabotagem quando disse: ‘não vos deveis sintetizar com o Espírito’. O Espírito se chama o sopro de Deus, no Gênesis – é polo positivo, a antítese positiva. Deus aplicou o seu “sopro” no homem para que ele se tornasse a imagem e semelhança de Deus. O sibilo da serpente, a fala da serpente é a antítese negativa. A serpente é a Inteligência transcendente, que falou a Eva disse: “não, vós sois somente inteligência, não tendes nada que ver com o espírito”. Quer dizer, isolou a Inteligência do Espírito. Esta é a sabotagem e não é um ato individual, é uma tentativa de sabotagem cósmica.

O corpo do homem é animal – imagine isto como uma linha horizontal.

Mas, recebeu o espírito, o sopro de Deus. Imagine o sopro de Deus como uma linha vertical descendo perpendicular sobre a linha horizontal que significa o corpo animal do homem. É o sopro de Deus penetrando no corpo animal para iniciar uma evolução. Se a vertical se une à horizontal deve acontecer o início da evolução.

Só na horizontal não há evolução. Aqui há zero. Na linha vertical teremos 90º, que é o ângulo reto. Na horizontal do animal, grau zero. Mas entre 90º e zero, há muitos outros graus. A evolução começa então com 1º; depois sobe um pouco mais… 2º; sobe um pouco mais, 3º. vai subindo… rumo ao espiritual, ao vertical. O espiritual é o vertical. Isto é a trajetória da evolução do animal para o homem sob o impacto do espírito. Vocês podem representar isto geometricamente com muita facilidade. Se aqui está o espírito de Deus, que exerceu o seu impacto sob o corpo animal, deu ao corpo animal a possibilidade de sair do zero, que é pura animalidade e subir 1º grau, pelo menos, eu chamo isto hominal, em vez de humano.

Animal é zero. Deixando o zero e subindo até 90º na vertical, é o Hominal. Se um homem ainda tem 89º de animalidade e apenas um grau de hominalidade é um homem muito primitivo, apenas um pouquinho acima do animal. Mas existe a possibilidade dele chegar aos 90º de Espiritualidade; porque a evolução pode ir até vertical – O homem perfeito, o homem integral, vamos dizer, o homem cósmico.

Na horizontal está o homem animal. Quando atinge 45º de Espiritualidade já está a meio caminho da sua evolução definitiva. 45º é a metade de 90º. Então a evolução veio do zero, passou pelos 45º, e continuou subindo até chegar aos 90º. Este é o plano cósmico da divindade: o animal recebeu o sopro divino e deve começar a sua homificação, a sua humanização – se quiserem. Esta foi a ordem de Deus.

 

A Sabotagem

O que fez a inteligência? A inteligência em vez de fazer evolução, fez involução, para baixo. É evidente pelo texto do Gênesis. Todo o pecado da inteligência é que ela frustrou, sabotou a evolução espiritual e preferiu a involução, não animal, mas infra-animal. Se fosse apenas animal não seria involução, seria estagnação. Se o homem ficasse no plano do animal, então, estaria estagnado, ficaria parado na horizontal. Se ele fosse acima do animal ele faria uma evolução – a evolução é para cima. Mas se ele caísse debaixo do animal, então seria uma involução. E se o homem começa a fazer uma involução, quando é que ele vai começar a evolução?

E a inteligência quis barrar e frustrar a evolução humana. Convidou os homens a involver em vez de evolver. Involver é para baixo. Evolver é para cima. Estagnar é no meio. Tudo que está no Gênesis é uma tentativa de involução. Isto é o grande crime cometido pela inteligência, seja inteligência transcendente, seja inteligência imanente, não vamos decidir isto agora. O certo é que um poder muito grande que é a inteligência se opôs à evolução espiritual e induziu os homens a uma involução infra-animal

Por que infra-animal e não estagnação animal? Porque se a inteligência aconselhasse a ficar apenas no plano animal, ainda havia perigo de poder subir para a evolução. Mas se a inteligência convida o homem a descer abaixo do plano animal, portanto, não estagnação, mas involução… (o Gênesis supõe uma involução) – então, não há nenhuma esperança do homem alcançar uma evolução. Se a inteligência apenas deixasse o homem na estagnação e dissesse: ‘vocês não precisam ser seres espirituais, não precisam ir rumo à vertical. Fiquem paradinhos aqui no plano animal, puro animal’. Isto já seria um crime. Seria uma rebeldia contra os poderes espirituais. Mas isto não aconteceu. Pelo que o Gênesis diz, a inteligência não convidou o homem para estagnar no ponto zero, no ponto do animal.

Convidou os homens a regredir, a decair. Ir abaixo de zero, abaixo da animalidade, para garantir a impossibilidade de subir até a espiritualidade. Ele dificilmente chegará aos 90º da Espiritualidade.

Quem começa uma involução dificilmente vai chegar à evolução. Porque entre a involução e a estagnação já há um espaço muito grande, e entre a estagnação zero e a evolução espiritual, há mais uma distância enorme. Então, o que a inteligência transcendente fez foi conduzir – ou seduzir, propriamente – o primeiro casal a passar da animalidade para a infra-animalidade, da estagnação para a involução, para que ele nunca chegasse à evolução.

Este é o tal crime. É a sabotagem, uma sabotagem luciférica.

 

O poder das trevas

A humanidade foi sabotada desde o princípio por um poder misterioso chamado serpente, de se afastar de seu verdadeiro destino; e regredir para baixo. Agora não pensem que eu tenha inventado isto. Vou citar as palavras do Cristo para comprovar isto.

O maior homem da história, Jesus o Cristo denomina a inteligência de ‘o dominador deste mundo’ e depois ele acrescenta, a inteligência é ‘o poder das trevas’. Porque o espírito é o poder da luz. O positivo é o poder da luz: “Eu sou a luz do mundo.” E o contrário de luz é as trevas. O contrário de positivo é negativo. Como a inteligência é treva, a inteligência domina o mundo, mas é o poder das trevas.

Jesus disse a seus discípulos: “O dominador deste mundo, que é o poder das trevas, tem poder sobre vós”. Ele declara que o poder das trevas que é o dominador deste mundo, que é a inteligência antiespiritual, tem poder sobre seus discípulos e sobre todo o mundo. Imaginem, no tempo de Jesus ainda o mundo está sobre o poder das trevas. Toda a humanidade está escravizada pelo poder da inteligência e não do espírito.

Depois Jesus acrescenta: “O poder das trevas tem poder sobre vós, mas sobre mim ele não tem poder, porque eu já venci este mundo”. Isto ele podia dizer, nós não podemos dizer isto. Nenhum de nós pode dizer que o poder das trevas que é a inteligência, contrária ao espírito, não tem poder sobre nós, porque nós somos todos escravizados pelo poder das trevas. A humanidade toda.

 

Nova tentativa de sabotagem

Depois, na tentação a que todos os Evangelhos se referem – a tentação de Jesus -outra vez o conflito entre as duas potências. Entre a inteligência e o espírito. Depois de 40 dias de jejum no deserto Jesus enfrenta o poder intelectual, que se chama satanás, que também se chama diabo. Diabo, satanás, inteligência, serpente, tudo isto é a mesma coisa. No Apocalipse se chama o dragão, que é a antiga serpente.

Então, na tentação aparecem as duas maiores potências do universo: a inteligência tentadora e o espírito tentado. Cristo é o espírito. E o anticristo, que o tenta, é a inteligência. Então, o que é que diz a inteligência ao espírito. O que é que, na tentação, a inteligência diz ao espírito; o que é que o intelectual diz ao espiritual. O que é que o poder das trevas diz à luz do mundo. Diz o seguinte: eu te darei todos os reinos do mundo e sua glória – é a inteligência que fala, talvez a inteligência transcendente. Eu te darei, Jesus, todos os reinos do mundo e sua glória, (porque a inteligência se interessa por isto) porque são meus. Vejam bem, quando eu ouvi isto pela primeira vez eu disse: ‘mas que mentira é esta. A inteligência afirmar que todos os reinos do mundo e sua glória são da inteligência’. Mas, é claro que são, quem fez tudo isto?

