Abaixo as reflexões finais do livro AS FRONTEIRAS DA EVOLUÇÃO E DA MORTE – os limites de transformação da energia no homem, de Pierre Weil (Petrópolis, RJ; Vozes, 1983, 2ª edição, pg.s 123 a 127).

Você pode obter muito mais deste autor em seu Site: http://www.pierreweil.pro.br/Brazil.htm

“De uma determinada geração de homens e mulheres

bem poucos alcançam a finalidade suprema da vida

humana. A oportunidade de chegar ao conhecimento

 unitivo será, de uma forma ou de outra, oferecida,

até que todos os seres humanos compreendam, de fato,

quem eles são”

Aldous Huxley

                Estamos agora no fim de mais uma jornada, de mais uma viagem através da Realidade. Considero cada um de meus livros como tal.

                Neste fim de viagem, convém pararmos e tentarmos algumas reflexões complementares e sintéticas. Mostramos, antes de tudo, que nossa vivência da Realidade, interna e externa, depende do estado de consciência em que nos encontramos. E lançamos a fórmula:

VR = f(EC)

                A Vivência da Realidade VR é função f do Estado de Consciência EC. Esta fórmula permitirá, se convenientemente divulgada, dirimir inúmeros mal-entendidos entre os que falam da realidade dentro de um determinado estado de consciência e outros que se referem à mesma realidade, mas dentro de outro estado de consciência.

                Cada vez que uma pessoa se pronuncia sobre alguma coisa ou divulga alguma descrição da Realidade, deveria esta sua afirmação ser precedida de uma declaração quanto ao EC (Estado de Consciência) em que fala. O mesmo podemos dizer de todas as ciências que são na realidade ciências emitidas em determinado estado de consciência.

                Dentro do estado de consciência de vigília, predominam a dialética dos opostos, o princípio de contradição, a percepção da lei dos antagonismos da energia, pois os nossos cinco sentidos, a linguagem e a atividade mental nos levam fatalmente ao mundo da dualidade. A dialética é própria deste estado de consciência e faz parte do mundo pessoal do ego e da mente. A sua função é ajudar o homem a sobreviver e a evoluir, descobrindo aos poucos, através da eliminação progressiva, das contradições, o seu caráter ilusório. Assim se transpõem progressivamente as dualidades próprias a cada nível energético que descrevemos neste livro. Ao desmistificar a dualidade própria a cada nível evolutivo, o homem se desapega também das características próprias a este nível. Desfaz-se do medo de perder aquilo que ele já não valoriza mais até chegar, como a micro-física, aos confins das possibilidades de uso da linguagem e da mente, até que tenha que superar a última dualidade: eu/mundo. Ao transpor esta última fronteira, terá de abandonar toda veleidade de usar a mente, o pensamento, pois terá chegado à conclusão experiencial de que a partir daí a mente lhe prejudica a consecução da verdade.

                Do nível de consciência pessoal terá ele chegado ao nível transpessoal. É o que aconteceu com Lupasco, que tentou trilhar os caminhos do uso da mente, isto é, da lógica formal até as suas últimas conseqüências. Lupasco chegou aos limites a que pode chegar a dialética.

                A dialética, produto da mente que vivencia a realidade dentro do estado de consciência de vigília, tem uma função precípua, a mesma que este estado de consciência: permitir ao homem sobreviver dentro do mundo da energia densa que é a matéria. Por isso mesmo sente-se ela à vontade dentro dos primeiros níveis energéticos descritos neste livro.

                Os níveis transpessoais de consciência, ao contrário, permitem uma vivência da Realidade, da mesma realidade, diferente da dialética. Eles levam a uma vivência holística, molar, unitiva.

                Quer isto dizer que a dialética é desprezível? Certo que não. Ela é válida para o estado de consciência de vigília e sua utilidade não se coloca em questão aqui. Apenas ela chega a certos limites que foram justamente transpostos por Lupasco, quando descobriu que existe dentro do homem a afetividade que escapa à lei do antagonismo da energia. E chegou a isso depois de ter estado todas as possibilidades da lógica formal de não-contradição e criado uma nova lógica de contradição.

                Lupasco teve o mérito de verificar a validade dos seus princípios energéticos em todos os níveis do universo e em todas as ciências das partículas subatônicas até as nebulosas, da célula até a vida psíquica. Em todos os níveis e em todas as ciências que os estudam, encontrou ele a mesma lógica do antagonismo.

                Mesmo na vida psíquica, o próprio conceito não escapa a esta lógica. Efetivamente, um conceito é resultado de um equilíbrio T entre heterogeneização e homogeneização que procuram se atualizar e só chegam a meio caminho entre atualização e potencialização. Por exemplo, falar de um homem consiste, ao mesmo tempo, colocá-lo dentro de uma categoria homogênea, afirmando que todos os homens são iguais e, no entanto, discriminar este homem dos outros, tornando-o heterogêneo pela cor dos cabelos, sobrenome, tamanho, etc. O sono, o sonho, a memória e a imagem, obedecem à mesma lógica.

                Lupasco notou apenas uma exceção que o levou a inferências muito importantes: afetividade não obedece a nenhuma das leis enunciadas aqui. Ela aparece e desaparece sem haver nenhuma potencialização ou atualização do homogêneo ou do heterogêneo dentro dela.

