Semana passada retornei ao Site de Rubem Alves, cliquei em “Novidade” e me interessei por quatro artigos intitulados “Ensinando Política às crianças”. O último deles conta uma estória passada na selva, cujos habitantes resolvem escolher democraticamente seus governantes. Existiam dois grupos principais, os vegetarianos e os carnívoros. Aqueles eram em maior número, mas estes foram mais astutos – vejam só:

“Mas os carnívoros eram espertos. Sabiam que a verdade nem sempre deve ser dita. Perceberam que nenhum membro do Partido das Bananas iria votar num candidato do Partido da Linguiça. Por uma razão simples: os bichos vegetarianos seriam aqueles que seriam transformados em churrasco. Os bifes das vacas, as lingüiças dos porcos, os peitos dos francos, os perus assados, as coxas dos avestruzes… Todas as pesquisas do IBOPE indicavam que os vegetarianos ganhariam as eleições, por serem em número muito maior que os carnívoros. Assim, astutamente, reuniram-se para saber o que fazer. Um camaleão chamado Duda, carnívoro, apreciador de rinhas de galo, o sangue sempre o excitava, pediu a palavra: “Companheiros”, ele disse, “guerras são ganhas enganando-se o inimigo. Essa é uma lição que aprendemos dos humanos. Os soldados se camuflam para chegar perto de suas presas. Vestem-se de forma a parecer árvores e folhagens. Quando os inimigos se dão conta é tarde demais. É assim que eu faço. Mudo de cor. Fico parecendo um galho de árvore. O inseto só me percebe quanto minha língua visguenta o lambe. Queria sugerir, então, que usassem a minha tática. Se nos proclamarmos carnívoros, os vegetarianos não votarão em nós. Vamos nos fantasiar de vegetarianos!” Todos aplaudiram a brilhante reflexão do camaleão Duda e resolveram dar ao seu partido um nome bem ao gosto dos vegetarianos: “Partido dos Abacaxis”. Todo mundo gosta de abacaxis, tão doces, tão perfumados, tão brasileiros. E assim foi. Iniciou-se, então, a campanha do Partido das Bananas contra o Partido dos Abacaxis.”

(Para saber como termina a história, veja o Site – o endereço está no lado direito deste Blog. Vale a pena e, depois me digam quem sugerem sejam os pássaros salvadores do povo brasileiro)

Por pura coincidência, dia 28 o Deputado João Melão Neto publicou no Estadão comentário “Nós ainda acreditamos na ética”, comentando sobre a origem do PT, suas estratégias e situação atual no poder. Aprendi que, partindo da premissa de que todo mal da sociedade está na “propriedade privada”, os seus intelectuais nunca se interessaram pela causa da corrupção, dizendo-a secundária e que seria eliminada na vigência do comunismo ou do socialismo, cujos membros não devem ter qualquer apego aos bens materiais.

Observem:

“. . .e toda mesquinhez, todo egoísmo e toda ganância desaparecerão, uma vez abolida a propriedade privada. Em especial a propriedade privada dos meios de produção.
Pois bem, foi com esse espírito de entrega, renúncia e dedicação à “causa” que nasceu o Partido dos Trabalhadores, em 1980. Era um partido que se proclamava diferente e superior a todos os outros partidos porque não estava ingressando na política para satisfazer vontades e aspirações individuais, mas sim para implementar uma ideia. O PT seria um partido com um norte definido.”

Mas houve uma mudança:

Bem, esse era o clima que perdurou por toda a década de 80. Na década seguinte o PT abraçou de corpo e alma a imagem de um partido ético, que, na esfera pública, não rouba nem deixa roubar. Foi com essa silhueta que o partido cresceu e finalmente alcançou o poder maior, em 2002, com a eleição de Lula para presidente da República.”


E, continua o articulista:

“Tudo isso está sendo relembrado para demonstrar que a ética e a moralidade na área pública são bandeiras estranhas à “causa”. Não estão impressas em seu DNA. Isso ficou claro em 2005, quando ocorreu o escândalo do “mensalão”. Os petistas, ficou demonstrado, não se incomodam em recorrer a expedientes antiéticos, desde que o façam para facilitar a implementação da “causa”.”

Ora, ora, ora. Comparem João Melão com Rubem Alves. Combinaram dizer a mesma coisa? Não, certamente. O primeiro texto é mais abrangente – afinal até eu sabia que políticos muito mentem e fazem coisas piores para subir ao poder e permanecerem lá. Não são apenas os petistas os problemas nacionais. Mas a carapuça caiu como uma luva!

Confesso que nunca me dera conta desta especificidade do PT, visceralmente apático aos problemas éticos – daí os mensalões, os “acidentes” com prefeitos não solidários, as reuniões festivas do Palocci ao lado do lago em Brasília, a quebra do sigilo bancário do panaca do caseiro, a defesa constante do Lula aos cumpanheiros perseguidos pela mídia, a permanência de todos eles no PARTIDÃO como homens fortes etc. etc.

(Até compreendo, agora,  a atitude prudente da Sra. Maria Letícia Lula da Silva, fazendo que seus filhos adotassem a cidadania italiana – afinal, se entra o comunismo do PT, o que irá valer, aqui no Brasil, o dinheirinho que o filho recebeu pela venda de sua firma inexistente.)

Resta-nos aceitar esta verdade: para o PT, a corrupção e quaisquer procedimentos que nós chamaríamos de antiéticos somente são condenáveis se não interessarem a “causa” comunista.