Não foi a inteligência que fez todos os reinos do mundo e sua glória? Não foi o espírito que fez. A inteligência é que faz isto. Então, a inteligência oferece ao espírito. O anticristo oferece ao Cristo todos os reinos do mundo e sua glória porque são meus, diz a inteligência. O tentador é a inteligência. E o tentado é o espírito. Todos os reinos do mundo e glória são meus e eu os dou a quem eu quero. Eu sou o dono do mundo. Eu dou o reino do mundo a quem eu quero. Portanto, é a inteligência que confirma o que Jesus tinha dito: “O dominador deste mundo, que é o poder das trevas, tem poder sobre vós”.

Mas, pela primeira vez a inteligência encontrou um homem sobre o qual ele não tinha poder. A inteligência não tinha poder sobre o Cristo, porque o Cristo já havia vencido o mundo. Lá estava um homem 100% espiritual. Um homem que está na vertical de Espiritualidade – o Cristo, sob o domínio absoluto do Espírito. Pela primeira vez a inteligência encontrou um homem que não a quis obedecer.

A inteligência convidou o espírito do Cristo: “prostra-te em terra e adora-me”. Porque a inteligência prometeu todos os reinos do mundo e sua glória, mas não de graça. A inteligência não dá nada de graça. Isto não é bom. Isto é impossível para a inteligência. A inteligência cobra caro. Se ela promete coisas grandes ela cobra muito e ela cobrou o maior preço que ela podia cobrar. “Jesus, tu estás de pé, faça o favor de ajoelhar diante de mim e dizer, inteligência, tu és a minha divindade”. Isto é o que ele queria. Que Jesus caísse de joelhos diante do tentador e adorasse o tentador como seu Deus. E pela primeira vez ela se enganou.

Quando ela faz isto conosco, nós aceitamos. Se a inteligência nos promete todos os reinos do mundo e sua glória, será que nós não vamos aceitar um negócio destes? Nós aceitamos um negócio muito menor. Não precisa ser todos os mundos e sua glória. Basta um farrapinho qualquer. Um farrapinho qualquer chega. Um pouquinho só. Não 100%, 10% chega, 1% chega. A nossa inteligência capitula com armas e bagagens diante de qualquer farrapinho deste mundo. É porque nós somos fracos. Estamos muito perto da animalidade.

Eu explico isto para vocês verem que eu não estou inventando que a sabotagem foi desde o princípio feito pela inteligência. Ela sabotou o primeiro casal, não conseguiu sabotar o Cristo. Porque já era outra coisa, Adão e Eva não eram homens altamente espirituais. Eles estavam rastejando próximos ao ponto zero da animalidade. Talvez tivessem 1º de evolução, talvez 2º de evolução. Mas, estavam perto da animalidade. Não estavam muito acima da animalidade.

 

A vitória final

Os nossos bons teólogos, nos querem fazer crer que Deus fez o homem perfeito. Fez um Cristo. Adão era um Cristo para eles – perfeitíssimo. E, contudo foi derrubado. Um homem que fosse da perfeição do Cristo, nunca podia ser derrubado pelo tentador.

Mas, Adão foi derrubado. Primeiro a mulher, e depois ele – o homem – através da mulher. Caíram os dois. Quer dizer que capitularam diante da inteligência antiespiritual. Isto eu chamo a sabotagem luciférica, que a inteligência quer fazer em todos os tempos e que ela conseguiu fazer no Gênesis, com os primeiros homens. Ela tentou pela segunda vez fazer isto com o Cristo, mas ela não conseguiu.

Jesus não caiu de joelhos diante da inteligência e disse: “Eu te adorar? Eu o Espírito, te adorar, Inteligência?”. Não, ficou de pé e disse: “Vai à minha retaguarda, tu pões-te na vanguarda? Na vanguarda vou eu, o Espírito. A Inteligência tem que ir à retaguarda”. A tradução é muito infeliz, eles dizem: “Vai-te embora”. O espírito não pode mandar a inteligência embora. Ele só pode mandar a inteligência para a retaguarda. “Vá de retro” – em latim. Retro é o radical de retaguarda. Inteligência põe-te na retaguarda e não te ponhas na vanguarda. Na vanguarda vou eu. Esta foi a resposta do Cristo.

Mas, a resposta do primeiro casal não foi esta. O primeiro casal adorou a inteligência e se deixou derrotar pela inteligência antiespiritual. “Porei inimizade entre ti e a mulher” – disseram os Elohim. Entre ti serpente e a mulher. Não esta mulher que agora caiu vítima da inteligência. A mulher futura. “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre teu descendente e o descendente dela”.

Ele – a Vulgata diz “ela”, mas em grego está “ele”, Ele, o descendente da mulher, Ele, o descendente da futura mulher, não desta mulher Eva, mas da futura mulher, é o Cristo. “Ele te esmagará a cabeça”. Isto está na Vulgata, mas no texto grego não tem. Em toda Vulgata está – ele, o Espírito sujeitará a Inteligência. Ele esmagará a cabeça, o Espírito será mais poderoso que a Inteligência. O Espírito não vai adorar a Inteligência; a Inteligência tem que adorar o Espírito.

Estou explicando isto para vocês verem que a razão das 3 maldições terríveis não é uma razão ridícula. É uma razão muito séria. Porque a tentativa que se fez é estragar toda a história da humanidade. O tentador não queria que o homem chegasse a sua evolução, mas o convidou para fazer o contrário, a involução.

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Primeira parte da décima sétima aula do CURSO NOVA HUMANIDADE, ministrado por Huberto Rohden, em 30/08/1977.

 

SABOTAGEM LUCIFÉRICA

Considero Moisés e Jesus como os maiores homens da história. Moisés no Antigo Testamento e Jesus no Novo. Dois homens que deixaram grandes mensagens, mas todas elas completamente deturpadas por nós: O Evangelho e o Gênesis. Completamente deturpadas! O que nós fazemos do Gênesis é uma vergonha. O que nós fazemos do Evangelho é outra vergonha. Então, vamos retificar um pouco os erros que estamos comete

Todo o mundo sabe que Jesus deixou a maior mensagem da humanidade. Ele não escreveu, mas alguns discípulos escreveram, e nós sabemos pelos Evangelhos o que Jesus disse. O que é que nós fizemos dos Evangelhos? E o que é que nós fizemos do Gênesis? Dois livros magníficos, mas completamente deturpados. Por isto eu estou tentando aqui retificar pelo menos o que se ensina sobre Gênesis. Quanto aos Evangelhos já tratei de retificar também, anteriormente.

É uma verdadeira temeridade da minha parte, talvez uma presunção, querer retificar as coisas sobre o Gênesis, depois de 2000 anos de deturpação – mas eu tenho que fazer isto.

 

Interpretações infantis do Gênesis

Uma vez um doutor da lei perguntou a Jesus: “Mestre, qual é o maior mandamento da lei”, isto é, “qual é a coisa mais importante da vida humana?” O doutor da lei naquele tempo não era advogado, era um teólogo da Sinagoga. Era chamado doutor da lei de Moisés.

O que é que nós teríamos respondido? Uns teriam respondido: “a coisa mais importante da vida humana é confissão, comunhão e missa”. Outros: “a coisa mais importante da vida humana é ler a Bíblia e crer na redenção pelo sangue” ou a coisa mais importante na vida humana é fazer caridade e crer na reencarnação”.

Mas, Jesus não respondeu isto. Respondeu coisa muito diferente.

Se perguntado, Moisés também diria coisa completamente diferente do Gênesis, em relação aquilo que falamos hoje. Por exemplo: o que entendemos sobre o sentido do Gênesis? Duas opiniões:

1) O Gênesis é uma fábula mitológica. Havia uma maçã muito bonita no Paraíso e Deus disse: “Olhe, esta maçã é minha, vocês façam o favor de não comer”. E, contudo eles comeram e então foi amaldiçoada toda humanidade por causa disto. Deus foi tão rigoroso por causa duma maçã que havia reservado para si que lançou três maldições terríveis, que ainda nos afligem. Esta é uma interpretação do Gênesis, a mais ridícula de todas, uma mitologia infantil que continuamos a repetir.

2) Outra interpretação: o primeiro casal tinha ordem de não se acasalar, mas eles se acasalaram, e Deus disse: “Maldição sobre vocês”. Por isto Adão e Eva e todos os seus filhos, que somos nós, entram no mundo escravos de Satanás – filhos do Diabo. Somente quando recebem na cabeça um copo de água, então se tornam filhos de Deus.

