Em seminário realizado em 1998, cá no Brasil, Jean-Yves Leloup dissertou sobre a “arte de morrer”. Fizeram uma indagação, tão atual naquela época como agora (pra mim mais atual hoje), sobre os procedimentos cabíveis diante do descalabro social e político tanto na América Latina, como no Brasil. Eis a resposta do pensador:

“Do ponto de vista prático, podemos dizer que, antes de querer fazer o bem, antes de levarmos luz à sombra, importa não acrescentar sombra a sombra, violência a violência, julgamento a julgamento. Há muito sofrimento no mundo e não é preciso ajuntar mais sofrimento ao sofrimento. Por isso, a primeira coisa que podemos fazer é tentarmos ser felizes, pelo menos um pouco. Porque se estivermos com um pouco de paz, haverá um lugar no mundo em que existe um pouco de paz.

Já contei a vocês o sonho que teve o jovem Davi. Deus lhe disse: “Davi, o mundo vai mal, é preciso salvar o mundo”. Pela manhã, quando acordou, Davi respondeu a Deus: “Sim, Senhor, eu vou salvar o mundo”. Davi perguntou a si mesmo por onde começar, pois o mundo era muito grande. Pensou em começar pelo seu país, mas seu país era muito grande. Por onde poderia começar? Por sua cidade? Mas sua cidade era muito grande. Quem sabe vou começar pelo meu edifício, mas o meu edifício é muito grande. E assim, pouco a pouco Davi compreendeu que ele devia salvar o mundo começando pelo seu próprio quarto, começando pelo seu próprio coração porque a sua inteligência, o seu coração, o seu corpo eram este pedaço de universo que lhe foi confiado, este pedaço da sociedade que lhe foi confiado.

Se quisermos muito mudar os outros, mudar a sociedade sem primeiro mudar a nós mesmos, geramos um totalitarismo que vai conduzir a outro totalitarismo e, quer ele venha da direita ou da esquerda, é sempre a mesma atitude, a mesma vontade de poder. Creio que hoje, uns e outros, somos como Davi. Sabemos o que vai mal no mundo, podemos nos lamentar, julgar a causa deste ou daquele problema, mas nada mudamos porque é preciso começar por este pedaço da humanidade que nos foi confiado. A partir daí as coisas realmente podem se transformar. E essa atitude nossa não será visível imediatamente mesmo que seja efetiva, pois, como nos lembram os físicos, tudo está ligado com tudo e, portanto, todo homem que se eleva, eleva o mundo.

Um dia fizeram a seguinte reflexão à madre Tereza de Calcutá: “Para que serve o que fazeis? Ajudais um ancião a morrer e se olhais na rua eles morrem às centenas. O que fazeis não serve para nada. É apenas uma gota d’água no oceano, uma gota d’água neste oceano de miséria que existe no mundo”. Ao que madre Tereza respondeu: “Eu seu que o que faço é apenas uma gota d’água, mas o oceano é feito de gotas d’água”. Nós todos, cada um de nós é uma gota d’água e é nossa responsabilidade transformar este oceano de miséria e de dor em um oceano de água doce e clara. Esta resposta é um convite a uma prática, às vezes humilde e invisível. Alguns teóricos, com suas grandes teorias sobre as dificuldades econômicas e políticas, sobre a violência, apenas remexem em água lamacenta. E, em vez de remexer em água turva, é preciso trocar de vaso, mudar de comportamento, mudar de consciência. Essa prática nós a encontramos em todas as grandes tradições espirituais da humanidade.

Não se pode mudar o mundo e a sociedade sem primeiro transformar-se a si mesmo. É por aí que é preciso começar. Começar não acrescentando perturbações e dores. Começar por estar em paz, olhando tudo com limpidez e transparência. Então, alguma coisa dessa transformação interior poderá se comunicar ao exterior. É preciso olhar onde estamos colocados na sociedade, o que nos é pedido. A alguns é pedido que falem, que se sirvam de sua inteligência para observar as conseqüências de tal ou tal crise. A outros é pedido que se ocupem de alguém que vive na rua, que trabalhem com suas mãos, que levem um pouco de ternura e paz ao coração de alguém.

Não devemos nos comparar com ninguém e cada um de nós sabe o que, realmente, tem a fazer. Não existem coisas pequenas ou grandes. Existem maneiras pequenas de fazer o que temos a fazer, assim como existem maneiras grandes de fazer as pequenas coisas que temos a fazer. É este caminho que nos foi dado para caminhar. “

ALÉM DA LUZ E DA SOMBRA: sobre o viver, o morrer e o ser / Jean-Yves Leloup / organização de Lise Mary Alves de Lima; tradução de Pierre Weil, Regina Fittipaldi. 5ª edição, Petrópolis, RJ: Vozes, 2007 (© 2001, Editora Vozes); Parte II – O absurdo e a graça, Perguntas, pg.s 104 a 106).

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