Não, não se agitem! Ainda pretendo continuar meu sermão para mim mesmo, baseado no Livro de Eclesiastes. Mas hoje, lendo Como Vejo o Mundo, de Einstein, encontrei este texto (entre outros…); pura religiosidade, espiritualidade mais refinada! Se não o compartilhasse, não me sentiria feliz na eternidade.
“Não penso que exista semelhante concepção do mundo, no sentido filosófico do termo. O judaísmo, quase exclusivamente, trata da moral, quer dizer, analisa uma atitude na e para a vida. O judaísmo encarna antes as concepções vivas da vida no povo judeu do que o resumo das leis contidas na Torá e interpretadas no Talmude. A Torá e o Talmude representam para mim o testemunho mais importante da ideologia judaica nos tempos de sua história antiga.
A natureza da concepção judaica da vida se traduz assim: direito à vida para todas as criaturas.
A significação da vida do indivíduo consiste em tornar a existência de todos mais bela e mais digna.
A vida é sagrada, representa o supremo valor a que se ligam todos os outros valores. A sacralização da vida supra-individual incita a respeitar tudo quanto é espiritual — aspecto particularmente significativo da tradição judaica.
O judaísmo não é uma fé. O Deus judeu significa a recusa da superstição e a substituição imaginária para este desaparecimento. Mas é igualmente a tentação de fundar a lei moral sobre o temor, atitude deplorável e ilusória. Creio no entanto que a possante tradição moral do povo judeu já se libertou amplamente deste temor. Compreende-se claramente que “servir a Deus” equivale a “servir à vida”. Com esta finalidade, as melhores testemunhas do povo judeu, em particular os profetas e Jesus, se bateram incansavelmente.
O judaísmo não é uma religião transcendente. Ocupa-se unicamente da vida que se leva, carnal por assim dizer, e de nada mais. Julgo problemático que possa ser considerado como religião no sentido habitual do termo, tanto mais que não se exige do judeu nenhuma crença, mas antes o respeito pela vida no sentido suprapessoal.
Existe enfim outro valor na tradição judaica, que se revela de modo magnífico em numerosos salmos. Uma espécie de alegria embriagadora, um maravilhar-se diante da beleza e da majestade do mundo exalta o indivíduo, mesmo que o espirito não consiga conceber sua evidência. Este sentimento, onde a verdadeira pesquisa vem haurir sua energia espiritual, lembra o júbilo expresso pelo canto dos pássaros diante do espetáculo da natureza. Aqui se manifesta uma espécie de semelhança com a idéia de Deus, um balbuciar de criança diante da vida.
Tudo isto caracteriza o judaísmo e não se encontra em outra parte sob outros nomes. Com efeito, Deus não existe para o judaísmo, onde o respeito excessivo pela letra esconde a doutrina pura. Contudo considero o judaísmo como um dos simbolismos mais puros e mais vivos da idéia de Deus, sobretudo porque recomenda o princípio do respeito à vida. É revelador que, nos mandamentos relativos à santificação do Sabat, os animais sejam expressamente incluídos, de tal forma a comunidade dos vivos é percebida como um ideal. Mais nitidamente ainda se expressa a solidariedade entre os humanos, e não é por acaso que as reivindicações socialistas emanem sobretudo dos judeus.
Como é viva no povo judeu a consciência da sacralização da vida! É muito bem ilustrada até na historiazinha que Walter Rathenau me contou um dia: “Quando um judeu diz que caça por seu prazer, ele mente”. A vida é sagrada. A tradição judaica manifesta esta evidência.”

Einstein, Albert, 1879-1955.  Como vejo o mundo / Albert Einstein; tradução de H. P. de Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. pg.s 50,51.
Tradução de: Mein Weltbild

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