Imaginem, que absurdidade! Nós entramos todos no mundo como filhos do Diabo. No ritual do batismo está: “sai desta criança, Satanás e dá lugar ao Cristo”. E por que o Satanás está dentro da criança? É porque um casal, ele se chamava Adão e ela Eva, há muitos milhares de anos, lá do outro lado do mar, tiveram ordem de Deus de não se acasalar – mas se acasalaram – e Deus disse: “Agora se acabou a minha paciência, malditos sejam vocês dois e todos os seus descendentes”.

Deus tinha dito, “multiplicai-vos” – mas, depois se arrependeu, parece. E viram que deram o primeiro passo para se multiplicar, acasalaram e Deus disse: “Não, não, isto é porcaria, vamos acabar com isto”. E lançou a maldição.

Isto nós ensinamos até hoje. Vocês têm alguma outra interpretação? Eu não conheço outra, nem no catecismo, nem na escola dominical.

Nós podemos aceitar em plena era atômica, no fim do século XX, estas infantilidades, estas coisas ridículas! Se Moisés soubesse o que nós estamos dizendo, se revoltaria contra todos nós. Jesus também se revoltaria contra nós, se ele soubesse o que nós estamos fazendo do Evangelho.

 

As três maldições

O Gênesis afirma de fato que as forças creadoras, os Elohim, como está lá, lançaram três maldições, mas, não por causa destas infantilidades. Não por causa duma maçã, e não por causa dum casamento ou acasalamento. Não havia casamento, mas havia acasalamento, naquele tempo. Hoje em dia há os dois – há acasalamento sem casamentos. Mas, naquele tempo não tinha casamentos legais. Havia acasalamento que é da natureza humana e de todos os animais também.

Então vieram três maldições terríveis. Vou citá-las. Estão lá no Gênesis. Três maldições terríveis, de uma insólita veemência. A maldição à serpente, a maldição à mulher e a maldição ao homem. A primeira maldição é em relação à serpente porque ela começou toda a história. A segunda maldição é à mulher, porque ela recebeu a mensagem da serpente. E a terceira maldição é sobre o homem, porque atendeu à mensagem da mulher. Assim está na ordem do Gênesis: serpente, mulher, homem.

A maldição à serpente é a seguinte: Os Elohim disseram, (quer dizer Deus, que Moisés chama ‘as forças creadoras’), Os Elohim disseram à serpente, ‘porque tu fizeste isto maldita sejas entre todo o animal da terra. Sobre o teu peito e sobre o teu ventre rastejarás e comerás do pó da terra a vida inteira’. Uma maldição terrível lançada a alguém que se chamava serpente, mas não a uma cobra. A cobra naturalmente não podia ser maldita. Não se tratava de nenhuma cobra, nós vamos ver isto depois. Mas a maldição é esta: “Maldita serás entre todos os seres vivos da terra e rastejarás sobre o teu peito e sobre o teu ventre, e comerás do pó da terra a vida inteira”.

A maldição lançada à mulher foi a seguinte: “Em dores darás a luz a teus filhos e terás muitos incômodos com a gravidez. Serás dominada pelo homem e apesar disto tens desejos dele”. Está lá, a maldição à mulher.

A maldição lançada ao homem é a seguinte: “porque atendeste a voz de tua mulher (porque ele não falou diretamente com a serpente, ele só ouviu através da mulher) maldita seja a terra por tua causa. Se a cultivares, só te produzirás espinhos e abrolhos, e comerás o teu pão no suor do teu rosto, até que voltes à terra, porque tu és pó e em pó te hás de tornar”.

Vocês podem imaginar maldições mais terríveis do que estas? Estão lá no Gênesis, e Moisés afirma que a maldição foi dada por Deus, à serpente, à mulher e ao homem.

Ninguém compreende a veemência destas maldições sobre aquele casal e sobre toda a humanidade.

Acabou com toda humanidade. Por quê? Não por causa de uma maçã, não por causa de um acasalamento. Isto é bobagem. Por causa de coisa muito séria.

Se tivessem comido uma maçã teriam sido amaldiçoado deste modo? Não, não é por causa de uma maçã.

E não é em razão de um ato sexual. Ele tinha mandado: “multiplicai-vos”. De que modo haviam de multiplicar-se? Não há nenhum outro modo de multiplicar até hoje, a não ser pelo sexo. Fizeram isto e acabou-se a história. O que eles fizeram? Deve ter sido uma coisa muito grave, muitíssimo grave, para merecer maldições desse teor tão terríveis. Havia outra coisa, coisa muito diferente e é sobre esta coisa diferente que nós nunca ouvimos nas igrejas. Eu nunca ouvi isto em nenhuma igreja, seja católica romana, ortodoxa, grega, nem igreja evangélica, nem sequer no espiritismo. Nunca ouvi uma explicação razoável sobre isto.

Por que não? Em 2000 anos? O que aconteceu? Deve ter acontecido uma coisa horrível para virem estas três maldições. Maldição sobre a serpente – que representa a inteligência, porque a inteligência sempre é representada pela serpente. Maldição à inteligência, maldição à mulher e maldição ao homem. E a terra inteira está maldita por causa daquilo que o homem fez. O que é que ele fez? Vamos ver se descobrimos o segredo.

Trata-se, na realidade, de uma sabotagem. Duma sabotagem luciférica que envolve toda a humanidade presente e futura. Uma sabotagem, quer dizer, uma adulteração das ordens de Deus, pela inteligência. É disto que se trata. E por isto é tão grave a situação. A inteligência luciférica inventou uma sabotagem, uma frustração, uma adulteração de toda obra de Deus quanto ao homem.

O homem foi creado no fim do sexto período da creação. Quando já todo o resto do mundo estava pronto, o Gênesis diz: e no fim do sexto período, (não ‘do dia’ – mas ‘período’ de milhões de anos) os Elohim disseram: ‘agora façamos o homem, segundo a nossa imagem e semelhança.’ Isto era o plano de Deus, que o homem fosse feito segundo a imagem e semelhança de Deus.


O saboteador

E agora vem a sabotagem da inteligência. A inteligência serpentina, a serpente intelectual se revolta contra esta mensagem de Deus. O homem deve ser feito segundo a imagem e semelhança de Deus, mas, eu, disse a inteligência, vou frustrar esta obra. O homem não vai ser imagem e semelhança de Deus.

Esta é a sabotagem da inteligência, que é representada pela serpente. A inteligência de quem? A inteligência de Eva? Não. A inteligência de Adão? Não. A inteligência cósmica. A inteligência astral.

Porque vocês devem saber, a inteligência existe em forma transcendente e também existe em forma imanente, assim como o espírito. O espírito também existe em forma transcendente e também existe em forma imanente. Cada um de nós tem espírito. A alma é o espírito. Mas, também existe espírito fora de nós. O que existe fora de nós se chama transcendente, além. O que existe dentro de nós se chama imanente.

Quer dizer, assim como o espírito de Deus existe em forma transcendente, também existe em forma imanente. Do mesmo modo, a inteligência que é outra faculdade, existe em forma transcendente, cósmica, univérsica, ou astral talvez. Existe fora de nós. Existe uma entidade cósmica chamada inteligência e esta entidade cósmica chamada inteligência pode contaminar o homem. Nós recebemos a inteligência, mas, nós não somos a inteligência. Assim como nós recebemos o espírito, mas nós não somos o espírito.

Ser o espírito é transcendente. Ter o espírito é imanente. Ser inteligência é transcendente, ter inteligência é imanente.

Aqui no Gênesis se trata de uma inteligência transcendente que contaminou o primeiro casal. Eles se deixaram contaminar. E quem foi contaminado em primeiro lugar foi a mulher. Porque a inteligência transcendente viu que o lugar mais fácil para atacar a humanidade era através da mulher. Ela se serviu da mulher para transmitir as suas ordens.

A inteligência transcendente se torna imanente primeiro na mulher. E depois a mulher passou para o homem. Então, a primeira maldição é lançada à inteligência, à inteligência transcendente e também à inteligência imanente.

A creatura humana não devia deixar-se contaminar pela inteligência. Podia e devia resistir à inteligência transcendente e não se deixar contaminar por esta.

Quando os Elohim se dirigem à mulher e lançam a maldição sobre ela, eis o que diz: “Eu fui enganada pela serpente. Eu fui enganada pela inteligência”. Ela foi enganada pela inteligência transcendente e por isso a inteligência transcendente se tornou imanente nela.

Logo, aqui há uma sabotagem. A inteligência transcendente que se tornou imanente em Eva e depois em Adão, sabotou o plano de Deus. Fez uma tentativa de suborno, uma tentativa de frustração, uma tentativa de adulteração.

