Depois de uma semana. . . mais pouco de Rohdem.

Há diversos modos de conhecer[i], se tomarmos este termo no sentido mais amplo.

Todo e qualquer indivíduo finito – e todos os indivíduos são finitos – tem a tendência instintiva de se pôr em contato com o mundo externo, o Todo em derredor dele, enquanto é capaz de o apreender. A finalidade dessa tendência universal é evolutiva: cada indivíduo tende a evolver ou aperfeiçoar-se por meio do contato com o mundo maior em torno dele.

Esse processo de contato admite diversos estágios ou graus de perfeição.

O modo mais simples e primitivo é o de assimilação física, pelo qual o sujeito menor incorpora algo do objeto maior. Plantas e animais ingerem, incorporam, assimilam algo do mundo externo, consubstanciando-o com seu mundo interno, e conseguindo assim maior grau de perfeição. O maior, parcialmente identificado com o menor, confere maior perfeição a este último.  È que a lei básica da evolução não consiste apenas em “ser”, mas em “se tornar atualmente o que já é potencialmente”. A lei evolutiva não é, por assim dizer, um plano horizontal, estático, mas antes uma linha ascensional, dinâmica. A assimilação física, como toda e qualquer tendência e processo de contato com o ambiente maior, obedece a essa lei de evolução ascensional.

Outro processo de contato, bem mais perfeito que a simples assimilação física de substâncias materiais, consiste na percepção sensória. Nesse caso, o sujeito percipiente se põe em contato com o objeto perceptível ou percebido, por meio dos sentidos (ou do sentido, porquanto os seres inferiores dispõem apenas de um sentido: o tato), assimilando reflexos, imagens, impressões vindas do mundo circunjacente, e centralizando-os numa percepção mais ou menos consciente e homogênea.

Para que haja percepção sensória (ou assimilação física) requer-se a presença física do objeto. Há, todavia, uma classe de seres, aqui na terra, capazes de assimilar ou perceber algo que não se acha fisicamente presente, devendo, todavia, estar presente metafisicamente, ou seja, mentalmente. Essa percepção metafísica ou mental é tipicamente humana, não se encontrando, ao que consta, no mundo infra-humano. Pela percepção metafísica, mental            ou intelectual, põe-se o homem em contato com realidades (note-se bem, realidades objetivas, e não apenas ficções subjetivas!) presentes, mas não individualizadas e concretas de maneira que possam ser percebidas pelos sentidos materiais. A palavra “inteligir” (interlegere, ler ou perceber por entre), como já dissemos, é admiravelmente escolhida para indicar este processo de contato com o grande mundo ultra-sensório: pelo intelecto, o homem percebe algo entre as coisas fisicamente presentes, percebe o nexo metafísico que entre essas coisas físicas existe, embora escape à verificação dos sentidos. Sendo que essa percepção intelectual é uma percepção em conjunto, é ela chamada adequadamente “concepção”.

Não é de supor, todavia, que essa faculdade intelectiva seja o mais alto modo de conhecer que a humanidade possa atingir. Pelo contrário, temos numerosos exemplos, através de todos os milênios da história humana, de que o homo intelligens do nosso século pode vir a tornar-se o homo sapiens[ii] dos séculos vindouros, uma vez que nas profundezes da natureza humana existe, embora ainda latente na maior parte dos seres humanos, a potencialidade para essa ulterior evolução ascensional.

De longe em longe aparece uma antecipação dessa humanidade futura, homens dotados de uma faculdade cognoscitiva que tanto ultrapassa o processo intelectivo do homem comum de hoje, como este supera o processo sensitivo do infra-homem pré-histórico.

Pelos sentidos percebe o homem as coisas concretas, individuais, do mundo físico, material, sem nenhum nexo entre esses indivíduos.

Pela inteligência percebe ou concebe o homem as invisíveis relações de causa e efeito que vigoram entre os seres do mundo.

