Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Para que avaliassem o quanto é polêmico o livro de Eclesiastes, transcrevi, ao encerrar a sequência anterior, uma duríssima apreciação sobre o seu autor; eu a encontrei em http://www.castro.to/artigos/rel_kohelet.htm que justifica sua revolta com os seguintes versículos:

Ecl 1:3-4  “A gente gasta a vida trabalhando, se esforçando e afinal que vantagem leva em tudo isso? Pessoas nascem, pessoas morrem, mas o mundo continua sempre o mesmo.”

Ecl 3:19 “No fim das contas, o mesmo que acontece com as pessoas acontece com os animais. Tanto as pessoas como os animais morrem. O ser humano não leva nenhuma vantagem sobre o animal, pois os dois têm de respirar para viver. Como se vê, tudo é ilusão,. . .”

Ecl 7:15-16 “A minha vida tem sido uma ilusão, mas nela eu tenho visto de tudo. Há pessoas boas que morrem, e há pessoas más que continuam a viver a sua vida errada. Por isso, não seja bom demais, nem sábio demais; por que você iria se destruir?”

(Versão: a Bíblia na linguagem de hoje)

Deve ser lembrado que este livro correu o risco de não ser incluído no Canon hebraico, conforme consta na Introdução aos livros sapienciais da Bíblia ecumênica (Barsa):

“Houve quem, entre os antigos rabinos, considerasse o livro indigno de figurar na Escritura. Tais pontos de vista apoiaram-se na opinião de que certas passagens do livro contradiziam a crença teológica predominante, como prêmio à retidão e castigo à transgressão. Também, algumas passagens, pelo menos à primeira vista, parecem negar a doutrina da ressurreição.”[i] (pg. xxxiii)

Faz bem lembrar “as crenças teológicas predominantes”, por exemplo, com o Salmo 1:

1   Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.

2  Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.

3  Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido.

4   Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa.

5  Por isso, os perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores, na congregação dos justos.

6  Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá.

(Desculpem, mas esta não é a versão da linguagem de hoje, mas  a Almeida revista e atualizada, bem próxima, se não a mesma, que líamos, quando crianças, incentivados por Dona Tila.)

E também em Provérbios 10:29:

“O SENHOR protege os bons, mas causa a desgraça dos que fazem o mal.”

(Linguagem de Hoje)

O questionamento do Pregador quanto à doutrina da ressurreição pode ser entendido no capítulo 3, versos 19 a 21:

“19 No fim das contas, o mesmo que acontece com as pessoas acontece com os animais. Tanto as pessoas como os animais morrem. O ser humano não leva nenhuma vantagem sobre o animal, pois os dois têm de respirar para viver. Como se vê, tudo é ilusão,

20  pois tanto um como o outro irão para o mesmo lugar, isto é, o pó da terra. Tanto um como o outro vieram de lá e voltarão para lá.

21  Como é que alguém pode ter a certeza de que o sopro de vida do ser humano vai para cima e que o sopro de vida do animal desce para a terra?”

Vale a pena considerarmos dois comentários sobre estes versos. O primeiro na Bíblia ecumênica:

“Cap. 3, VV 18-21 – Ensina o Eclesiastes nestes versos que a condição do homem aqui na terra não é superior à dos brutos, pois ambos morrem e se desfazem no mesmo pó de onde vieram. . . Não duvida da sobrevivência humana no outro mundo pois claramente afirma que o homem vai para o “sheol” (verso 9:10), apenas apresenta em forma de duvida a pergunta sobre quem sabe se o hálito (espírito) dos animais que cessa com a morte (como cessa também no homem), não voltará também para Deus como o dos homens. Reforça assim a sua tese da vaidade da vida humana que termina como a do bruto, quanto ao hálito vital, não quanto à alma, pois esta sobrevive no “sheol””(pg. 512)

O verso 9:10 mencionado acima, tem a seguinte redação na Bíblia de Jerusalém: “Tudo o que está ao teu alcance faze-o com esmero, pois não se trabalha nem se planeja, não há conhecer nem saber no Xeol para onde vais.”

O segundo comentário está no rodapé da Bíblia de Jerusalém e se refere especificamente ao verso 21:

“Essa dúvida, levantada de passagem, basta para dar todo o pavor à morte. A última palavra do livro é de um pessimismo menos radical: a vida do homem volta para Deus, de quem ele a recebera (12:7)” (pg. 839)

E o verso 12:7 diz o que segue:”e o pó volte à terra, como antes, e o espírito volte a Deus, seu autor.”

Ainda há muito o que falar sobre o Eclesiastes.

WILL CONTINUE

 


[i] Samuel Sandmel, Professor de Bíblia e Literatura Helenística, Hebrew Union College, Cincinati.

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