Em vez de aceitarem a mensagem de Deus, aceitaram a mensagem da inteligência. E esta inteligência transcendente existe em toda parte e por todos os tempos. É paralela ao espírito.

 

 

Nascimento

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Ontem uma flor nasceu.

Nasceu botão pequenino,

Frágil, brotando a medo

Entre as folhas.

 

Ontem uma vida se iniciou,

Mesclada de dúvidas

E incertezas…

… foi apenas o início,

O brotar de uma esperança, como um raio

De sol de manhã

Ainda não rompida.

 

O botão vai se abrir em flor

E se cuidada com carinho, talvez

Tenha a possibilidade de uma curta vida.

Mas enquanto viver encantará quem puder cultivá-la.

 

Assim seja a vida

Que ontem se iniciou.

 

APRENDENDO A VIVER, STOPATTO, Siléa, Rio de Janeiro, RJ: Eclesiarte Bureau de Edição Ltda, 2013, pg. 17.

 

Gandhi

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Segunda parte da aula 16 – CURSO NOVA HUMANIDADE, ministrado por Huberto Rohden em 23 de agosto de 1977

 

O EGO e EU

Vamos falar das maldades morais agora, e não dos males físicos por enquanto. Eu me posso redimir das maldades morais, dos meus pecados. Repetindo: de todas as maldades não físicas, mas morais.

Mas, quem é que faz isto? O meu Ego ou o meu Eu?

Na época de Agostinho e Pelágio não se sabia distinguir nitidamente entre os dois polos da nossa natureza. Era conhecido melhor o Ego do que o EU.

A totalidade da natureza humana pode ser representada por uma cruzinha no centro de uma ou várias circunferências. As circunferências, que chamaremos de periferia, representa o Ego. E a cruzinha, no centro, representa o Eu. Não havia uma noção clara sobre os dois polos da natureza humana, isto é, sobre o polo Ego – a periferia, e o polo Eu – o centro. Por isso nunca chegaram a um acordo.  Pelágio dizia “eu me posso salvar”; agora, se ele chamava “eu” a cruzinha no centro ou a periferia, nós não sabemos. Não sabemos se Pelágio tinha entendimento sobre o Ego ou Eu…

Agostinho só conhecia o Ego. Tinha sido muito derrotado pelo seu ego na juventude, até os trinta e tantos anos, e devido às derrotas sofridas pelo poder do seu ego, não acreditava que o homem pudesse salvar-se a si mesmo. Identificava o homem com o seu ego.

Eu creio que Pelágio não falava do Ego, mas ele nunca afirmou isto. Creio que se referia ao Eu verdadeiro. E dizia: “eu, pelo meu Eu divino – interno –  (pelo meu Cristo interno,diríamos hoje), me posso redimir e salvar de todas as maldades”.

Naturalmente, Agostinho não conhecia este Eu central, ele conhecia muito bem o Ego periférico. Tinha sido derrotado por ele. E quando se converteu, atribuiu a conversão a Deus e não a si mesmo. “Eu não me converti, dizia, Deus me converteu”. Ele nunca aceitou que ele mesmo se pudesse converter; que se pudesse fazer bom. “Eu só me posso fazer ‘mau’, só Deus me faz bom”.

Agostinho só entendia da natureza humana o ego. E Pelágio parece que entendia tanto o Eu central positivo, como também o Ego. Por isso dizia: “sim, eu posso ser mau por minha conta e risco, mas eu também posso ser bom, posso fazer-me bom. Posso redimir-me dos meus pecados e das minhas maldades”. E neste caso ele não se referia ao seu Ego externo, porque o Ego é muito negativo.

O Ego, de fato, é o nosso pecador – o Ego é o que nos perde. O Eu é quem nos salva.

Hoje em dia a humanidade já abriu os olhos para os dois sentidos da palavra Eu, mas muitos ainda entendem por Eu, o Ego. O grosso da humanidade ainda pensa como Santo Agostinho. E nós também, hoje em dia, em pleno século XX, repetimos: ‘eu estou doente’. Eu, o quê? O meu Eu central está doente? Não, o Espírito de Deus em mim não pode estar doente. Isto não é possível. O meu Cristo interno não pode estar doente. Repetimos a palavra Eu – sem distinguirmos o que é que entendemos por Eu. Nós nos referimos geralmente ao nosso corpo, ao nosso Ego.

Chamamos o nosso corpo – Eu, o que é um modo de falar muito inexato. Mas, não temos outro modo. Não podemos dizer Ego, como em latim. Em latim, ‘Eu’ é ‘Ego’, mas só usamos o Ego latino para a parte negativa da nossa natureza. Dizemos: ‘eu vou morrer’ – eu quem? Não o Eu verdadeiro, o nosso centro, não vai morrer – este não vai morrer. O que vai morrer é o nosso corpo, a nossa periferia. O nosso EU central não está sujeito à morte. O nosso Eu central não tem câncer, não tem tuberculose, não pode sofrer acidentes e não morre.

Quando dizemos: ‘eu sou inteligente’, o ‘eu’ a que nos referimos faz parte do nosso Ego. A inteligência é uma faculdade do nosso Ego, relacionada com o Eu, é verdade. Mas ainda tem sede no ego. Quando dizemos: ‘eu fui ofendido; fui tratado com ingratidão; fui vilipendiado’, a que “eu” nos referimos? Ao nosso Ego emocional, ao nosso Ego afetivo, que sofre com ingratidão ou injustiças. É claro – é o nosso Ego que sofre. O nosso Eu não sabe nada disto.

Às vezes aparece um homem que não se identifica mais com o seu ego. Mahatma Gandhi, em nosso tempo, chegou a este ponto. É o máximo a que um homem pode chegar. Ele tinha esquecido o seu ego e só se lembrava do seu Eu. Os homens avançados fazem do seu Eu uma coisa muito maior do que seu Ego. E o seu ego vai desaparecendo pouco a pouco.

Quando perguntaram a Gandhi se perdoava as ofensas que havia recebido em grande quantidade em toda a sua vida, respondia: “eu não perdoei nenhuma ofensa porque nunca ninguém me ofendeu”.

O homem, quando é mau, procura vingança. O homem quando é bom, perdoa as injustiças. Mas os dois são imperfeitos. Também aquele que perdoa não é perfeito – é melhor do que aquele que vinga, é claro. É melhor perdoar do que vingar, não há dúvida nenhuma. Mas por que ele perdoa? Porque se sente ofendido. E por que se sente ofendido? Porque ainda está na zona do seu Ego.

O nosso Eu não pode ser ofendido. O nosso Eu é inofendível. O nosso Eu é absolutamente inofendível. A minha alma não pode ser ofendida por ninguém. O meu Cristo interno não pode ser ofendido por ninguém. Deus em mim, o Pai em mim, que é o meu Eu, não pode ser ofendido. Logo, o meu Eu não tem que perdoar nada a ninguém. Porque o meu Eu não foi ofendido, o meu Eu é invulnerável, inatingível.

Mas, não temos a consciência da nossa invulnerabilidade.

Gandhi chegou à consciência da sua completa invulnerabilidade. O meu Eu não pode ser atingido pelos outros. Ninguém pode fazer mal ao meu Eu central. Todos podem fazer mal ao meu Ego periférico. E de fato fizeram. No fim o mataram. Um hindu o matou com 3 tiros de revólver. Mas, as últimas palavras de Gandhi ao cair ferido, baleado, foram: Namastê. Ainda fez a saudação ao seu assassino. Deus esteja contigo. O Deus em mim saúda o Deus em ti, como os hindus interpretam esta saudação bonita.

E foram as últimas palavras de Gandhi ao seu assassino. Meu querido inimigo, o Deus em mim saúda o Deus em ti. Isto está além da ofendibilidade. Não pôde ser ofendido nem com 3 tiros de revolver, nem com a morte. E ele ainda pediu, quando já estava morrendo, que não permitissem que seu assassino fosse punido. Eu não sei, mas o governo da Índia provavelmente o enforcou, como era costume lá. Mas Gandhi pediu que não o punissem porque o que ele necessitava era instrução e não punição. Porque ele tinha agido por ignorância. É claro, é pura verdade. Ele ignorava o seu Eu verdadeiro. Não ignorava o seu ego que agiu e matou. Mas, a verdadeira sabedoria não é do ego. Então Gandhi disse: é preciso instruir este homem porque ele agiu por ignorância, matando-me.

