Mais um pouquinho de Rohden.

“Se, por um lado, não pode haver efeito sem causa, por outro também não pode haver causa sem efeito. De fato, que Realidade seria essa que nada realizasse? Um agente que não agisse? Uma atualidade que não atuasse? Seria uma Realidade passiva, inerte, estática, inativa, morta – o que é contraditório em termos. Realidade quer dizer atualidade ou atividade[i], ou, como diz o grande Estagirita, “actus purus” (pura atividade). Não existe realidade passiva, porque esta seria uma realidade irreal.

É, aliás, surpreendente como a ciência física, sobretudo as pesquisas nucleares do século vinte, tendem a confirmar brilhantemente a intuição metafísica dos grandes filósofos. Tive sobre este ponto interessante entrevista com o grande Einstein, na Universidade de Princeton, New Jersey. Os mais avançados nuclearistas de hoje negam ou põem em dúvida a existência de “matéria” no sentido tradicional da palavra, isto é, uma substância inerte, passiva, estática que sirva de substrato imóvel aos fenômenos energéticos. Desapareceu ou está desaparecendo, da física hodierna, o tradicional dualismo entre matéria e energia, cedendo lugar à concepção unitária ou monista de energia como único substrato do universo. A conhecida fórmula de Einstein E = mc2 (energia é igual a massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz), fórmula que serviu de base à construção da primeira bomba atômica solta sobre Hiroshima em 6 de agosto de 1945, esta fórmula aponta na mesma direção da filosofia antiga, negando a existência, mesmo no mundo físico, de uma realidade inerte, passiva, estática. Realidade, também na ciência moderna, quer dizer energia, dinâmica, atividade. . . Cientificamente falando, o materialismo do século XIX morreu. . .por falta de matéria!

A tal “matéria”, proclamada pelos materialistas como sendo a única realidade do universo, abortou em “imaterialidade”, isto é, acabou por se revelar inexistente, irreal, e os seus adoradores estão prostrados diante de um altar sem deus; a deusa Matéria desmaterializou-se em pura energia. . . Matéria não passa de “frozen energy”, energia congelada, na frase típica de Einstein.

Quer dizer que um ser é tanto mais real quanto menos material e quanto mais energético. O grau de frequência das vibrações dinâmicas determinam o grau da realidade dum ser. Um ser com frequência vibratória grau zero é um não-ser, uma ficção, um nada. A mais alta vibração física conhecida pela ciência é a da luz. (o “c” da fórmula einsteiniana), ou a “velocidade da luz”. A palavra “luz” tem de ser tomada em sentido absoluto, a luz é em si mesma invisível; a luz visível acusa vibração ou frequência inferior à luz invisível.

Ora, sendo que a luz absoluta é a mais intensa realidade no domínio do universo energético, é lógico que todas as demais realidades da natureza – isto é, as outras formas de energia e de “matéria” – sejam efeitos derivados dessa causa primária. A luz é a mãe de todos os fenômenos do mundo. Nada existe no vasto âmbito do universo que não seja produto da luz – como também não existe alimento algum que não seja produto da luz. Todos os seres são lucigênitos e todos são lucífagos. Isto, que um século atrás teria sido simples divagação poética ou hipérbole mística é hoje em dia uma conquista da ciência exata. Tudo é originado da luz e sustentado pela luz, ou radiação cósmica.

Disto já sabia, por visão intuitiva, o autor do livro do Gênesis quando dizia que, no primeiro dia da creação foi feita a luz – não a luz do sol ou das estrelas, que, segundo o mesmo gênesis, apareceu no quarto dia, mas a luz cósmica, universal, o “c” de Einstein e dos cientistas em geral. Desta luz primária nasceram todas as coisas do mundo, nos domínios da energia e força.

Também a “natura naturans” de Spinoza não é outra coisa senão o princípio ativo e dinâmico do universo, ao passo que a “natura naturata” é o elemento passivo e estático.

Quer seja Moisés ou Aristóteles, Spinoza ou Einstein, quer sejam os profetas, os filósofos ou os cientistas – todos eles concordam fundamentalmente na afirmação de que a Suprema e Absoluta Realidade é a Potência Universal, ou a Consciência Cósmica, da qual a luz é a mais alta manifestação, razão por que Deus é invariavelmente chamado “Luz”, e os grandes videntes sempre percebem a Deus através de fenômenos luminosos.

O que a Luz Cósmica é no mundo físico, isto é a Consciência Cósmica no universo metafísico.

“No princípio era o Lógos (Razão Cósmica, Espírito Universal), e o Lógos estava com Deus, e o Lógos era Deus. . . Todas as coisas foram feitas por ele, e nada do que começou a ser foi feito sem ele. Nele estava a Vida, e a Vida era a Luz dos homens. . . Veio ao mundo a Luz verdadeira que ilumina a todo homem. Estava ele no mundo, o mundo foi feito por ele, mas o mundo não o conheceu. Veio ao que era seu, mas os seus não o receberam. A todos, que o receberam deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. . . E o Lógos se fez carne e habitou entre nós – e nós vimos a sua glória, a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. . . Da sua plenitude todos nós temos recebido graça sobre graça.” (João 1:1 e ss)

O PENSAMENTO FILOSÓFICO DA ANTIGUIDADE – O drama milenar do homem em busca da verdade integral; ROHDEN, Huberto; Volume I, 4ª Edição, Alvorada Editora e Livraria Ltda., Em busca da Realidade Absoluta, pg.s 38 a 41.


[i] Em alemão, realidade é “Wirklichkeit”, que é derivado do verbo “wirken” que significa “agir”. Nesta palavra vem contida a verdadeira significação da realidade: Real é aquilo que age (wirklich ist das, was wirkt). Irreal é aquilo que não age. Toda realidade é, pois, ativa, dinâmica. A infinita Realidade é infinitamente ativa, dinâmica, creadora.