Mais uma gotinha d’água na pedra dura. Este email enviei hoje:

Foi em 26 de agosto que enviei a Vossas Excelências um email que se iniciava com uma citação bíblica em que os apóstolos Tiago e João pediam ao Senhor permissão para fazer descer fogo do céu para destruir uma aldeia de samaritanos que se recusou a recebê-los: Lembram-se? Então, estou de volta.

Ainda que a mídia já não bata tanto na tecla dos tristes fatos cometidos por Senadores; ainda que uma tal de Comissão de Ética, composta por comparsas de Vosselências,  tenha arquivado inúmeras denúncias sob a jocosa alegação de “falta de provas”; ainda que algum espúrio acordo de “cavalheiros” tenha amainado os ânimos nas sessões senatoriais; eu não me esqueci dos fatos levantados, das discussões insultuosas. . .

Será que o “povo” esqueceu? Não acredito, NÃO ACREDITEM!!!! Deixou de falar –  precisa trabalhar para ganhar a vida. O que pode ter acontecido é que recalcou a raiva, o nojo. . . E isto não é bom: i) o “povo” vai precisar mais dos serviços de saúde por que este tipo de coisa gera muita gastrite; ii) Vosselências podem ter criado um petardo cujo poder de destruição cresce a cada dia.

Eu, dentre as leituras que tenho feito, lembro-me agora de uma frase do pensador Jean-Yves Leloup ( psicólogo, filósofo, teólogo, padre dominicano) quando responde a uma pergunta sobre o perdão:

“ Creio que não devemos perdoar muito rápido. É necessário, antes de perdoarmos, que expressemos o sofrimento pelo que nos foi feito e a isso chamo justiça.”

Qual o sofrimento do povo brasileiro? Vejam a situação da Saúde, da Educação, da Segurança, da Justiça – coisas básicas que deveriam ser supridas pelo Estado, mas que não o são porque aqueles que deveriam estar pensando na edição de leis justas, na correta aplicação dos fundos públicos estão mais interessados em aumentar seu patrimônio, seu poder. . .

Recordo-me de um ensinamento que em li em Rubens Alves. No “Concerto para o Corpo e a Alma” – não, não trata de política! – falando sobre o surgimento dos bandos violentos que assombram o Brasil, lembrou Santo Agostinho descrevendo como os Estados surgiram:

“. . .no princípio é um grupinho de malfeitores. Crime aqui, crime ali, perseguidos, fugindo sempre. Com o tempo o grupo aumenta, fica mais forte, apossa-se de um território, estabelece um governo, transforma-se num exército. Quando isso acontece, ele diz, o grupinho de malfeitores se transformou num estado, não porque tenha, repentinamente, ficado justo, mas porque a impunidade foi acrescentadas seus crimes.” (pg. 97)

Santo Agostinho nasceu em 354 d.C. e faleceu em 430 d.C. Faz muito tempo! Mas a sua visão ilustra bem como o poder e a impunidade criam os “estados”. É óbvio que aqueles foram os primeiros estados que surgiram entre os humanos. Esperava-se que após 1790, a mentalidade do “o que é seu é meu”, “eu sou a autoridade”, “eu sou o poder”, “quem manda sou eu”, dos déspotas no passado houvesse sido eliminada. Mas ressurgem. Temos visto isto todo dia. E até com começos bem diferentes, evidentemente.

Voltando ao Senado. Que PODER é dado ao Senado! Pode, entre tantas outras coisas, processar o Presidente da República, o Vice-Presidente, os Ministros de Estado, os Comandantes das Forças Armadas, Ministros do STF etc., etc.. . E até, os membros do Senado, podem ser eleitos sem nenhum voto do povão – são apenas financiadores de campanhas eleitorais (ou compradores do mais alto cargo na República). Quem os julga? Eles próprios. Uma comissão de ética que até consideram desnecessária, pois é “constrangedor” julgar “colegas”. Impunidade.

Esta dupla corrompe: Poder e Impunidade. Mas não deveria ser assim. Numa República, no Brasil com uma constituição invejável, o Senado poderia ser a “aristocracia” nacional, não uma “oligarquia coronelesca”.

Não devo julgá-los, não posso – quem sou eu para fazê-lo. Seria também incoerência jogar na vala comum os bodes e as cabras, o joio e o trigo. Mas, parodiando Leloup, eu e o povo podemos e devemos clamar por justiça!

Gostaria de transcrever aqui todo o capítulo 31 do livro de Jó, a sua apologia após a primeira série de desgraças, mas é extenso e Vosselências não teriam tempo de ler. Então, só coloco alguns versos, pedindo que os repitam em voz alta. Quando puderem fazê-lo sem embargo da voz, sem um rubor ardente nas faces, sem um frio causticante nas entranhas, estarão prontos para o perdão e o nosso Brasil irá bem melhor:

5  “Juro que não tenho sido falso e que nunca procurei enganar os outros.

6  Que Deus me pese numa balança justa e ele ficará convencido de que sou inocente!

7  “Se por acaso me desviei do caminho certo, se o meu coração foi levado pela cobiça dos olhos, se pequei, ficando com qualquer coisa que pertence a outra pessoa,

8  então que outros comam o que eu semeei, ou que as minhas plantações sejam destruídas.”

. . .

13  “Quando um empregado ou empregada reclamava contra mim, eu resolvia o assunto com justiça.

14  Se eu não tivesse agido assim, que faria quando Deus me julgasse? Que responderia, quando ele pedisse conta dos meus atos?

15  Pois o mesmo Deus que me criou, criou também os meus empregados; ele deu a vida tanto a mim como a eles.

16  “Nunca deixei de ajudar os pobres, nem permiti que as viúvas chorassem de desespero.

17  Nunca tomei sozinho as minhas refeições, mas sempre reparti a minha comida com os órfãos.

18  Eu os tratava como se fosse pai deles e sempre protegi as viúvas.

19  Quando via alguém morrendo de frio por falta de roupa ou notava algum pobre que não tinha com que se cobrir,

20  eu lhe dava roupas quentes, feitas com a lã das minhas próprias ovelhas, e ele me agradecia do fundo do coração.

21  Se alguma vez fui violento com um órfão, sabendo que eu tinha o apoio dos juízes,

22  então que os meus braços sejam quebrados, que sejam arrancados dos meus ombros.”