Quer dizer, hoje em dia aqui no ocidente, nós já estamos em grande parte passando da velha ideia da alorredenção para a nova ideia da autorredenção. Aliás, não é nova esta ideia. Está no Evangelho, 2000 anos atrás. As obras que eu faço, diz o Cristo, Jesus – naturalmente as obras boas, porque ele não fazia obras más – as obras que eu faço, não sou eu que as faço, é o Pai que está em mim que faz as obras. Porque de mim mesmo eu nada posso fazer.

Quando falava assim, se referia a isto: ao seu Eu positivo, ao seu Eu central. As obras que eu faço através do meu ego, mas, nascidas do meu Eu divino, as obras que eu faço não sou eu, o meu ego que faz estas obras, mas o meu Eu divino que faz estas obras. E o seu Eu divino ele sempre chama o Pai. O Pai está em mim e eu estou no Pai. O Pai também está em vós, ele diz a seus discípulos. O Pai também está em vós, e vós estais no Pai.  Quer dizer, Pai, ele chama isto: o Deus interno, o Cristo interno, muito mais poderoso que o seu ego. O ego nunca desaparece completamente porque faz parte da natureza humana. Mas, o ego pode ser menor que o Eu. Eu posso aumentar a tal ponto a consciência do meu Eu real, do meu Eu divino, do meu Eu espiritual, do meu Cristo interno, que praticamente esqueço do meu ego humano. E quando alguém tem 99% de consciência do seu Eu verdadeiro e apenas 1% de consciência do seu ego ilusório, então, ele se sente completamente liberto. Ninguém o pode ofender porque ele não é mais ego, deixou de ser ego praticamente e se identificou com seu Eu. E por isto Gandhi podia dizer: eu não preciso perdoar a ninguém porque ninguém me ofendeu.

Nós falamos muito autorredenção hoje em dia, mas os dogmas, as teologias, ainda não entraram nesta zona de conhecimento. Ainda pensam que há um fator externo que me faz mau, a que chamam de diabo. E também há um fator externo que me faz bom, ao que chamam de Cristo. Mas não entendem o Cristo interno do Eu. Entendem do Cristo lá do outro lado do Mediterrâneo, que viveu há 2000 anos. Entendem que a salvação vem de longe, vem de fora para dentro.

Pouco a pouco nós nos convencemos: Toda a redenção, toda a salvação, todo o melhoramento moral, espiritual não vem de fora de mim. Também as maldades não vêm de fora. A bondade vem de dentro e a maldade vem de dentro. Pergunta-se: ‘dentro de quê?’ Dentro de minha natureza. Mas eu sou tanto ego como Eu. Na minha periferia eu sou ego e daí podem vir os males, as maldades, os crimes, os pecados; todos vêm do meu ego, mas fazem parte de mim; fazem parte da minha natureza, do meu ego.

Mas se eu cultivar o meu Eu central, então o meu ego praticamente fica eclipsado. Ele continua a existir, é claro, faz parte de mim, mas ele não pode dar ordens, ele não pode dominar a minha vida. E então eu posso dizer: eu me faço bom porque eu quero e o ego não me faz ‘mau’, porque o meu Eu não deixa o meu ego funcionar. Ele dá ordens ao meu ego e o meu ego não dá ordens ao meu Eu. É uma grande vantagem.

Suponha que alguém tenha 90% no seu Eu central e apenas 10% no seu Ego. Se ele está com 90% de consciência do seu Eu, sobra apenas 10% de consciência do seu ego. Então, praticamente ele está livre. Ele não tem mais obrigação de ser mau porque 90 dominam 10. Mas, se o contrário acontece, se ele é 90% no ego e apenas 10% no Eu – então o seu ego dá ordens ao ego e ele se torna ‘mau’. Mas, a culpa não é do diabo, é minha. A culpa é do meu ego humano. Mas o contrário também acontece e o merecimento é da minha natureza humana, do meu Eu humano; também faz parte da minha natureza.

Estamos chegando pouco a pouco a esclarecer as nossas ideias. Mas as igrejas e as teologias, geralmente não aceitam ainda que o homem possa passar por uma autorredenção. Ainda se aferram na alorredenção. E quando dizemos que a autorredenção é possível, entendem que nos referimos a uma ego-redenção.

Não há ego-redenção, só há ego-perdição. Mas há Eu-redenção. O Eu é autos, em grego. Há autorredenção, mas também há ego-perdição. Mas nós somos responsáveis pelos dois. Porque quem disse que o meu ego devia ser mais forte que o meu Eu? A culpa é minha. Se eu não desenvolvi o meu Eu bom, e desenvolvi por demais o meu ego negativo a culpa é minha, porque eu não me eduquei devidamente para ser bom.

Mas é claro, estamos entrando numa nova zona de compreensão pouco a pouco, de  que tudo está dentro de nós, tanto o bem como o mal; tanto o positivo como o negativo; tanto a redenção como também a perdição. Está tudo dentro de cada um de nós e nós somos responsáveis por isto.

Real e Irreal

 

Primeira parte da aula 16 – CURSO NOVA HUMANIDADE, ministrado por Huberto Rohden em 23 de agosto de 1977

 

Realidade e facticidade

O marido de uma das nossas alunas perguntou à esposa o que acontece na meditação:

– “Não acontece nada”.

“Bem”, ele disse, “se não acontece nada então vocês perdem o seu tempo”.

“Não”, disse ela, “nós não perdemos nosso tempo na meditação, porque há experiências íntimas, acontecimentos dentro de nós, em nossa consciência, de que não se podem fazer estatística”.

-“Bem”, ele insistiu, “estes ‘acontecimentos íntimos’, podem ser verificados, podem ser controlados, podem ser provados cientificamente?”

“Não”, ela disse, “isto não se pode, porque não pode chamar o computador e dizer: faça o favor de computar a que grau de espiritualidade eu estou. Isto o computador não pode fazer”.

Então aquele senhor disse:

“Bem, então não é real aquilo que acontece”.

“É real, mas não são fatos” – ela completou.

Ele não entendeu nada, porque muitos confundem a realidade com as facticidades. O homem profano só considera como real aquilo que se pode ver, ouvir e apalpar. Mas as experiências espirituais não se podem ver, nem ouvir, nem apalpar. Ele diz, “então não é real”.

Muitos pensam assim. Mas temos que distinguir nitidamente entre realidade e fatos externos. Os fatos podem ser verificados pelos sentidos. São facticidades. O conjunto dos fatos é as facticidades, mas os fatos não são reais.

Joel Goldsmith, no livro ‘A arte de curar pelo espírito’, faz uma nítida distinção entre realidades e facticidades. Ele pergunta: “as nossas doenças são fatos ou não são?” E responde – “doenças, infelizmente, são fatos”. Depois pergunta: “Então, as doenças são reais ou não são reais?” Ele mesmo responde,”não são reais mas foram realizadas”.

O que é realizado é um fato, mas não é real. “Real”, diz Goldsmith, “é somente aquilo que foi creado por Deus. Aquilo que nós fazemos é ‘realizado’, mas não é real”.

Os fatos são realizados. A doença é um fato – o câncer, a tuberculose, são fatos, fatos realizados – por quem? Deus não fez câncer, Deus não creou tuberculose. Quer dizer, estas coisas não são reais. Vamos chamar real só aquilo que o Creador fez.

O Creador não creou câncer, não creou tuberculose, não creou nenhuma doença, mas se estas doenças existem, quem as creou? É claro, alguém as creou. Será que nós também não somos creadores?

 

Os homens são creadores[i]

É claro que somos! Somos como dizem os gregos, demiurgos: Demi quer dizer meio; urgo quer dizer creador. Demiurgo = semicriador. O nosso ego humano é semicreador, é um demiurgo. Quer dizer que nós podemos produzir coisas – negativas, via de regra – pelo nosso ego, mas, as coisas positivas, benéficas são creações de Deus.

“Tudo era bom”, diz o Gênesis. No Gênesis, no fim do 1º período da creação, os Elohim viram que “era bom”; no fim do 2º período viram que “era bom”. E no 6º período, quando apareceu o homem, viram que era “muito bom”. A creação do homem era “coisa muito boa”. As outras coisas eram todas boas, e nenhuma vez se diz que Deus creou o câncer, a tuberculose… – isto seria o mal. Mas estas coisas ruins não foram creadas.