Pela intuição racional[iii] (ou espiritual) entra o homem em contato direto e imediato com o Todo, a Realidade absoluta, total, infinita, eterna, onipresente. . .

. . . Muitas vezes, a erudição intelectual é até um obstáculo à intuição espiritual, não em si mesma, mas porque o homem altamente intelectualizado facilmente se convence de que, além do plano intelectivo, nada mais existe digno de ser atingido, caindo assim vítima de uma deplorável auto-complacência narcisista, que fecha todas as portas a uma evolução ulterior, rumo ao conhecimento intuitivo.

Todo conhecimento sensitivo-intelectivo é analítico, sucessivo, parcelado – o conhecimento intuitivo, racional, espiritual, é sintético, simultâneo, total. Aquele é comparável a um andar passo a passo – este se parece antes com um voar a jato.

Pode o homem retraçar silogisticamente, analiticamente, o seu caminho intelectual, e estudar, uma por uma, as razões que o levaram a tal e tal conclusão – ao passo que o homem de intuição espiritual só sabe que chegou a tal ou tal ponto da jornada, mas não sabe como lá chegou, não podendo jamais explicar a outros, nem mesmo a seu próprio ego intelectivo, as razões porque admite certas coisas. Resulta daí que as nossas mais altas certezas aparecem, não raro, como coisas irracionais, ilógicas, absurdas; o grande Tertuliano, do segundo século cristão, chegou a ponto de dizer “credo quia absurdum”, creio porque é absurdo. Absurdo não quer dizer contraditório, mas, para além da percepção intelectual. A Realidade absoluta é, necessariamente, “absurda” para uma faculdade relativa como a inteligência, porque o Todo não pode ser abrangido pela parte, nem o Universal cabe no individual. Por esta mesma razão, o apóstolo Paulo disse que os atenienses eram um povo muito religioso, pelo fato de adorarem um “deus desconhecido”; desconhecido aos sentidos e à inteligência, porém conhecidos à razão intuitiva, ao espírito cósmico do homem.

O homem de ontem foi meramente sensitivo.

O homem de hoje é sensitivo-intelectivo.

O homem de amanhã será sensitivo-intelectivo-intuivo.

O homem sensitivo não é filósofo.

O homem intelectivo é filósofo.

O homem intuitivo será um sophós, um sábio, um verdadeiro homo sapiens.

O homo intelligens de hoje, o filósofo, é um viajor em plena jornada.

O homo sapiens de amanhã, o sophós, se aproximará do termo da viagem.

O PENSAMENTO FILOSÓFICO DA ANTIGUIDADE – O drama milenar do homem em busca da verdade integral; ROHDEN, Huberto; Volume I, 4ª Edição, Alvorada Editora e Livraria Ltda., Os Bandeirantes da Verdade, pg.s 52 a 57.


[i] Como acontece muitas vezes, a filologia e etimologia são ótimas aliadas da filosofia. Conhecer, do latim cognoscere, quer dizer literalmente “ter uma noção em conjunto”, ou um contato mútuo, denotando a relação entre o sujeito e o objeto.

[ii] A conhecida expressão homo sapiens, tão usada por cientistas e literatos modernos para designar a espécie humana, em oposição ao mundo infra-humano, não é aplicável ao grosso da humanidade atual, mas tão somente a uma pequena elite. A massa da humanidade atual é formada pelo tipo homo sentiens e homo intelligens, havendo, porém, uma porta aberta para o advento do verdadeiro homo sapiens, tipo Jesus Cristo e mais alguns outros espécimes avançados do homem perfeito.

[iii] O uso comum identifica intelectual com racional, procedimento esse inadmissível à luz duma filosofia esclarecida. A inteligência é unilateral, a razão é onilateral. A razão (Ratio, o Lógos de Heráclito, dos neo-platônicos e do quarto evangelho)  é idêntica ao espírito universal, Deus mesmo, e não significa alguma faculdade individual, como a inteligência.

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