Mais um texto de Rohden. Talvez este um pouco mais “pesado” do que os que postei anteriormente – mas extramente esclarecedor. Vocês irão gostar.

                “Quando o homem experimenta a imanência de Brahman em todas as suas obras como sendo a essência de tudo, e sente, ao mesmo tempo, que Brahman está em tudo – então está em Aum, identificado como o infinito Uno em si, o infinito Verso em todas as coisas. Aum é o sujeito em todos os objetos, e todos os objetos no sujeito – o Universo.

            E, para criar ambiente propício para essa consciência imanente-transcendente, profere o homem, vagarosa e intensamente, o sacro trigrama Aum.

            “A”, som aberto, representa o início (Brahma, Pai).

            “U”, semi-aberto, representa a continuação (Vishnu, Filho).

            “M”, fechado, representa a consumação (Shiva, Espírito Santo).

            Depois de expirar a última letra “M”, numa vibração profunda e prolongada, sobrevém a vibração inaudível, a mais poderosa de todas as vibrações, a vibração do Silêncio Absoluto, que é a Pura Consciência. O que se segue à última vibração audível do “M” é o Nirvana, o Silêncio Dinâmico, o Nada Criador, a Luminosa Escuridão, a Fecunda Vacuidade, o Nadir do Zênite, a Identidade dos Opostos, a Tese, anterior a todas as Antí-teses e Sín-teses, simbolizado, muitas vezes, pela Serpente Circular, cuja cauda termina na boca.

            O Aum é o “Amem” do Evangelho, o “Alfa e o Ômega” do Apocalipse.

            “A” significa vigília (olhos abertos).

            “U” significa sonho (olhos semi-fechados).

            “M” significa sono sem sonho (olhos fechados).

            Na vigília, o homem é ego-consciente.

            No sonho o homem é subconsciente.

            No sono o homem é inconsciente.

            Mas todos esses estados são estados da consciência individual em diversos graus. Para além de todos esses estados de consciência individual – vigília, sonho e sono – está o oceano imenso da oniconsciência universal, que se manifesta só depois que todos os estados de consciência individual expiram na absoluta inconsciência.

            Os estados de vigília, sonho e sono podem ser comparados com outras tantas torrentes de águas mais ou menos claras ou turvas (graus de consciência), mas que desaparecem todas quando deságuam no oceano da oniconsciência absoluta, no nirvana de Brahman, donde vieram e para onde têm de voltar.

            No estado nirvânico além do “M” audível (chamado Turiya ou Pura Consciência), Brahman é percebido como imanente e transcendente no mais alto grau; cessa toda a bipolaridade dualista, e reina soberana a grande unipolaridade monísta.

            Brahman é “A” na vigília que experimentamos no mundo da matéria.

            Brahman é “U” no sonho que vivemos no mundo astral das energias.

            Brahman é “M” no sono que dormimos no mundo das forças espirituais.

            O fundamento e substrato de todas essas funções é Atman, que é o próprio Brahman em sua atividade criadora.

            Quando Atman age por meio dos sentidos (A), é chamado Vishva.

            Quando age pelo corpo astral (U) é chamado Taijasa.

            Quando atua pela força espiritual (M) é apelidado Prajna.

            Quando Atman está associado a uma dessas três funções (upadhis), tem ele esses nomes; mas em si mesmo Atman é sem nome, porque é idêntico a Brahman, o Anônimo Absoluto.

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A descrição acima se refere à atividade de Atman no universo humano, o microcosmo; mas a mesma atividade também se verifica no Universo cósmico, o macrocosmo, onde Atman também se revela como material, astral e espiritual, embora em si mesmo não tenha atributo algum, sem nome, sem forma, acima de tempo, espaço e causalidade.

No macrocosmo, a atividade de Brahman no plano material é chamada Virat correspondente a Vishva, no microcosmo); no plano astral é chamada Prajapati correspondente a Taijasa, no microcosmo); no plano espiritual é chamada Prana (correspondente a Prajna, no microcosmo).

            Brahman é, pois, material, astral, espiritual, em suas atividades, tanto no homem como no Universo. Entretanto, não há diferença intrínseca, qualitativa, entre o microcosmo e o macrocosmo; a diferença é meramente extrínseca, quantitativa. Tanto o microcosmo humano como o macrocosmo do Universo são agregados de indivíduos, pouco importando o número dos mesmos. Nenhum desses indivíduos tem realidade autônoma em si mesmo; toda a realidade lhes advém de Brahman, que é a única Essência Universal; os outros seres são apenas Existências individuais. Nenhum desses indivíduos, seja do microcosmo, seja do macrocosmo, nasce ou subsiste em virtude de si mesmo – assim como o pensamento não nasce nem subsiste em virtude de si mesmo, sem o pensador que o pensa. Os indivíduos são “indivisos”, não separados de Brahman. Se fossem divisos, separados, seriam o Nada; se fossem idênticos com o Todo, seriam Brahman. Sendo que os indivíduos não são o puro Nada, a Irrealidade, nem Brahman (Brahman não admite plural!), nem Realidade auto-subsistente, segue-se que esses “algos” são entidades dependentes, indivíduos heterônomos, modalidades ou modos de existir do Ser Absoluto, Brahman.

