Pretendo, nos próximos dias, postar alguns textos do livro “O Espírito da Filosofia Oriental, de Huberto Rohden. Serão partes do capítulo “Brahman, Atman, Maya e Nirvana”. Os subtítulos que os epigrafa são de minha autoria. Estou certo que irão apreciá-los muito.

Aproveito para informar, e o faço com alegria, que a Editora Martin Claret, está reeditando alguns dos livros de Huberto Rohden, como é o caso do Espírito da Filosofia Oriental, na coleção A Obra-prima de cada Autor. São livros em “formato de bolso”, oferecidos a um preço bastante acessível.

“Brahman é Realidade absoluta, eterna, infinita, universal, o Uno e o Todo, o Ser como tal, sem forma, sem nome, sem atributo, para além de tempo e espaço.

Brahman, embora seja, em si mesmo, a Realidade Única e Total, é, ao mesmo tempo, quando considerado do ponto de vista do mundo dos fenômenos individuais, o Nada absoluto, o Nirvana, o Irreal, porque não é nenhuma das coisas existentes no plano fenomenal. O Ser absoluto não “existe”, mas “é”. É o único ser que é realmente e em toda a plenitude. Por isso, no plano do simples existir, Brahman é o não existir, o Nada fenomenal.

O que existe[i] não é – o que é não existe.

Atman – Mas esse Ser, Uno e Absoluto Brahman, embora absolutamente transcendente em seu eterno Ser, é ao mesmo tempo imanente em seu temporário Agir; o universal está presente em todos os indivíduos que dele emanaram, ou melhor, emanam sem cessar – assim como a Vida Universal está em cada indivíduo vivo, assim como o Fogo está no combustível, assim como o Pensador está em cada um dos seus pensamentos – assim está o Universal em todos os seres individuais, o Absoluto nos relativos.

Essa onipresença de Brahman em todos os indivíduos, que dele emanam, chama-se Atman, ou alma (anima). Brahman é a alma ou essência de todas as coisas – e todas as coisas são o corpo ou existência de Brahman. O Imanifesto é manifesto em tudo. Brahman não é tudo, mas está em tudo. Se Brahman fosse todo e qualquer individuo, cada indivíduo seria infinito – ou então Brahman seria finito. Mas todo finito está no Infinito, e o Infinito permeia todos os finitos.

Muitos compreendem a transcendência de Deus – poucos compreendem a sua imanência no mundo e confundem essa imanência com identidade, tachando de “panteístas” os monistas, os afirmadores dessa imanência.

A razão última dessa imanência divina no Universo é a seguinte: é intrinsecamente impossível e contraditório que exista um efeito fora da Causa Universal (Brahman, Deus). No terreno das causas individuais (que não são verdadeiras causas, porque antes de causarem já foram causadas) pode, sim, o efeito existir fora da sua causa; pode, por exemplo, o filho continuar a existir depois que seus pais, essas causas segundas, deixaram de existir, mas, no plano da Causa Universal, que é a única causa verdadeira, não pode haver efeito fora da causa, precisamente por ser a Causa Universal – e como poderia existir algo individual fora do Universal? Na realidade, todo efeito individual não é senão um aspecto parcial e unilateral da Causa Universal, é essa própria Causa como efeito individual.

distinção entre causa e efeito, mas não há separação (como também não há identidade). Devido a essa falta de separação entre efeito individual e Causa Universal, não pode esse efeito estar fora da sua Causa, e, por isso, temos de admitir logicamente uma interpenetração entre Causa e efeito, ou seja, uma permanente imanência da Causa no efeito e do efeito na Causa. A essência única está em todas as existências.

Se houvesse separação entre Causa e efeito, não teríamos uma Causa realmente Universal e Onipresente; onde há um “fora” não há universalidade, onipresença, porque esse “fora” denota limitação do Universal, e um Universal limitado não é universal.

O dualismo filosófico e teológico que admite essa “fora”, ou essa separação entre Causa e efeito, é ilógico; e, se fala de um “deus onipresente”, contradiz a si mesmo, porque um Deus onipresente é, forçosamente, um Deus imanente. A evasiva de que Deus não esteja onipresente com a sua essência, mas tão-somente com o seu poder ou as suas leis, é por demais pueril para que mereça refutação séria, porquanto não há nenhuma diferença real entre a essência e o poder ou a lei de Deus. A essência divina é o próprio poder e a própria lei. Deus não fez leis e as injetou no mundo. Deus é a própria lei universal, a própria vida, a inteligência e o espírito que permeiam todas as coisas do Universo.

Deus é o inconsciente no mineral.

Deus é o subconsciente no vegetal.

Deus é o semiconsciente no animal.

Deus é o consciente no intelectual.

Deus é o superconsciente no racional.

Deus é, apesar disto, o oniconsciente em si mesmo, na Divindade absoluta.”

O espírito da filosofia oriental/Huberto Rohden (1893 – 1981). São Paulo: Martin Claret, 2008. (Coleção a obra prima de cada autor) – (Copyright desta edição: Editora Martin Claret, 1981); Brahman, Atman, Maya, Nirvana – 1ª parte;  Pg.s 39 a 41.


[i] A palavra “existir”, formada dos radicais “ex” (fora) e “sistere” (colocar), significa literalmente “colocar para fora”, ou “estar colocado fora”. Tudo que existe foi produzido, ou colocado fora, pelo Ser, assim como todos os efeitos foram produzidos pela causa. Dizer que “Deus existe” é, lógica e filosoficamente falando, um absurdo, porque, se Deus existisse, ele não seria o Infinito e Universal, mas algum finito e individual. Quem afirma que “Deus existe” professa ateísmo, e quem adora esse “Deus existente” pratica idolatria! Mas… tão grande verdade não deve ser dita aos profanos. A Verdade é alimento para uns – e veneno para outros…