                No nível orgânico ela surge sem ter nenhuma ligação com o sistema em que aparece como um sinal de alteração do equilíbrio. É ela que constitui o sinal de consciência da necessidade de se restabelecer o equilíbrio. A consciência é a sede da afetividade orgânica, da dor assinala o desequilíbrio e do prazer de restabelecer o conflito antagônico. A consciência é também a sede da afetividade psíquica, da emoção e do sentimento. O próprio amor é a manifestação de um princípio unitivo, pois o amor leva à união, à eliminação do desequilíbrio. A afetividade surge quando há desequilíbrio entre as forças. E aparece como tendo ua natureza própria e diferente da energia. Todo sistema energético, intelectual, orgânico ou molecular é uma relação. Uma coisa, um sistema, só existe em relação a outra coisa ou a outro sistema. A afetividade existe por si só. Ela é porque é. Aparece na consciência na potencialização, como produto de uma atualização desequilibrante.

                Qual a razão de sua existência dentro da consciência? Tudo indica que a afetividade e a consciência fazem parte ou são a manifestação de um princípio unificador, pois surgem justamente quando o conflito dos antagonismos se dissolve, isto é, aparecem para restabelecer um equilíbrio de forças.

                Cada desequilíbrio de forças obriga, pela dor que desperta na consciência, a restabelecer o conflito, isto é, a restabelecer uma unidade que contém os antagonismos, pois não pode haver um sem dois. Mas não pode haver também um sem zero. É do zero que provém a energia simbolizada pelo um que implica a dualidade antagônica do dois.

                A pergunta que agora se impõe é esta: quem restabelece o conflito necessário para a unidade? Só há uma resposta possível: é este princípio unificador ao qual se deu o nome de self.

                O self hoje já não é um princípio abstrato e produto de meras deduções lógico-metafísicas. Pode ser experimentado dentro de cada um de nós, tal como se pode vivenciar e constatar um sonho, um pensamento, uma lembrança ou emoção.

                Através de métodos próprios, como a psicossíntese de Assagioli, do sonho acordado de Désoille, de técnicas de meditação do ioga ou do za-zen, do cosmodrama criado por nós e que se inspira na psicanálise do psicodrama, da gestalt-terapia e dos outros métodos que acabamos de citar, conseguimos experienciar o self.

                O self PE o princípio, dentro de cada um de nós, que nos faz superar os desequilíbrios da dualidade própria das percepções do ego. O ego é dual, é produto da identificação do self com a vida mental, emocional e física. Nós o descobrimos através da desidentificação, do afastamento, da tomada de distância dos nossos próprios sistemas e subsistemas. Se temos corpo e mente, não somos este corpo e esta mente. Podemos servir-nos deles para cumprir nossa tarefa de existir que consiste justamente em consolidar, fortalecer a formação desta consciência maior da existência deste self. Isso se dá passando-se de um nível de consciência a outro, de um estado de consciência a outro, ou, melhor ainda, mudando progressivamente de nível de sistema dentro da hierarquia que descrevemos. Cada nível obedece à lógica do antagonismo, mas a passagem de um nível a outro nos permite chegar gradativamente à realização do self como parte integrante do self universal.

                É esta realização que constitui a finalidade última de todos os seres humanos. Uns vivem mais conscientes disso do que os outros. Mas todos procuram, a maioria sem saber, reencontrar o “paraíso perdido”. A tendência mais comum é procurá-lo no mundo exterior, nos prazeres efêmeros propiciados pela nossa civilização de consumo. O presente livro mostra que este “paraíso perdido” se encontra dentro de cada um de nós. Cabe a nós mesmos e só a nós mesmos reencontrá-lo. Ninguém mais pode fazer isso por nós. O que fizemos aqui é apontar as etapas, as fases. Demos o mapa. Fornecemos a cartografia. Cabe ao leitor seguir a rota traçada. Só ele poderá fazê-lo, se assim o desejar, da forma que o desejar e puder, com ou sem mestre exterior, mas sempre com a força interior.

                O homem é um potencial, uma grande semente que precisa se abrir, crescer, dar flor, desabrochar: em suma, atualizar o self, o seu ser interior. Esta é a sua tarefa essencial. Enquanto não tiver atingido esta experiência sublime e aprendido a se reerguer de sua queda adâmica adquirindo plena consciência de si mesmo, enquanto o homem inteiro não se tiver desenvolvido a partir dos animais da esfinge, enquanto não tiver adq2uirido a plena consciência de si mesmo e de sua unidade com o universo, ele sentirá que está lhe faltando algo. Sentirá uma saudade interior. Haverá uma sereia a cantar e a lhe dizer que ele  não atualizou o seu potencial.

                Mesmo que tenha atualizado todos os seus potenciais, realizado todos os seus desejos de riqueza, fama, poder e sexo, ele estará sentindo que algo lhe falta. Ver-se-á como um potencial não atualizado. E se alcançar essa realização, nesta sua existência, a própria morte adquirirá um significado diferente para ele, como é o caso experienciado por todos os que passaram para este novo e mais real estado de consciência. Longe de uma alienação da realidade, como muitos o concebem, quem alcança esta realização verdadeira está mais em paz consigo mesmo e com os outros, mais integrado e sensível à vida social, mais disponível e aberto para acabar com o sofrimento humano de toda espécie.

                Mas, querendo ou não, o Homem morre e renasce a si mesmo no plano físico, emocional e mental, a toda hora. Cabe a ele, e só a ele, tomar consciência desse fato relevante da sua existência. Será este o começo de sua maior realização.”