Um de meus irmãos enviou por e_mail, a mim e a outros, este inspiradíssimo texto de Rohden. Como deixar de colocá-lo neste Blog?

“O que é o homem?
Da resposta que dermos a esta pergunta depende o conceito, certo ou errôneo, da redenção em todas as religiões. Se o homem é essencialmente mau, nenhuma redenção de dentro é possível; mas, se o homem é essencialmente bom, embora apenas em potência, existe um fundamento para a redenção de dentro.
O problema da redenção, heterônoma ou autônoma, como se vê, assenta alicerces num profundo problema metafísico sobre a verdadeira natureza do homem.
Se a verdadeira natureza do homem se resume no seu ego – isto é, no seu elemento físico-mental-emocional que, via de regra, chamamos pessoa, personalidade (do latim persona, que quer dizer máscara) – então é evidente que a redenção do homem não pode vir dele, porque esse ego é precisamente o autor do pecado – e como poderia o pecador redimir o pecador? Como poderia lúcifer purificar lúcifer? “Se eu expulso os demônios por meio de Satanás, então está desunido o seu reino – mas um reino desunido não pode subsistir; se, porém, expulso os demônios pelo dedo de Deus, então na verdade, chegou a vós o reino de Deus” Ora, “o reino de Deus não vem de fora, com observâncias, mas está dentro de vós.”
Nestas palavras do divino Mestre está toda a solução do problema. Não é o ego pecador que redime o ego, mas é o “dedo de Deus”, a virtude divina do Cristo, que redime o homem.
Ora, essas forças – Satan e Cristo – estão dentro do homem, fazem parte da sua natureza mental-espiritual, o Satan do ego, que se rebela contra Deus – e o Cristo do EU, ou Alma, esse “espírito de Deus que habita no homem”.
Pecado e redenção dependem da soberania que este ou aquele elemento conquistar no homem. Se o ego satânico prevalecer, torna-se o homem pecador; se o Eu crístico nele prevalecer, torna-se o homem remido, justo, santo.
São os “dois Eus” de que fala a epístola de São Paulo aos romanos, a “lei da carne” (ego) e a “lei do espírito” (Eu): “Está em mim o querer o bem, mas não o poder; pois não faço o bem que quero, mas sim o mal que não quero. Ora, se faço o mal que não quero, não sou eu que ajo (meu Eu divino), mas sim o pecado em mim (o ego humano). Infeliz de mim! Quem me libertará desse corpo mortífero (desse ego humano)? A graça de Deus, por Jesus Cristo (o Eu divino)”.
Quando o ego pecador se entrega totalmente ao Eu redentor; quando Satan obedece à ordem do Cristo “vade retro!” (vai ao meu encalço) – então pode o homem remido dizer feliz: “Já não sou eu (meu ego humano) que vive – o  Cristo (meu Eu divino) é que vive em mim”.
Os teólogos eclesiásticos, porém, ensinam que esse Cristo é apenas aquele Jesus de Nazaré do primeiro século da nossa era; não fazem distinção entre o Jesus humano e o Cristo divino, o “espírito de Deus” que habita em Jesus e habita em todo homem. “Nele (no Cristo Eterno) estava a vida, e a luz dos homens, a luz verdadeira que ilumina a todo homem que vem a este mundo”. E os que recebem essa luz crística e a afirmam e fazem brilhar em sua vida “recebem o poder de se tornarem filhos de Deus”. Antes que Abraão fosse feito, esse Cristo é, como ele mesmo afirma. As palavras proferidas em vésperas de sua morte (“Pai, glorifica-me com aquela glória que eu tinha em ti antes que o mundo fosse feito”) são insondável enigma para os que não aceitam o Cristo Cósmico, anterior à creação do universo, dos homens e dos anjos.
