Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

 

 

Eclesiastes, Cap. 1(linguagem de hoje):

1 São estas as palavras do Sábio, que era filho de Davi e rei em Jerusalém.

2  É ilusão, é ilusão, diz o Sábio. Tudo é ilusão.

3  A gente gasta a vida trabalhando, se esforçando e afinal que vantagem leva em tudo isso?

4 Pessoas nascem, pessoas morrem, mas o mundo continua sempre o mesmo.

5  O sol continua a nascer, e a se pôr, e volta ao seu lugar para começar tudo outra vez.

6  O vento sopra para o sul, depois para o norte, dá voltas e mais voltas e acaba no mesmo lugar.

7  Todos os rios correm para o mar, porém o mar não fica cheio. A água volta para onde nascem os rios, e tudo começa outra vez.

8  Todas as coisas levam a gente ao cansaço – um cansaço tão grande, que nem dá para contar. Os nossos olhos não se cansam de ver, nem os nossos ouvidos, de ouvir.

9 O que aconteceu antes vai acontecer outra vez. O que foi feito antes será feito novamente. Não há nada de novo neste mundo.

10  Será que existe alguma coisa de que a gente possa dizer: “Veja! Isto nunca aconteceu no mundo”? Não! Tudo já aconteceu antes, bem antes de nós nascermos.

11  Ninguém lembra do que aconteceu no passado; quem vier depois das coisas que vão acontecer no futuro também não vai lembrar delas.

 

Esta é a Introdução do Eclesiastes e, a seguir, alguns pobres comentários.

No verso 3 o comentarista da Bíblia de Jerusalém ensina que a palavra “trabalho” que se  repete 20 vezes em forma de substantivo e 13 em forma verbal – em hebraico “amal” -, evoca um trabalho penoso semelhante ao de um escravo; portanto, a expressão, no original, sensibilizava muito mais acentuadamente os leitores da época do que a nós.

Para brasileiros não eruditos, como eu, chama a atenção, nesta tradução, a expressão “que vantagem levo eu…”. Remete-nos a espertalhões, empanturrados de egoísmo.  Quando o autor diz que gasta a vida trabalhando “e se esforçando. . .”,   indica a possibilidade de uma expectativa de melhora – que não alcança, não se sabe porque. Outras traduções, contudo, podem sugerir pontos de vista diferentes:

  • João Ferreira de Almeida: “Que vantagem tem o homem, de todo o seu trabalho, que ele faz debaixo do sol?”
  • Bíblia de Jerusalém: “Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol?

Aqui o trabalho parece ser sem esperanças; o “espertalhão” desaparece, permanece a fadiga, o sofrimento. . .

Mas ainda podemos indagar: o que deve esperar alguém de seu trabalho? O sustento para uma vida digna, com possibilidade de desenvolver todos os seus talentos – no dizer de Einstein: “uma vida simples e natural, de corpo e de espírito.” – já não seria motivo suficiente para os labores humanos? É esta, aliás, a conclusão do próprio Qohélet, em 3,22: “Pelo que vi não haver coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua recompensa.”

Teria o Pregador ciúmes de seus herdeiros?

2,18  Também aborreci todo o meu trabalho, com que me afadiguei debaixo do sol, visto que o seu ganho eu havia de deixar a quem viesse depois de mim.

2, 19  E quem pode dizer se será sábio ou estulto? Contudo, ele terá domínio sobre todo o ganho das minhas fadigas e sabedoria debaixo do sol;

Apegar-se ao “ganho” de seu trabalho, aos seus “teres”, hoje, eu e muita gente, diz que é bobagem (pelo menos a gente diz isto!). Falamos também que é uma glória deixar algo de bom para a posteridade! Então, podemos falar também que a bronca do Pregador não está bem colocada.

Uma geração passa, outra lhe sucede, enquanto a terra permanece para sempre.” (Bíblia de Jerusalém). Mas, na linguagem de hoje, esmera-se em ser mais pessimista: “mas o mundo continua sempre o mesmo.” Do que mais reclama aqui o Pregador? Das pessoas “que nascem e morrem”, “das gerações que se sucedem”, “do mundo que continua sempre o mesmo”,  “da terra que permanece para sempre?