 

O que é REAL e o que é IRREAL

Vamos distinguir nitidamente entre aquilo que é real, creado por Deus (todas as coisas boas são reais e são creadas por Deus). E vamos distinguir entre aquilo que é apenas realizado pelo nosso ego humano, mas não são iguais às coisas reais que são positivamente boas. As coisas realizadas às vezes são boas. Mas nós realizamos, pelo poder do nosso ego humano, muitas coisas negativas. Portanto, não são reais.

Há certas orientações – também nos Estados Unidos isto é difundido – que dizem que as doenças são irreais. Que é simples ilusão. Não existe nenhum câncer, não existe nenhuma lepra, não existe tuberculose. Isto não é verdade.

Estas coisas não são irreais. Não vamos chegar a este ponto de dizer que não existe nenhum câncer, que não existe tuberculose, que não há lepra, que não há nem dor de cabeça. Estas coisas não são reais, mas também não são irreais. Há uma 3ª coisa que não é nem real, nem irreal. Isto é o que nós fazemos. O poder da nossa mente humana é demiurgo. É semicriadora. Nós, pelo poder do pensamento, podemos criar coisas negativas. Infelizmente nós criamos muitas doenças porque as mentalizamos, sem saber.

Alguém está doente, então, nós temos a impressão que nós também temos que estar doentes algum dia. E temos que envelhecer antes do tempo porque acreditamos que isto é regra geral: então, entramos na regra geral e mentalizamos coisas negativas. Se nos habituássemos a nunca mentalizar coisas negativas, moral ou fisicamente negativas… As maldades são moralmente negativas. Crimes são moralmente negativos. Doenças são fisicamente negativas. Se nós nunca mentalizássemos coisas negativas nem na zona moral, nem na zona material – o mundo seria completamente diferente. Mas o nosso ego tem a mania de inventar coisas negativas. E pela força da mentalização nós realizamos coisas negativas.

Então, os fatos nem sempre são realizados por Deus… Fatos positivos são realizados por Deus, mas fatos negativos são realizados por nós. Não são irreais, mas também não são reais. São apenas “realizados”.

O que realizamos na meditação é real, mas não é uma facticidade, que se possa provar por meio de computador ou de que se possa fazer estatística.

 

Fatos e Valores – Ciência e Consciência

A humanidade está começando a fazer a distinção entre fatos e valores.

Essa distinção é de Einstein: “o mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores, porque os valores vêm de outra região”.

Que são valores? Os valores são creações da nossa consciência. A nossa consciência pode crear valores positivos.

A ciência pode apenas descobrir fatos. A ciência não pode crear valores porque a ciência não crea nada. Ela somente descobre coisas que já existem. As leis da natureza podem ser descobertas pela inteligência através da ciência. Isto a ciência pode fazer. Agora, o que não pode fazer é crear valores.

Valores são da consciência[ii]. Fatos são da ciência.

A ciência é transitiva, a consciência é reflexiva.

Isto é o melhor meio de exprimir a diferença entre ciência e consciência: Na ciência eu estou ciente do objeto, duma pedra, duma planta dum átomo, dum astro (Eu tenho ciência disto, mas isto não é consciência); Consciência sempre é partir do sujeito e faz do próprio sujeito o seu objeto. Na consciência o sujeito é o seu próprio objeto.

Na ciência há diferença entre sujeito e objeto.

A consciência pode crear valores[iii], a ciência não crea valores, mas descobre fatos.

Do mundo dos fatos, diz Einstein, não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores – porque os valores vêm de outra região. Os valores são creados por nós. Onde não há consciência não há creação de valores. Existem valores positivos e existem valores negativos. Verdade, amor, justiça são valores positivos. Mas também existe o contrário: existe o erro em vez da verdade, injustiça em vez de justiça e maldade em vez de bondade. Então, há valores positivos creados pela consciência e há valores negativos, também creados pela consciência.

Somente uma creatura consciente pode ser boa ou pode ser má. Aqui na terra nós, os chamados humanos, somos as únicas creaturas que podem ser boas ou podem ser más. O animal não pode ser bom nem mau. A planta não pode ser boa nem má, uma pedra não pode ser boa nem má. Moralmente falando, é claro.

Os valores não existem na natureza. Só existem fatos, facticidades. Mas, é interessante, a palavra latina para fato, é “factum”, com ct, e o adjetivo de factum é factício… Pouco a pouco o ‘a’ passou para ‘i’, e deu fictício. Quando uma coisa é ilusória dizemos, isto é fictício. Isto não é real. Enfatizando: o adjetivo derivado de facto (ou fato) é factício. E factício quer dizer fictício. Ou seja, os fatos não são reais.

A própria palavra, a etimologia da palavra em latim prova que os fatos não são coisas reais. De ‘facto’  nós derivamos ‘fictício’. O radical é ‘facto’. Quer dizer, todos os fatos são fictícios. Os fatos não são reais.

Real não é fictício. Somente os valores são reais. Os valores são creações reais da nossa consciência ou da consciência cósmica.

A consciência infinita crea valores. Mas, a nossa consciência humana também pode crear valores.  Pela creação de valores positivos nós nos tornamos bons, e pela creação de valores negativos nós nos tornamos maus. Somos os creadores das nossas bondades e somos os creadores das nossas maldades.

Isto é único no ser humano. O animal não pode crear valores positivos, nem negativos. Um animal é apenas um facto, mas não é um valor. Valores são creações da consciência. Fatos são descobrimentos da inteligência.

 

Alorredenção e Autorredenção

Ultimamente nesta humanidade ocidental – mesmo na velha humanidade (estou fazendo distinção entre a velha humanidade, do EGO, e a nova humanidade, do EU) – está diminuindo cada vez mais a ideia de alorredenção. Alo, quer dizer o outro. Que o outro me possa redimir… Que o outro me possa salvar. Nas elites humanas – não nas massas. Está desaparecendo a ideia de que alguém me possa salvar. Isto está desaparecendo, graças a Deus. É um grande progresso.

E está aumentando cada vez mais o conceito de autorredenção. Autos quer dizer eu mesmo. E está aumentando o conceito, em todo o ocidente, na Europa e nas Américas, que eu sou o meu redentor. Eu sou o meu salvador, não existe um salvador fora de mim. O salvador está dentro de mim.

Esta questão de alorredenção e autorredenção já começou no princípio do cristianismo.

No século V dois grandes pensadores, um africano e outro inglês – Agostinho era africano, e o monge britânico Pelágio, que vivia em Roma – mantiveram acirrado certame.  Escreviam cartas um ao outro e publicavam livros. Santo Agostinho escreveu 103 livros dos quais 20 falam de autorredenção e de alorredenção. E estes livros argumentavam contra as teses de Pelágio, que afirmava que o homem pode redimir-se a si mesmo. O homem pode salvar-se por forças próprias, dizia Pelágio, e Santo Agostinho contrapunha-se “Não… só Deus me pode salvar. Eu não me posso salvar, eu só me posso perder”, e completavaeu posso cair no poço, mas não posso sair do poço”.

“Eu me posso perde”, dizia Santo Agostinho, “eu posso ser mau, crear valores negativos, não preciso de Deus para isto – isto eu faço por minha conta e risco”. E Pelágio dizia, “não, o homem tem o poder de crear valores positivos (salvação, redenção), e tem também o poder de crear valores negativos”.  Brigaram por mais de meio século. Nunca chegaram a um acordo.

Porque era tão difícil chegar a uma compreensão de autorredenção e alorredenção? Porque naquele tempo, no século V, não havia uma noção exata da natureza humana. Esta noção nós temos hoje. A psicologia nos deu grandes progressos para conhecermos melhor a nossa própria natureza. Dizem os cientistas que continuamos a ser um homem desconhecido. E Pascal diz que somos um misto de grandezas e de misérias. E Teilhard de Chardin diz que o homem é um fenômeno paradoxal. Isto é verdade. Porque nós não conhecemos ainda o nosso centro. Conhecemos as nossas periferias. O nosso ego é conhecido, mas o nosso EU ainda continua um X, uma incógnita.

Então, como Pelágio e Agostinho não tinham conhecimento exato da bipolaridade da natureza humana, eles não chegaram a um acordo. Pelágio afirmando autorredenção e Santo Agostinho afirmando alorredenção, Cristo-redenção: redenção pelo Cristo é uma alorredenção. A questão era se eu, dentro da minha natureza humana, eu me posso redimir, ou, se eu somente me posso perder. E Pelágio afirmava: “Eu me posso perder pela minha própria natureza humana, mas Eu também me posso salvar. Eu tenho o poder negativo de me perder, e tenho o poder positivo de me salvar”.

