Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Quem escreveu Eclesiastes? O mais prudente, segundo seus comentadores mais bem informados, parece ser designá-lo como o Coélet, palavra traduzida por Pregador, ou seja, aquele que fala na Assembleia. No primeiro verso do livro, apresenta-se como filho de Davi, rei em Jerusalém. Mas os estudiosos, em sua maioria, recusam aceitar que se tratava de Salomão. Na introdução contida na Bíblia de Jerusalém encontramos: ”Mas esta atribuição não passa de mera ficção literária do autor, que põe suas reflexões sob o patrocínio do mais ilustre dos sábios de Israel. A linguagem do livro e sua doutrina, da qual falaremos a seguir, impedem de situá-lo antes do Exílio.” Na Introdução aos Livros Sapienciais, o comentarista Católico o chama de Qohélet, e prefere considerá-lo obra de uma só pessoa; o comentarista Ortodoxo apenas informa que “Nome, conteúdo e autor são indicados no primeiro versículo. . .”; o comentarista Judaico conjectura a respeito da época em que teria sido escrito, se Salomão fosse seu autor – sem firmar uma conclusão a respeito -, mas salientando que a iminência de verdadeira a hipótese, fe-lo aceito nas Escrituras; o comentarista protestante: “Também este livro é atribuído a Salomão, sem que contenha elementos que possam provar esta tradição.”

Na Internet, no Site http://www.vivos.com.br/99.htm, há uma apresentação de Eclesiastes por quem advoga a sua autoria a Salomão. Observem que interessante artifício encontrado para salvaguardar a sabedoria do rei de Jerusalém da não ortodoxia do Pregador: “O tom pessimista que impregna o livro talvez seja um efeito do estado espiritual de Salomão na época (ver 1Rs 11). Embora não mencionado em 1Rs, Salomão provavelmente recobrou a consciência antes de morrer, arrependeu-se e voltou-se para Deus.” Informo que o capítulo 11 de I Reis traz como sub-título “A idolatria de Salomão e a ira de Deus contra ele” e, realmente, não faz referência a qualquer arrependimento do mesmo.

Embora, hoje, pareça ser consenso atribuir a autoria do livro a uma única pessoa, não se pode perder de vista esta importante informação da Bíblia de Jerusalém: “Mas ele foi editado por um discípulo, que acrescentou os últimos versículos (12, 9-14)” Este detalhe me chama a atenção porque alguns comentaristas insistem em colocar o verso 13 do capítulo 12 como seu texto chave“De tudo o que foi dito, a conclusão é esta: tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos porque foi para isso que fomos criados.”

Esta conclusão, a meu ver precipitada, encontra-se inclusive no Dicionário da Bíblia de Almeida, conforme consta da Bíblia Online, da Sociedade Bíblica do Brasil: “E no final do livro está a chave que o interpreta: é preciso obedecer a Deus porque ele pede contas de tudo a todas as pessoas {Ec 12.13-14}. ”

Belíssima e inspirada conclusão, mas não é do Qohélet.

Eclesiastes encampa alguma sabedoria helênica? O comentarista[i] protestante da Bíblia Ecumênica faz o seguinte comentário: “Tal pessimismo explica-se bem, se examinado sobre o fundo de um acontecimento que deve ter sido traumático para Israel: o encontro com a filosofia grega, um encontro para o qual não parece ter estado prepara a fé do Antigo Testamento, e menos ainda a sabedoria hebraica e antigo-oriental.” Porém, a Bíblia de Jerusalém afirma: “O livro tem o caráter de uma obra de transição. As certezas tradicionais são abaladas, mas por enquanto nada de seguro as substitui. Nesta encruzilhada do pensamento hebraico, tem-se procurado discernir as influências estrangeiras que teriam agido sobre o Coélet. É preciso recusar as aproximações muitas vezes propostas com as correntes filosóficas do estoicismo, epicurismo e cinismo, que Coélet teria podido conhecer por intermédio do Egito helenizado; nenhuma dessas aproximações é convincente e a mentalidade do autor se distancia muito da dos filósofos gregos . . .”

O melhor resumo deste livro, que pude encontrar, está contido na sua Introdução, na Bíblia de Jerusalém. Por esta razão, embora não muito pequeno, transcrevo para vocês:

Como em outros livros sapienciais, Jó e Eclesiástico, p. ex.,para não falar de Provérbios que é um livro complexo, o pensamento vai e vem, se repete e corrige. Não há um plano definido, mas trata-se de uma variação sobre um tema único, a vaidade das coisas humanas, que é afirmada no começo e no final do livro (1,2 e 12,8). Tudo é decepcionante: a ciência, a riqueza, o amor, até mesmo a vida. Esta não é mais do que uma série de atos incoerentes e sem importância (3,1-11), que se termina pela velhice (12,1-7) e pela morte, a qual atinge igualmente sábios e néscios, ricos e pobres, animais e homens (3,14-20). O problema de Coélet é o de Jó: o bem e o mal tem sua sanção aqui na terra? E a resposta de Coélet, como a de Jó, é negativa, pois a experiência contradiz as soluções correntes (7,25-8,14). Só que Coélet é um homem de boa saúde e não pergunta, como Jó, pelas razões do sofrimento, e se consola gozando das modestas alegrias que a existência pode dar (3,12-13; 8,15; 9,7-9). Digamos,antes, que procura consolar-se, pois vive totalmente insatisfeito. O mistério do além o atormenta, sem que ele vislumbre uma solução (3,21; 9,10; 12,7). Mas Coélet é um homem de fé e, embora fique desconcertado com o rumo que Deus dá aos assuntos humanos, afirma que Deus não tem de prestar contas (3,11-14; 7,13), que se deve aceitar da sua mão as provações como as alegrias (7,14), que é preciso observar os mandamentos e temer a Deus (5,6; 8,12-13).”

WILL CONTINUE


[i] J. Alberto Soggin, Professor da Faculdade Valdense de Teologia, Roma.

 

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