Com relação ao primeiro ponto, o pessimismo poderia ser confirmado pelos versos 2 a 7 do Capítulo 12. Este se inicia com uma recomendação magnífica –“Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade. . .”, mas termina com uma visão do homem não muito animadora, porém colocada em um poema inigualável:

2  antes que se escureçam o sol, a lua e as estrelas do esplendor da tua vida, e tornem a vir as nuvens depois do aguaceiro;

3  no dia em que tremerem os guardas da casa, os teus braços, e se curvarem os homens outrora fortes, as tuas pernas, e cessarem os teus moedores da boca, por já serem poucos, e se escurecerem os teus olhos nas janelas;

4  e os teus lábios, quais portas da rua, se fecharem; no dia em que não puderes falar em alta voz, te levantares à voz das aves, e todas as harmonias, filhas da música, te diminuírem;

5  como também quando temeres o que é alto, e te espantares no caminho, e te embranqueceres, como floresce a amendoeira, e o gafanhoto te for um peso, e te perecer o apetite; porque vais à casa eterna, e os pranteadores andem rodeando pela praça;

6  antes que se rompa o fio de prata, e se despedace o copo de ouro, e se quebre o cântaro junto à fonte, e se desfaça a roda junto ao poço,

7  e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.

(há aqui tanta inspiração que até dá vontade de ficar velho, ou não?)

É, neste aspecto há pouca coisa a se fazer. O Salmista já lembrava que 70 anos já está bom demais para a existência de um humano. Isto, naturalmente, quanto a nossa vida física. Mas se há em nós um espírito, que não morre, “mas que volta a Deus, que o deu”, não há, a meu ver, motivo para lamentos!

Será que, no verso 4, o Qohélet questiona sobre “a terra que permanece para sempre” ou “do mundo que continua sempre o mesmo”? Vivesse em nossos dias, saberia como nós adoraríamos ter a convicção de que a “terra permanece para sempre”. Efeito estufa, terremotos, tsunamis, tufões, enchentes, derretimento de geleiras,  profecias aterradoras de um cataclismo mundial. . . Há! Boa Terra, nos perdoa e permanece para sempre!

Teríamos mais que contar ao Pregador: cá do Brasil, por exemplo, diríamos que

Minha terra já não tem palmeiras,
Onde canta
va o sabiá.”

Florestas devastadas em todo o planeta; ferro, asfalto, cimento cobrem boa parte da superfície do planeta; chaminés expelem nuvens negras e fedorentas para a atmosfera.

Há, que bom seria se as coisas continuassem, no mundo, sempre as mesmas! Mas não pode, é o progresso, é o custo da nossa evolução.

Muitas outras coisas mudaram: hoje viajamos de veículos automotores, aviões, grandes transatlânticos, e os foguetes já levam turistas ao espaço; nos comunicamos instantaneamente por rádio, telefone, internet, televisão com quaisquer pessoas em qualquer parte do planeta; a medicina, a engenharia, a biologia, a cibernética, a física e, enfim, todas as ciências cresceram e crescem com uma rapidez incrível. Poderíamos, todos os povos da terra, estar vivendo na fartura e no conforto. . .

E a arte da guerra? Quanta mudança. Agora se mata, não dezenas, ou centenas de pessoas, mas milhões, sem olhar nos olhos, com mísseis, artefatos atômicos, armas biológicas. Para falar a verdade: todo o planeta poderia ser destruído em poucos segundos por um louco qualquer.

Contudo, há coisas que não mudaram:

3,16  Vi ainda debaixo do sol que no lugar do juízo reinava a maldade e no lugar da justiça, maldade ainda.

4,1  Vi ainda todas as opressões que se fazem debaixo do sol: vi as lágrimas dos que foram oprimidos, sem que ninguém os consolasse; vi a violência na mão dos opressores, sem que ninguém consolasse os oprimidos.

Isto sim, seria bom que houvesse mudado!

WILL CONTINUE.