Ainda Cordisburgo:

Não ficamos na urbe, não. Esticamos até Lagoa Bonita, distante 15 km de estrada de terra batida. Uma aldeiazinha, sem asfalto, poucas ruas, poucas casas, um salão de festas, uma Igrejinha onde se comemora, anualmente, a Festa de Nossa Senhora do Rosário, com direito a um tradicional congado.

Ficamos ali, 200 metros da Capela em linha reta, tirada a 25 graus defronte a morada. Vista de fora, aparência simples, olhando pra rua apenas por três janelas de tábuas de madeira escura, que, quando cerradas, não permitem entrar nem o sol nascente. Incrustada em área ampla, com 50 metros de frente e 100 de fundo, ou mais, toda murada, tem à sua fachada, delimitado por cerca viva de baixa altura, um recuo da via pública de 3 metros de largura; ainda desta posição, à esquerda, muro de 5m esconde a horta, portão, depois a casa, muro, portão, salão do bazar, muro com entrada larga para carros. Modesta por fora, grande por dentro. Quartos, sala, cozinha, tudo pra mais de bom tamanho, pois ali, querendo, 30 viventes se acomodam sossegadamente.

O domínio dessa posse é de Senhora-Moça: Senhora , pois já criou seus 9 filhos – 8 raparigas e um marmanjo – e os instruiu sozinha, visto que se enviuvou muito cedo e, certamente Senhora porque já madurou a sabedoria em uma longa vida bem vivida; Moça pelo frescor da aparência, o sorriso fácil, a desenvoltura dos movimentos, a firmeza nos gestos, a vivacidade no olhar. . . E ali vive só ela, de segunda à sexta, cuidando

– da horta (alface, almeirão, couve, tomate, brócolis, erva-doce, berinjela, mostarda . . .),

– do pomar (manga, banana, laranja da terra – da casca grossa faz-se doce, o miolo é calmante -, tamarindo, amora, abacate, jurubeba e outras coisinhas corriqueiras);

– do roçado de mandioca e milharal – este agora já deitado e é bem de se esperar que seus frutos produziram muita pamonha, milho verde, curau. . .e ainda sobraram migalhas pra alegrar galinhas no galinheiro.

– E ainda cuida do bazar.

Final de semana tem mais gente em casa. Dia de festa, aniversário, Deus nos acuda. Filhas, filho, netos e netas, genros e nora, namorados, amigos destes, vizinhos e quem mais vier. A vivenda, modesta por fora, grande por dentro, se agiganta em casa-coração-de-mãe, onde sempre cabe mais um.

Sala de estar de mineiro é cozinha. Esta, ampla, com fogão de lenha (num cantinho o fogão a gás), toda circundada por varanda. Esta é uma extensão daquela (da cozinha – sala de estar ) e sobra espaço para a mesa da copa. Dentro as meninas, maioria absoluta no caso, e fora, os rapazes, eu incluso. De lá o alarido estridente, alegre e descontraído de quem comenta a vizinha, a filha dela, a estrepolia do filho, etc. Lá fora o papo variado, o que fiz, o que fez, o que vi, quem falou, que falou. . . Até história de pescador:

– pois não é que lancei o anzol com tanta força que, lá no céu, enlacei uma pobre maritaca. . .

– Isto não é nada pra se gabar, pois eu firmei de isca a espiga de milho e arremeti, com vontade tanta, que foi ter noutra margem do rio, onde um jegue esfomeado abocanhou o cevo e tive de puxá-lo para extrair a farpa.

Gente mineira, gente boa!

Vejam só como os comenta um homem da terra:

. . . Não basta ter nascido aqui para ser mineiro, é preciso cultivar a mineiridade no gesto, no olhar, no jeito de conversar, na secreta ironia mineral. Ser mineiro. . . é ter orgulho de ser humilde; é falar pouco e fazer muito; é parecer bobo, mas ser inteligente; é esbanjar tolerância para mendigar afeto. É ser conservador e arrojado, prudente e ousado : é esconder o jogo para ganhar a partida.

. . .

Fala lento, pensa rápido, mas não deixa ninguém perceber o que está pensando. . .confia desconfiando. Com sua altivez e compostura, mantém-se hospitaleiro e contido ante as coisas alegres e tristes da vida.

. . .

Pacato, acolhedor, valoriza a tradição, os costumes e a família: salve a Tradicional Família Mineira! Ser mineiro é um estado de alma…

Guimarães Rosa

Há! E mais isto: acordei, pela manhã, com o canto da seriema.

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