Mais um texto de Rohden:

“Repetidas vezes afirma Einstein que as leis fundamentais do cosmo não podem ser descobertas pela simples análise, mas tão-somente pela intuição. Afirma, igualmente, que na matemática reside o princípio creador, e que a matemática é absolutamente certa enquanto se mantém no abstrato, mas que perde da sua certeza na razão direta da sua concretização.

O que Einstein diz da matemática pode ser aplicado também à mística, porque tanto esta como aquela são uma captação cósmica, e não uma construção mental.

Aqui está a bifurcação das duas linhas fundamentais da filosofia de todos os tempos: essência – existência. Platão, os neo-platônicos e muitos outros admitem uma essência além das existências, uma realidade uma como fonte das facticidades múltiplas, ao passo que outros, sobretudo da ala existencialista, negam o Uno do Universo e só aceitam o Verso.

Einstein afirma categoricamente que está com os antigos, segundo os quais a verdade é descoberta pela intuição, precedida pela análise.

Esta intuição, porém, é uma captação cósmica. O radical da palavra grega “mathemática” é “mathein”, que quer dizer captar, apreender, apanhar. A captação é mathéma (ou mathésis), de que deriva a nossa palavra matemática, designando não uma construção mental mas uma captação de uma realidade já existente.

O que Einstein diz da matemática pode ser dito quase integralmente da mística, que é a captação de uma realidade cósmica, da alma do Universo, diria Spinoza. O verdadeiro místico tem absoluta certeza de que a Divindade por ele intuída não é fabricação mental dele. Ambas, a matemática e a mística, giram em torno de uma realidade captada ou apreendida pelo homem. Os derivados da matemática, como aritmética, álgebra, geometria, etc., podem ser construções mentais, mas a matemática em si conscientiza a própria essência do cosmo, razão da sua certeza absoluta. Einstein nunca admitiu que a certeza viesse das provas, mas sim que era anterior a qualquer prova. A intuição (visão interna), inspiração (sopro de dentro, revelação, retirada do véu) dão certeza, ao passo que a análise não ultrapassa as probabilidades, porque joga com facticidades derivadas.

Nenhum místico crê em Deus – ele vê Deus mediante uma intuição ou uma visão interna; e, como a certeza que um místico tem não foi construída mentalmente, também não pode ser destruída  por nenhuma análise mental. A mística é a consciência da própria realidade – e nisto coincide ela com a visão da matemática. A realidade cósmica se revela em facticidades telúricas – assim como a mística transborda em ética humana.

Neste sentido, afirma Einstein de si mesmo, é ele um homem profundamente “religioso”, e frisa que só neste sentido cósmico é ele religioso, por ter a experiência da realidade. Desta consciência mística derivava a vivência ética que todos admiravam em Einstein.

O processo de captação se manifesta de modos diversos na matemática e na mística, mas indica sempre uma fonte única que se revela em canais múltiplos. Segundo princípios infalíveis, onde há uma vacuidade acontece uma plenitude. O problema do homem consiste em estabelecer em si essa vacuidade na expectativa da plenitude.

Os gênios têm facilidade nesse processo de ego-esvaziamento, ao passo que os talentos operam somente com o conteúdo dos seus canais humanos.

A atividade do ego humano precede quase sempre a captação da fonte cósmica. Einstein diz de si que pensa 99 vezes, e só depois de deixar de pensar e mergulhar em um grande silêncio é que a verdade lhe é revelada. O exímio inventor norte-americano Thomas Edison diz que necessita 90% de esforço pessoal (perspiration), a fim de receber 10% de intuição cósmica (inspiration).

O talento é produtivo – o gênio é creativo.

O conteúdo da captação do matemático e do místico é essencialmente o mesmo, que uns chamam a verdade, ou a alma do Universo. A essência, fonte, realidade, é uma só – muitas são as existências, os canais, as facticidades.

Infelizmente nos tempos atuais, muitos confundem a inteligência analítica com a razão intuitiva. Mas já os antigos pensadores da Grécia faziam nítida distinção entre o intelecto (noûs) e razão (lógos). Neste sentido escreve Albert Schweitzer: “O amor é a mais alta razão” (Die Liebe ist die höchste Vernunft).

No tempo em que eu convivia com Einstein na Universidade de Princeton, espalhou certa imprensa o boato de que Einstein era ateu, ao que um rabino da Sinagoga de New York lhe mandou um telegrama, pedindo que dissesse se aceitava Deus. Einstein respondeu por telegrama: “Aceito o mesmo Deus que Spinoza chama a alma  a alma do Universo – não aceito um Deus que se preocupe com as nossas necessidades pessoais”.

Muitos dos grandes místicos são considerados ateus pelos teólogos dogmáticos porque não aceitam um Deus pessoal. A alma do Universo é o Deus dos matemáticos e o Deus dos místicos.”

ROHDEN, Huberto; EINSTEIN O Enigma do Universo; Ed. Martin Claret, SP, 2005, Segunda parte – Pensamentos de Einstein confrontados com o Espírito da Filosofia Univérsica; A identidade essencial entre matemática e mística; pg.s 119 a  121.