O apóstolo Paulo sabia desse Cristo Cósmico, que existia muito antes da sua encarnação em Jesus de Nazaré, como ele escreve aos Colossenses, este Cristo “é a imagem do Deus invisível, o Primogênito, anterior a toda a creatura; nele foram creadas todas as coisas, no céu e na terra, visíveis e invisíveis, tronos e dominações, principados e potestades – tudo foi creado por ele e para ele; ele está acima do universo, e é nele que o universo subsiste”.
Isto diz Paulo do Cristo Cósmico, pré-telúrico que, milênios ou bilênios mais tarde, se encarnou, aqui no planeta Terra, em Jesus, filho de Maria; pois o Cristo Cósmico, como o apóstolo diz na epístola aos Filipenses, “subsistindo na forma de Deus, não julgou dever aferrar-se a essa divina igualdade, mas despojou-se a si mesmo e, assumindo forma de servo, tornou-se  igual aos homens e apareceu como homem no exterior”.
Nestas palavras, vem claramente expressa a existência pré-histórica do Cristo Cósmico que “subsistia na forma de Deus”, isto é como a mais alta forma ou individualização da Divindade, na “divina igualdade”; mas “despojou-se” (em grego esvaziou-se) dessa forma divina do Cristo Cósmico e revestiu-se da forma humana do Cristo telúrico, aparecendo como homem no exterior, mas permanecendo Cristo Cósmico no interior.
Ora, afirma o evangelista João, esse mesmo Cristo eterno, que é “a vida e a luz dos homens, está em cada homem que vem a este mundo”. Compete ao homem despertar em si essa luz oculta e acendê-la em chama permanente, como as lâmpadas  das cinco virgens sábias da parábola, para que a alma possa ser admitida ao reino das núpcias com o divino Esposo. Quem, no princípio, obscurece essa luz crística é o ego humano; uma vez removido esse obstáculo, rompe a luz divina do homem em viva chama, iluminando e transformando a vida.
Esta mesma idéia reaparece no Apocalipse de João, onde ele vê o homem, primeiro como Besta, depois como Satan e, finalmente, como Cristo – o homem-animal, o homem-mental e o homem-espiritual.
É absurdo supor que a pessoa humana de Jesus esteja em cada um de nós; seria uma pessoa enxertada em outra pessoa, verdadeiro monstrengo.
Por outro lado, o Cristo divino, assim como está em Jesus, eternamente inseparável dessa pessoa humana, não pode, nessa forma, entrar em mim. Mas esse mesmo Cristo Cósmico, “que ilumina a todo homem”, está em mim em outra forma, na forma peculiar a mim, correspondente a este individuo humano, único e original – assim como a mesma vida universal está de outro modo na roseira ou na macieira do que está na orquídea ou no pinheiro, embora seja sempre a mesma e única vida universal.
Em cada um de nós, vive o mesmo Cristo Cósmico, mas em forma diferente daquele que vivia e vive em Jesus de Nazaré. Cada um de nós é um veículo telúrico do Cristo Cósmico.
“Quando duas pessoas fazem a mesma coisa, diz o provérbio, essa coisa não é a mesma”. Da mesma forma, quando o Cristo está em duas pessoas, esse Cristo não é o mesmo; é o mesmo em sua essência cósmica, mas não é o mesmo na sua existência telúrica, na sua individuação humana.
É precisamente nessa forma telúrica e individual que o eterno Cristo Cósmico, segundo as suas próprias palavras, está conosco “todos os dias até a consumação dos séculos”, e “onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome está ele no meio deles”.
Nesse sentido, diz o apóstolo Paulo, “O Cristo vive em mim”, “o meu viver é o Cristo”, “o espírito de Deus habita em vós”.
Neste sentido, afirma Tertuliano que “a alma humana é crística por sua própria natureza”.
Enquanto o homem continuar ignorando esse Cristo latente, é ele vítima de trevas, pecador, irredento; mas, quando a luz crística rompe as trevas (ou penumbras) luciféricas do ego, então, mais uma vez o Verbo se faz carne e habita em nós, cheio de graça e de verdade.
