Prática de vida – Rohden:

“Baruch (ou Benedito) Spinoza, filho de judeus portugueses que, fugindo da perseguição católica, fixaram residência em Amsterdã, onde o pequeno “Bento” nasceu e se educou, é um exemplo vivo de que uma verdadeira filosofia é ao mesmo tempo uma religião autêntica e uma ética eficiente.

Tem-se dito que a filosofia não oferece base sólida para uma vida profundamente espiritual e dignamente humana, porque é simples teoria e especulação – e isto é exato em se tratando de qualquer sistema filosófico que não ultrapasse o estreito âmbito das especulações meramente intelectuais e analíticas, porque essas espécies de idéias que apenas passam pela cabeça, sem se encarnarem na vida do homem, não exercem influência real e duradoura sobre a vida do homem, são uma espécie de brinquedos filosóficos ou de esporte científico com que alguém enfeita a sua existência e que possivelmente lhe fornecem agradáveis horas de entretenimento intelectual; mas, em lances críticos e decisivos, não resistem ao embate dos revezes da vida real. Blaise Pascal, por exemplo, contemporâneo de Spinoza, considera a filosofia através desse prisma puramente intelectual e humano, quando diz que o “coração tem razões que a razão (inteligência) desconhece”.

Para Spinoza, porém, não existe essa divisão entre as “razões do coração” e as “razões da razão”. Para ele, graças a sua profunda experiência da suprema Realidade, Deus é tanto a Razão (o eterno Logos) como o Coração (o Amor). Concordaria plenamente com a frase lapidar de Albert Schweitzer, em nossos dias, quando diz: “Die Liebe ist die hoechste Vermunft”, o Amor é a culminância da razão. Claro está que, na base da pirâmide, essas linhas são distintas uma da outra, podendo até correr em sentido contrário – como a linha do norte corre em sentido contrário à do sul, e a do leste corre contra a do oeste – mas no topo da pirâmide todas essas linhas se fundem numa só, num único ponto indimensional. O homem inexperiente, que conhece as coisas apenas por ouvir dizer ou por um processo meramente analítico-intelectual, considera a racionalidade como contrária à mística, a filosofia inimiga da religião; mas todo homem de experiência profunda é um racionalista místico ou um místico racional; é um filósofo religioso ou um religioso-filósofo. Deus não é apenas o infinito Amor, mas também a Razão eterna. E a mais deslumbrante encarnação de Deus, o Cristo, é a culminância da Razão e do Amor – “o Logos (Verbo) que se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e verdade[i]

Sócrates, o gentio, guiado pela luz de uma filosofia espiritual profundamente vivida, enfrenta a morte com absoluta serenidade; Mahatma Gandhi, o líder metafísico, místico e político de centenas de milhões de hindus, vive uma longa vida de altruísmo e amor universal e perdoa seu assassino no momento de receber quatro tiros mortíferos; Plotino, o corifeu pagão da escola neo-platônica de Alexandria e Roma, recebe de seus discípulos e amigos – inclusive do imperador Galieno e da imperatriz Salonina – riquíssimos presentes, mas abre mão de tudo em benefício de crianças pobres e enjeitadas e continua a viver a vida do mais simples dos homens, desapegado tanto de bens materiais como de honras e glórias que lhe couberam em grande abundância; Spinoza, o maior dos judeus nos tempos modernos, elo entre Moisés e Einstein – o homem da ética e o homem da física -, Spinoza, excomungado, execrado, abandonado, odiado, não guarda rancor a ninguém, trata com invariável benevolência a todos, declina todas as ofertas lucrativas e continua a ganhar o seu sustento na humildade duma pensão de Amsterdã, polindo, com suas mãos hábeis, lentes para instrumentos óticos; e morre com a tranqüilidade de quem adormece placidamente.

O que é essencial é que se viva a verdade, e não apenas se estude a verdade. A verdade é uma só, seja religiosa, seja filosófica. Mas quem não vive a verdade – seja no aspecto religioso, seja no filosófico – não sente a força mágica da verdade libertadora, como dizia Jesus. Verdade apenas estudada chama-se Verdade – verdade vivida chama-se AMOR. O Amor é a culminância da Verdade ou da Razão – “Die Liebe ist die hoechste Vermunft”. “Se permanecerdes no meu amor, permanecereis na verdade”

ROHDEN, Huberto (1893 – 1981) – FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA: O drama milenar do homem em busca da verdade integral, Copyright Editora Martin Claret, 1981, Rumo ao Monismo Absoluto, Benedito Spinoza (1632 – 1677), pg.s 55 a 57.


[i] João 1:14.