Já li alguns livros do rabino Nilton Bonder. Todos excelentes. O último foi TIRANDO OS SAPATOS, em que o autor narra uma viagem pelos caminhos de Abraão na companhia de um grupo eclético de cristãos, islâmicos e judeos, a convite do Departamento de Mediação de Conflitos da Universidade de Harvard. Relata a viagem e faz uma profunda abordagem espiritual da experiência, fundamentada em versículo do livro de Êxodo (3:5): “Tira os sapatos dos pés porque o lugar que estás é terra santa.”
Gostaria de compartilhar com vocês um pequenino pedaço desse livro, para deixá-los com água na boca:

 

A saga de Abraão começa com a escuta – Lech Lechá – vá para si mesmo.

                Este lugar de integridade é sonhado por todos os seres humanos. Imaginamos a ocupação ou profissão que teremos; o tipo de vínculo amoroso que construiremos; e o elo que estabelecemos com o futuro. Essa é a terra sonhada, distante e independente da terra de nossos pais. Reconhecemos que esta integridade é o patrimônio maior de um indivíduo e a única identidade capaz de nos representar legitimamente.

                A complexidade dessa integridade é que ela não se encerra apenas no indivíduo, como talvez a vivenciem os animais. Se quiser ir para si, um ser humano terá que passar pelo outro. Sua identidade não é apenas uma questão pessoal, mas se consolida na condição do outro e também no olhar do outro. Sua identidade também não pode se estabelecer em contraposição ao outro, mas se produz na difícil tarefa de acolher o outro.

                Na mesa que alguém oferta a seu hóspede se encontra a prática humana maior, quiçá semidivina, de ir para si mesmo. É que só podemos ver nossa verdadeira identidade no outro. Repito que isso não é uma moral e, sim, o reconhecimento de uma essência em nós que é muito mais real do que as identidades acumuladas pela vida afora. Olhar esta identidade que não está em nós de forma explícita, seja em nossas preferências ou afiliações, só é possível no outro. É neste outro que habita o reflexo de nossa divindade. Longe do ídolo gerado pelo ego de cada um, olhar a si no outro permite compreender que a fonte de toda a bondade e benesse não é um sujeito, mas uma condição. Como Abraão, que faz seu hóspede agradecer não a ele, que lhe teria cobrado por cada item consumido, mas ao Criador, que se manifesta através dele. O animal Abraão listaria itens, lhes atribuiria custos e os mostraria a seu convidado. É o homem Abraão que se faz transparente através de sua consciência e se empossa de poderes que um outro lhe perpassa. E é esse outro a fonte que acolhe, alimenta e se compadece.

                Abraão aprende por observação e sagacidade – consciência – que toda vez que nega a si mesmo e se faz transparente ganha uma nova identidade, mais profunda e mais real. Sua identidade pessoal não implode nesse momento, muito pelo contrário. Dizer “não” a si mesmo, tomando o cuidado de não se ferir nesse processo, é compreender uma caminhada de auto-encontro. Abraão estava na contramão de sua civilização e, de certa forma, também na da civilização de nossos dias.”

Tirando os sapatos – o caminho de Abraão, um caminho para o outro; BONDER, Nilton com trechos de entrevistas por Tania Menai, Rio de Janeiro, Editora Rocco, 2008 – IV TIRANDO OS SAPATOS – Ver o Divino no outro; Ir para si mesmo; pg.s 228 -231.