Quando a um teólogo eclesiástico se fala em “auto-redenção”, entende ele “ego-redenção”, redenção pelo ego humano, e protesta contra semelhante “pelagianismo” nascido do orgulho e da presunção, porque entende por “auto-redenção” a redenção pelo próprio ego pecador.
Neste sentido, já o dissemos, é claro que não pode haver “auto-redenção”, porque o ego pecador não pode redimir o homem; Satan não redime Satan. Mas, quando o teólogo abandona a sua tradicional confusão e deixa de identificar o ego luciférico com o Eu crístico do homem, então desaparece todo o escândalo nascido da confusão.
Auto-redenção é Cristo-redenção, Téo – redenção.
Quem peca no homem é o seu ego humano, a sua persona ou máscara, mas não o seu verdadeiro Eu, a sua alma, o “espírito de Deus que nele habita”; esse não peca nem pode pecar. O Lúcifer do ego peca – o Cristo do Eu redime do pecado; a “luz brilha nas trevas, e as trevas não a prenderam”.
Na linguagem simbólica do Gênesis, representa Moisés o ego pecador pela serpente, e o Eu redentor pelo poder que esmagará a cabeça da serpente. E o próprio Cristo afirma que ele é essa serpente sublimada às alturas, simbolizada por aquela serpente de bronze que Moisés ergueu no deserto, para que os hebreus mordidos pelas serpentes rastejantes fossem salvos por essa super-serpente erguida às alturas.
Evidentemente, as serpentes venenosas representam o ego pecador, e a serpente curadora e salvífica é o Eu redentor; ambas essas serpentes, a mortífera e a vivifica, existem no homem; da vitória desta ou daquela dependem a salvação ou a perdição, a vida ou a morte espiritual do homem. Sublimar, erguer às alturas, cristificar, divinizar o seu ego humano – eis em que consiste todo o processo de redenção! E o Sermão da Montanha é o mais perfeito caminho dessa redenção, porque representa completa vitória do Eu divino sobre o ego humano. É um grandioso programa de auto-redenção pelo Cristo interno, ou seja, de auto-realização em Deus. Cada uma daquelas sublimes afirmações – desde as oito bem-aventuranças até a alegoria final da casa sobre rocha ou sobre a areia – é um convite, quase um desafio, que visa subordinar o ego humano ao Eu divino – e isto é redenção.
Remido, bem-aventurado, herdeiro do reino dos céus, filho de Deus é todo homem “ pobre pelo espírito”, “puro de coração”, que tem “fome e sede de justiça” (verdade), que “ama aos que o odeiam” e “faz bem aos que lhe fazem mal”, que “cede também a túnica a quem lhe rouba a capa”, que “oferece a outra face a quem o feriu numa”, que “vai dois mil passos com quem o obrigou a andar com ele mil” etc.
Todas estas palavras focalizam, de modos vários, a única verdade central da vida humana: que a redenção e verdadeira felicidade do homem consistem na definitiva vitória do seu elemento divino sobre seus elementos humanos. O Sermão da Montanha supõe, do princípio ao fim, que esses dois elementos estejam dentro do homem, que o homem se torna pecador quando faz prevalecer as forças do seu ego humano, e se faz remido quando da vitória do seu Eu divino sobre o ego humano. Todos esses preceitos que compõem o Sermão da Montanha são dolorosos e antipáticos ao “homem velho que anda ao sabor das suas concupiscências”, mas são alviçareiros e simpáticos ao “homem novo, feito em verdade, justiça e santidade”, essa “nova creatura em Cristo”, renascida pelo espírito, disposta a andar pelo “caminho estreito e passar pela porta estreita que conduz ao reino dos céus”.” . . .

(O CRISTO CÓSMICO E OS ESSÊNIOS – ROHDEN, Huberto, 1991, Martin Claret Editores, pg.s 47 a 52)

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