Hoje em dia a coisa é mais fácil e a humanidade, depois de mais de um século de psicologia, já aceita a ideia de autorredenção: Eu me posso redimir dos meus males e das minhas maldades.

[i] Na filosofia temos que distinguir entre crear e criar.
Crear é a transição da essência para a existência e criar é a transição de uma existência para outra existência.
Eu não posso crear pela inteligência, mas posso descobrir pela inteligência.
Eu posso crear pela consciência. Posso crear valores dentro de mim mesmo, e também posso crear desvalores, (valores negativos). Posso crear maldades, que é um desvalor, como posso crear bondade.
[ii] Etimologia – Lat. conscientia de consciens p.pres. de conscire = estar cientes (cum = com, partícula de intensidade e scire = sei)[1] .Também encontramos uma possível raiz formada de junção de duas palavras do latim; conscius+sciens :conscius(que sabe bem o que deve fazer) e sciens(conhecimento que se obtêm através de leituras; de estudos; instrução e erudição[2] .
Este esclarecimento foi encontrado em https://www.wikiwand.com/pt/Consciência. O texto sobre o assunto é bastante interessante. 
[iii] Encontrei interessante reflexão sobre “fatos e valores”
https://www.wikiwand.com/pt/Consciência
Um pequeno trecho:
Se dissermos: “Está chovendo”, estaremos enunciando um acontecimento constatado por nós e o juízo proferido é um juízo de fato. Se, porém, falarmos: “A chuva é boa para as plantas” ou “A chuva é bela”, estaremos interpretando e avaliando o acontecimento. Nesse caso, proferimos um juízo de valor.
Juízos de fato são aqueles que dizem o que as coisas são, como são e por que são. Em nossa vida cotidiana, mas também na metafísica e nas ciências, os juízos de fato estão presentes. Diferentemente deles, os juízos de valor – avaliações sobre coisas, pessoas e situações – são proferidos na moral, nas artes, na política, na religião.
Juízos de valor avaliam coisas, pessoas, ações, experiências, acontecimentos, sentimentos, estados de espírito, intenções e decisões como bons ou maus, desejáveis ou indesejáveis.

 

A SEGUNDA POESIA DE SILÉA STOPATTO. SEI QUE IRÃO GOSTAR.

                                                                                                       Aprendendo a amar                                                                                                                  família.com.br

 

Fui, há tempos, aluna brilhante:

Não tinha rival que vencer me pudesse!

Sabia de cor a matéria estafante

E ninguém me seguia, embora quisesse!

Geografia aprendi, aprendi Português,

História eu li de muitas nações;

Escrevia francês, falava inglês

E sabia fazer multiplicações.

                                                                                           Homero citava, de Goethe falava;

                                                                                           Raiz extraía, frações dividia;

                                                                                           Redigir eu sabia, piano tocava.

                                                                                           “É a primeira da classe”, de mim se dizia.

                                 Não sou mais a mesma – o tempo passou –

                                 E parece que a Vida me fez esquecer

                                 O que cedo, na escola, alguém me ensinou,

                                 Pensando que assim me ensinava a viver.

Aprendi muita coisa que o tempo levou

E que hoje, talvez, eu pretenda ensinar.

Mas a vida uma escola melhor me mostrou,

Que me diz quanto vale aprender a amar.

Não adianta saber diminuir ou somar,

Nem poetas citar, equações resolver.

É preciso, isto sim, aprender a amar,

Pois sabendo amar se aprende a viver.

 APRENDENDO A VIVER, STOPATTO, Siléa, Rio de Janeiro, RJ: Eclesiarte Bureau de Edição Ltda, 2013, pg. 11
Nota: O título original desta poesia é, como o título original do livro, APRENDENDO A VIVER.

Por aqui, hoje, amanheceu chovendo. Chuva calma, como se os céus derramassem, sob peneira fina, suas gotas de bênçãos sobre a terra (viu só – fiquei inspirado).

Folhei, mais uma vez, um livrinho que traz na capa a foto de uma linda mulher – minha querida prima Siléa Stopatto. E deu-me o repente (você prefere “insight”?) de colocá-lo inteirinho no meu blog. Se ela não gostar, é só gritar.

E começo de forma “nunca antes vista”: coloco aqui o prólogo – não o prefácio, que blogueio depois, pois também é lindo e foi escrito pela outra priminha. Lá vai:

Dream-Life

                                                           www.professoresdosucesso.com.br

A vida é um aprendizado constante.

Os pais ensinam desde o primeiro choro, ou mesmo antes.

Os irmãos ensinam em cada divergência ou concordância, estando perto ou longe.

Os parentes que vão chegando ensinam quando se fazem presentes, em qualquer momento de alegria ou tristeza.

Os AMIGOS – esses ensinam sem precisar nada fazer – são simplesmente AMIGOS.

Todos têm um ponto em comum: eles ensinam que é preciso amar para aprender a viver.

E o AMOR não tem limites. Por isso estou sempre

APRENDENDO A VIVER.

APRENDENDO A VIVER, STOPATTO, Siléa, Rio de Janeiro, RJ: Eclesiarte Bureau de Edição Ltda, 2013.

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Resumo da 15ª aula (segunda parte) do CURSO NOVA HUMANIDADE, ministrado por Huberto Rohden em 16/08/1977.

 

Jesus, um dos maiores representantes da nova humanidade… Ele falava a um doente e o doente não estava mais doente. Ele falava até a um morto de três ou quatro dias, e a vida voltava para o morto. Ele curava a qualquer distância porque para a essência divina não há distâncias. A distância é para a existência, Mas a distância não é para a essência.

Isto é um tipo avançado da humanidade, em indivíduos, mas não nas massas. A massa nunca será da nova humanidade.

Eu não sou tão otimista que possa acreditar que dentro de mil anos, 2.000 ou de 10.000 anos os analfabetos espirituais de hoje, embora doutores em letras, sejam capazes de enxergar Deus em tudo. Não é fácil. Isto supõe uma evolução de milhões e milhões de anos. E talvez uma evolução apenas parcial. Não uma evolução total da humanidade. A massa não passa por evolução rápida. O indivíduo às vezes passa por uma evolução rápida, mas as grandes massas… – milhões e milhões vão com passos mínimos em espaços máximos. A evolução progride um milímetro em mil anos. Nem tanto, às vezes até atrasa e em vez de evolução sofremos uma estagnação, parando – ou uma involução, regredindo.

É possível uma evolução para cima. Apenas uns poucos corajosos estão na evolução, porque a subida é a única coisa difícil.

É possível uma involução para baixo e muitos estão na involução, isto é, em piores situações. Deixar-se cair não é difícil; a gente cai por si mesmo, sem nenhum esforço.

Ou uma estagnação – no meio. O grosso da humanidade está na estagnação. É o “deixa como está para ver como fica”, é não fazer nada.

Em resumo, há poucos que fazem evolução; há muitos que vivem na estagnação; e há muitíssimos que vivem na involução. E o grosso da humanidade é isto.

É difícil encontrar uma pessoa que goste das coisas difíceis. Milhões gostam das coisas fáceis. Um ou dois têm a coragem de fazer as coisas difíceis. O fácil é para os covardes. O difícil é para os heróis. Mas será que há muitos heróis por ai?

Quantas vezes eu ouço dizer: “Ah! Mas isto é muito difícil, fazer meditação de meia hora cada dia e entrar na cosmo-consciência, sair da egoconsciência. Isto é muito difícil”. Ou como diz o nosso caipira: “isto puxa muito pela ideia”.

Nós gostamos do fácil e não gostamos do difícil, por isso não saímos da horizontal e não subimos para a vertical, nem sequer para a ascensional. Subir da horizontal para a vertical são 90 graus – segundo a geometria. Para se chegar do ponto zero, que está na  horizontal, para o ponto 90, é necessário se passar por muitos pontos intermediários: 10º,  20º…45º – isto é ascensional – até 90º, que já está na vertical.

Mas enquanto eu não estou na vertical, a prumo, portanto, eu não estou seguro. Enquanto eu estou na ascensional, eu posso recair para horizontal. Quando eu estou na vertical, acabou o perigo da recaída. Porque todo engenheiro sabe, se coloco um poste na vertical, não há perigo de cair, mas se o poste, ou o edifício, está meio inclinado – se não está bem a prumo, bem na vertical – ele vai cair pouco a pouco, vira torre de Pisa.