            Se algum desses seres “indivisos” se julga “diviso”, separado do grande Todo, Brahman, está em erro, porque não compreende a sua verdadeira natureza, confundindo sua “existência” externa com sua “essência” interna; esse ser que se julga diviso, separado, atinge apenas o invólucro periférico de sua natureza, mas não a medula da mesma; enxerga o seu “ego personal” e ignora o seu “Eu individual”; vê o seu “Ter”, mas é cego para o seu “Ser”.

            Um organismo vivo consta de inumeráveis células, moléculas, átomos – mas uma só é a vida que o anima. Um é todo princípio vivificante, muitas são as partes vivificadas. A célula só é viva porque foi vivificada pela Vida Universal do organismo.

            Da mesma forma, um indivíduo só tem realidade individual porque foi realizado pela Realidade Universal.

            Brahman é a Realidade Universal Única, Absoluta. Fora dele nada é real.

            Tudo quanto Brahman realiza possui realidade relativa, mas não Realidade Absoluta. A diferença entre a realidade relativa daquilo que foi realizado e a Realidade Absoluta daquilo que realiza é infinita. Nenhum efeito é real no sentido em que a causa é real. O efeito é apenas realizado, alorreal; só a Causa é genuinamente real, auto-real.

            Dizer que Brahman é a única Realidade e que fora dele tudo é irreal (como afirmam certos sistemas metafísicos) não é exato, como já lembramos. Se a Realidade age criadoramente, o termo final do seu agir criador não pode ser o puro Nada, o Irreal; se assim fosse, não teria havido ação criadora. Não, o que Brahman realiza não é irreal nem é real, mas é realizado. Este realizado é um real passivo e não um real ativo como Brahman, tampouco um irreal passivo como o puro Nada. O real é uma realidade inderivada, ao passo que o realizado é uma realidade derivada. O mundo não é real nem irreal, mas é realizado. Não é o Todo nem o Nada, é Algo.

            O Algo, a realidade derivada, o realizado, chama-se “existência”.

            O Todo, a  realidade original, inderivada, o real, chama-se “essência”.

            Na filosofia platônica, a realidade ou essência eterna das coisas chama-se “Eidos” (inadequadamente traduzido por “Idéia”), quer dizer “imagem original” – ao passo que as realidades derivadas ou existências são chamadas “Eidolon” (Eidola, no plural), isto é, “cópias” do original. Do vocábulo “Eidos” derivamos “idéia”; da palavra “Eudolon” derivamos “ídolo”. Quem adora a cópia (Eidolon) em vez do original (Eidos) é “idólatra”, cultor de ídolos.

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            O prana isto é, a substância vital Universal, chama-se também sutratma, que significa literalmente “fio de alma” (sutra = fio, cordel; atma ou atman = alma). Quer dizer que o prana ou elemento vital do cosmo une todas as coisas do Universo, assim como um fio ou cordel une as pérolas de um colar. O prana é por assim dizer, um protoplasma mental que permeia todas as células do grande organismo cósmico, fazendo dele um “Todo” [i].

            Sutratma é, praticamente, a imanência de Brahman em todas as formas de Maya, tanto assim que a filosofia vedanta faz Brahman dizer: “Por mim, por meu Ser imanifesto, são permeadas todas as coisas”, o que equivale dizer que todas as coisas são permeadas pela essência de Brahman, por sua invisível imanência.

            Quando alguém sabe e experimenta a impermanência de todas as formas de Brahma e a permanência do Brahman amorfo, então é libertado do karma negativo das ilusões, redimido do pecado da dualidade, graças ao monismo absoluto; esse homem entrou no “seio de Brahman”, que é Nirvana, e está isento de futuros nascimentos, vidas, mortes e reencarnações. Escapou do círculo vicioso do nascer, viver, morrer e renascer; só conhece o eterno Viver. Lançou-se, como que em linha reta, ao seio de Brahman e afundou-se no oceano do Infinito. Abandonou para sempre o doloroso sansara de Maya e descansa no delicioso samadhi do eterno Nirvana.”

Rohden, Huberto, (1893 – 1981); O espírito da filosofia oriental; São Paulo; Martin Claret, 2008 (Republicação do terceiro volume da Obra Filosofia Universal – O drama milenar do homem em busca da verdade integral), pg.s 57 a 61.

 


[i] A filosofia oriental nem sempre faz distinção nítida entre “mental” e “racional”, como também acontece entre nós, infelizmente. O “sutratma” pode ser considerado tanto elemento mental como elemento racional, pode ser inteligência e pode ser espírito.

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