Aqui está a 3ª parte do capítulo “Brahman, Atman, Maya, Nirvana” do livro “O Espírito da Filosofia Oriental”, de Rohden. Boa leitura.

“Maya – É o aspecto externo e visível de Atman, a manifestação material e objetiva de Brahman.

Maya – geralmente traduzido por “ilusão”, significa literalmente o “grande poder” (mahamaya), ou seja, a grande manifestação do Imanifesto. É “ilusão” para os ignorantes que identificam o manifestado com o Imanifesto, as criaturas com o Criador. Mas, para o sapiente e iluminado, é Maya o “grande poder”, o maravilhoso veículo de que o humano viajor se serve para chegar até Brahman. Para o profano é Maya empecilho, para o iniciado é auxílio.

Diz a filosofia oriental que Maya revela e vela Brahman, que a natureza descobre e encobre, manifesta e oculta a Deus. E serve-se do maravilhoso símbolo da aranha que revela ou manifesta por meio da sua teia, mas ao mesmo tempo essa teia vela ou oculta a própria aranha.

De fato, a natureza revela Deus, mas, como nenhum finito pode revelar adequadamente o Infinito, por ser este pura qualidade e aquele uma congérie de quantidades, resulta que essa revelação de Deus feita pela natureza é ao mesmo tempo uma “velação” ou encobrimento, por ser uma revelação muito pequena e inexata. Maya revela Brahman, mais ou menos assim como as setas ao longo das nossas estradas e nas encruzilhadas revelam ao viandante o caminho certo a seguir; mas, se o viajor não compreende o sentido da seta e se apega a ela, em vez de abandoná-la, falha o sentido e a mensagem da seta indicadora; pois o sentido é “orientar-se por ela e abandoná-la”. Assim, a natureza é uma flecha indicadora, apontando para uma causa universal que ultrapassa todos os efeitos individuais. Toda a revelação que Maya pode fazer de Brahman é um processo preliminar, indireto, imperfeito; “espelho e enigma”. Somente quando o homem se emancipa do impacto dos sentidos e do narcisismo da mente, que atuam no mundo de Maya, é que ele pode compreender o que é Deus, vê-lo “face a face” e adorá-lo “em espírito e em verdade”.

Quando o homem vê a essência divina em todas as existências mundanas, então deixa Maya de ser para ele uma ilusão e se lhe torna um grande poder.

Nesta altura dá-se, então, o consórcio entre a Verdade e a Beleza, entre a Filosofia e a Poesia. O Universal é descoberto no Individual, o Eterno no Temporário, o Absoluto no Relativo, o Infinito no Finito.

O homem cósmico, que é filósofo da verdade e poeta da beleza, enxerga em todas as existências individuais a essência universal e, por outro lado, sabe também exprimir em termos de poesia concreta a verdade abstrata. O Evangelho do Cristo é o exemplo clássico dessa verdade abstrata revelada em poesia concreta e desse conteúdo universal percebido em todos os contenedores individuais. Muitos sabem conceber abstratamente as coisas abstratas; muitos sabem dizer concretamente as coisas concretas – mas poucos sabem intuir o abstrato no concreto e exprimir em termos concretos o abstrato. Nesta arte suprema não tem rival o filósofo de Nazaré.

O homem cósmico faz o grande tratado de paz entre o Deus do mundo e o mundo de Deus, porque fez um tratado de paz consigo mesmo. Então encontra ele a sua catedral e o seu altar por toda parte, porque os encontrou dentro de si. Já não necessita subir ao monte Garizim nem entrar no templo de Jerusalém para encontrar a Deus e travar colóquios com ele – encontra-o no mineral e na planta, numa gota d’água e numa pétala de flor, no chiar dos insetos e no gorjeio dos passarinhos, nas feras das selvas e no silêncio do deserto…

O homem é livre de tudo que sabe – e escravo de tudo que ignora.

O homem cósmico interessa-se vivamente por todas as coisas boas e belas da terra – mas não depende de nenhuma delas. Só podemos gozar intimamente e sem remorsos aquilo de que somos livres e soberanos, e não aquilo de que somos vítimas e escravos.”

O espírito da filosofia oriental/Huberto Rohden (1893 – 1981). São Paulo: Martin Claret, 2008. (Coleção a obra prima de cada autor) – (Copyright desta edição: Editora Martin Claret, 1981); Brahman, Atman, Maya, Nirvana – 3ª parte;  Pg.s 43 a 45.