Então, quando o indivíduo subiu todos os degraus, já está bem na vertical – é o que  chamamos “iniciação” e enquanto alguém não chegou à iniciação, ele está sempre em perigo de recair. Sem esforço ele recai, com esforço ele sobe. É evidente! É pura geometria.

Quando alguém chega à iniciação, então vê a essência divina, a essência infinita, em todas as existências finitas. Ou, em linguagem comum, ele vê Deus em todas as creaturas. Nós usamos esta linguagem de teologia. Dizemos: “ele vê o infinito em todos os finitos”. O infinito está presente em todos os finitos e todos os finitos estão dentro do infinito. Isto é absolutamente certo. Isto é um fato, é uma realidade, mas isto não é a nossa experiência. A nossa experiência é muito vagarosa. A realidade já existe. A presença de Deus é um fato certo em todas as creaturas, mas até eu enxergar a presença de Deus em todas as creaturas, quanto tempo eu levo?

Paramahansa Yogananda (ele era um grande iniciado), no livro “Autobiografia de um yogue”, diz: “muitos me perguntam quanto tempo eu levo para chegar à consciência cósmica, ou para intuição cósmica – será que vou alcançar isto em 50 anos, em 100 anos, em 200 anos ou em 1000 anos?” E ele respondia: “isto não é questão de tempo, é questão de intensidade e não de tempo”. Porque o homem comum pensa que ele tem que levar tanto tempo e tantas reencarnações para alcançar isto. Mas os iniciados sabem que não depende de tempo. Não depende de 1 século, nem de 2 séculos, nem de 1 milênio. Depende de quê? Do esforço de consciência.

Intensificar a consciência pode levar muito mais do que mil anos. Daqui a mil anos, ou um milhão de anos, quem não intensifica a consciência não está iniciado. Mas, ele pode estar iniciado hoje, amanhã ou daqui a uma semana, se ele intensificar a sua consciência.

Paramahansa Yogananda diz: “nós podemos fazer em 20 anos aqui na terra o que outros não fazem em 20 séculos”.

Nós podemos fazer … mas depende da intensidade da consciência. Logo, não é questão de extensidade. É questão de intensidade. Extensidade é tempo – uma enorme extensão de séculos ou de milênios. Com o extenso nós não podemos alcançar nada. Com o intenso nós podemos abreviar a nossa evolução por milhares e milhões de anos. É questão de intensidade.

Que quer dizer intensidade? Chegar até o ponto central da sua própria consciência. Porque geralmente andamos na periferia da nossa consciência. E é difícil entrar para o centro. E custa um esforço muito grande – uma meditação prolongada e intensa para chegar até o centro do ser.

No centro do meu ser eu me encontro com a essência divina. Na periferia do meu ser eu só me encontro com as minhas existências humanas, cheias de misérias, cheias de doenças, de maldades … Está tudo na periferia. Se eu chegar até o centro, eu não saberia nada destas maldades, nem desses males, porque na essência não há maldades e não há males. Não há doença, também não há morte. Tudo isto: doenças, maldades, morte, são da periferia, são da existência finita.

As existências finitas podem ser más, podem ser doentes, podem ser infelizes. Podem sofrer morte. Tudo isto é da existência.

Agora, quando alguém chega em contato com a sua própria essência, que está em cada um de nós, adeus. Adeus a tudo isto que me atormentava na existência. E o interessante é que a própria existência muitas vezes melhora com a consciência da essência.

Por que é que Jesus nunca esteve doente? Porque a existência humana dele estava permeada pela consciência da essência divina. E quando alguém está plenamente permeado, completamente permeado pela luz da essência divina, como um cristal é permeado pela luz, então acabou tudo isto.

Por isto ele nunca precisou de médico e nunca esteve doente – porque a existência humana de Jesus estava permeada pela consciência da essência divina do seu Cristo.

Com Moisés aconteceu uma coisa parecida Creio que Moisés foi o maior iniciado antes de Jesus: viveu 1500 anos antes de Jesus, no Egito e na Arábia. Nunca se fala numa doença de Moisés. Ele viveu 120 anos. E a Bíblia diz que quando tinha 80 anos estava em plena juventude. Como é que está em plena juventude com 80 anos?

Depois, antes de contar o fim de Moisés diz: e Moisés, quando tinha 120 anos estava ainda em plena juventude – e não morreu. Transformou o seu corpo material num corpo astral. E o corpo astral se vai embora, não se vê. Isto é sinal de grande iniciação e de grande consciência cósmica.

Mas isto supõe intensidade, intensificação da consciência.

Nós temos uma consciência extensa pelos sentidos e pela inteligência, mas não temos uma consciência intensificada pelo espírito. Se conseguíssemos intensificar a nossa consciência, a nossa essência divina – porque a consciência é a essência divina em nós – então, nós veríamos o mundo com outros olhos. Teríamos mais medo de ser maus do que de sofrer o mal. Hoje em dia todo mundo tem medo de sofrer males mas não tem muito medo de ser mau.

Uma vez encontrei um homem que parecia já estar iniciado. Ele me contou: “Olhe,esta noite eu fui roubado, um ladrão arrombou a minha porta e roubou tudo que eu tinha em casa,mas quem saiu pior foi ele”. Indaguei: “Por que ele saiu pior?” Respondeu: “Porque ele roubou, eu só fui roubado”.

Quem pode falar assim já deve estar perto da iniciação. “Ele roubou e eu só fui roubado.” Roubar é ser mau. Ser roubado é apenas sofrer o mal.

Ser mau é muito pior do que sofrer o mal – para quem tem intuição cósmica, não para os outros. Para o homem comum sofrer o mal é muito pior do que ser mau. Isto é muito atraso e muito analfabetismo espiritual, é claro.

Quer dizer, nós estamos sempre num jogo de duas coisas: essência e existência – a realidade invisível e as facticidades visíveis. O infinito invisível e os finitos visíveis. O absoluto eterno e os relativos temporários. Depende o que vai prevalecer. Vai prevalecer o finito ou infinito em nós.

Mas quem enxerga o infinito dentro de todos os finitos já está bem avançado. Não precisa ser dentro de si mesmo. Também pode ser dentro de outros. Quem enxerga o infinito dentro de qualquer creatura, dentro de uma pedra, dentro de uma planta, dentro dum animal e dentro de seus companheiros já está com uma visão cósmica. Já ultrapassou a miopia da egoconsciência e entrou na visão larga da cosmoconsciência.

Isto depende do nosso livre arbítrio. Isto não nos vai acontecer. Isto nós temos que fazer. Outras coisas nos acontecem sem nosso merecimento, nem nossa culpa. Mas ninguém pode ser iniciado por alguém.

Não acredite nestas histórias de iniciação que andam por aí: “Fulano iniciou sicrano”. Bobagem! Ninguém pode iniciar alguém. Ninguém me pode iniciar, e eu não posso iniciar ninguém.

Eu me posso auto-iniciar e cada um pode se auto-iniciar. Isto está certo. Só existe autoiniciação. Não existe alo-iniciação.

O guru pode mostrar o caminho para o outro. Isto pode. E deve até.

O mestre que pensa que pode iniciar alguém é um contrabandista. Nenhum mestre pode iniciar alguém. O mestre pode mostrar o caminho para alguém se auto-iniciar.

Jesus mostrou o caminho aos seus discípulos. Mas não iniciou ninguém. É fantástico: no Evangelho nunca lemos que Jesus tenha iniciado um só dos seus discípulos. Nunca. Ele mostrou o caminho do reino de Deus. “Vai por este caminho e te iniciarás”. E eles se iniciaram no dia do Pentecostes, quando veio o Espírito Santo sobre eles. 120 pessoas, diz Lucas nos atos dos apóstolos, naquela manhã de domingo foram auto-iniciadas.

Não havia nenhum guru por ali, mas 120 pessoas, homens e mulheres, foram auto-iniciadas no Cenáculo de Jerusalém, no dia de Pentecostes. Por quê? Porque durante três anos tinham andado com o maior dos mestres e tinham ouvido e observado o que ele dizia para se iniciarem. Percorreram o caminho mostrado por Jesus – e se auto-iniciaram. Isto se pode fazer.

Outros podem nos mostrar o caminho, mas outros não nos podem iniciar.

A minha consciência me inicia se eu a intensificar bastante.