Como prometido, a segunda parte do capítulo “Brahman, Atman, Maya, Nirvana”, de  O Espírito da Filosofia Oriental, de Huberto Rohden. Vocês irão gostar.

“No homem, essa imanência de Deus é o “Atman” por excelência.

No homem, os diversos graus de subconsciência inferior amanhecem na ego-consciência ou intelecto e, finalmente, na cosmoconsciência da razão.

O Atman humano em toda a sua perfeição é a Razão, que também se chama Alma, Consciência, o Cristo interno, Deus no homem. O Atman humano é a mais perfeita imanência de Brahman que existe aqui. A consciência dessa imanência divina é susceptível de muitos graus e, quanto mais alto for o grau de consciência dessa divina imanência no homem, mais intensa e nítida é a experiência que o homem tem de Deus e, portanto, de si mesmo. A maravilhosa oração de Santo Agostinho “Deus, noverim te ut noverim me” (conheça eu a ti para que me conheça a mim) resume, numa concisão lapidar, esta grande verdade: quem conhece a Deus conhece a si mesmo, porque o seu verdadeiro Eu é Deus nele. Poderíamos também inverter a prece e dizer “noverim me ut noverim te” (conheça eu a mim, para que te conheça a ti, ó Deus).

Todo pecado do homem provém, em última análise, do fato de ele não ter consciência da imanência de Deus nele, e por isso proclama a sua egocracia personal, separada da cosmocracia universal de Deus. Quando então desperta no pecador separatista a consciência da presença de Deus, integra ele a sua pequena egoidade personal na grande Divindade Universal – e isto é conversão, salvação, entrada no reino de Deus.

Mas se a presença de Deus é um fato universal em todos os seres, por que essa diferença de criatura a criatura?

Respondemos que a perfeição da criatura não vem da simples presença objetiva de Deus, mas do maior ou menor grau de consciência subjetiva que uma criatura tenha dessa presença. O grau de perfeição não é determinado pela presença objetiva de Brahman em alguma parcela de Maya, sobretudo do Atman humano, presença que é sempre a mesma em si; mas repetimos, essa perfeição depende da percepção dessa presença por parte da criatura. No plano da presença objetiva, ontológica, não há graus – mas no plano da percepção subjetiva, lógica, dessa presença, há inumeráveis graus, porquanto, “o conhecido está no cognoscente segundo a medida do cognoscente”. Na ordem lógica, o objeto é bitolado pelo sujeito; o conhecido obedece ao cognoscente.

Entretanto, não se requer que o indivíduo perceba essa presença como sendo Deus; basta que a perceba como algo maior do que o próprio indivíduo, como algo que dê uma razão de ser mais profunda e vasta ao simples fato do existir de uma criatura. Não só os místicos e filósofos, mas até os psiquiatras sabem, hoje em dia, que a cura de numerosas doenças, sobretudo mentais e emocionais, só é possível quando o doente consegue criar dentro de si a consciência de um “Todo Maior”, de algum ponto de referência que para ele signifique o Absoluto, o Seguro, o Sólido, um centro de gravitação em que esse planeta erradio possa traçar a sua orbita rítmica e permanente.

Assim, o próton e o elétron têm imperiosa necessidade de se integrarem em um “Todo Maior”, que, para eles, é o átomo completo. Este, por sua vez, tem necessidade de se integrar no mundo maior da molécula, e assim por diante. O próton e o elétron só percebem Brahman como sendo esse átomo; os átomos o percebem na forma de uma molécula. Se o mundo protônico-eletrônico possuísse filosofia própria, diria que o átomo é Deus; a família dos átomos diria que Deus é a molécula – e o culto divino daí resultante seria um “culto atômico” ou uma “religião molecular”.

Para as células vivas de uma planta o “Todo Maior” (Brahman, Deus) seria o organismo vegetal alimentado pela luz solar, e a verde clorofila que polariza os fótons de luz seria uma espécie de santuário ou altar da Divindade Solar – o seu culto seria “heliotrópico”, ou seja, adoração do Sol.

O animal encontra a sua integração conatural na zona do sensitivo, e o seu deus imediato seria apreendido como “Vida”, Vitalidade.

No homem intelectual, a consciência do “Todo Maior” atinge elevado grau; o seu Deus pode se chamar Lei ou Harmonia entre os diversos componentes do Universo. O seu Deus é “Inteligência”.

Quando o homem ultrapassa as fronteiras da evolução intelectual e invade o mundo imenso do racional ou espiritual, então o seu “Todo Maior” passa a ser “Espírito”, “Lógos” ou Amor Universal, que se revela no indivíduo como suprema verdade e Felicidade. Atman atingiu maioridade e maturidade.

Nessa altura da evolução humana desponta a grande Solidariedade Cósmica, dentro da qual o homem sente em si as pulsações da vida universal, para cima (Deus), para todos os lados (a humanidade) e para baixo (a natureza).

Com essa entrada na zona da solidariedade cósmica conquista o homem também a sua imortalidade individual; pois, como o Todo é eterno e imortal, a imortalidade do Universo passa a ser a imortalidade do indivíduo. O centro da consciência humana é idêntico à essência do Universo, que se perpetua como existência.

Deus, Brahman, o grande Todo, pode, portanto, ser experimentado como sendo Átomo, Molécula, Célula, Vida, Luz, Inteligência, Espírito, consoante a capacidade de cada indivíduo, na escala da sua evolução peculiar. E a “religião” – ou “re-ligação” de cada um desses indivíduos consistiria na ligação ou integração que cada um deles sinta com o Todo, isto é, aquele Todo que para ele represente o mais alto que ele possa experimentar.”

O espírito da filosofia oriental/Huberto Rohden (1893 – 1981). São Paulo: Martin Claret, 2008. (Coleção a obra prima de cada autor) – (Copyright desta edição: Editora Martin Claret, 1981); Brahman, Atman, Maya, Nirvana – 2ª parte;  Pg.s 41 a 43.