Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Eclesiastes, Cap. 1(linguagem de hoje):

1 São estas as palavras do Sábio, que era filho de Davi e rei em Jerusalém.

2  É ilusão, é ilusão, diz o Sábio. Tudo é ilusão.

3  A gente gasta a vida trabalhando, se esforçando e afinal que vantagem leva em tudo isso?

4 Pessoas nascem, pessoas morrem, mas o mundo continua sempre o mesmo.

5  O sol continua a nascer, e a se pôr, e volta ao seu lugar para começar tudo outra vez.

6  O vento sopra para o sul, depois para o norte, dá voltas e mais voltas e acaba no mesmo lugar.

7  Todos os rios correm para o mar, porém o mar não fica cheio. A água volta para onde nascem os rios, e tudo começa outra vez.

8  Todas as coisas levam a gente ao cansaço – um cansaço tão grande, que nem dá para contar. Os nossos olhos não se cansam de ver, nem os nossos ouvidos, de ouvir.

9 O que aconteceu antes vai acontecer outra vez. O que foi feito antes será feito novamente. Não há nada de novo neste mundo.

10  Será que existe alguma coisa de que a gente possa dizer: “Veja! Isto nunca aconteceu no mundo”? Não! Tudo já aconteceu antes, bem antes de nós nascermos.

11  Ninguém lembra do que aconteceu no passado; quem vier depois das coisas que vão acontecer no futuro também não vai lembrar delas.

Vamos imaginar que você esteja vivendo há 2500 anos atrás; você é um agricultor. Seus pais eram também agricultores e também seus avós. Estes foram mortos por um grupo de guerreiros errantes que invadiram sua pequena plantação (não importa do que – era subsistência deles), levaram o que puderam e destruíram o resto. Seus pais escaparam da sanha assassina e, muito cedo tiveram que se organizar como gente grande para sobreviver. A labuta era árdua: começava com os primeiros raios do sol e encerrava quando este se punha. A água não era tão farta na região; era obtida de poços e, quando tardava a época de chuvas, a preocupação e os inconvenientes com a sua falta era grande. Sabia-se da existência de rios, mas em lugares distantes. Notícias de outras aldeias, de outras gentes, muito raramente, por viajores eventuais; temia-se muito o aparecimento de invasores estrangeiros ou cobradores de impostos de um rei que se coroara. Diversão? Quem sabe caçar escorpiões.

Nestas condições, você não aplaudiria o Pregador? O nascer do sol significaria trabalho penoso; seu calor queimava, enrugava a pele e exauria, célere, as forças e o ânimo. Seus filhos, desde cedo começariam a trabalhar no mesmo campo, com os mesmos escassos recursos, sujeitos as mesmas contingências, aos mesmos perigos (às vezes fatais). O vento soprava forte, quebrando os ramos da plantação quase madura; se gelado penetrava os ossos, causando dor.

Só de pensar nos dá enfado.

Diferente da situação de hoje: você não exerce a mesma profissão de seu pai, que por sinal não existe mais; você freqüentou uma escola, conheceu muitas pessoas, ouviu palestras de orientação sobre as carreiras profissionais mais promissoras – escolheu uma, senão a melhor, ao menos a que estava mais fácil de alcançar. Leva um pequeno telefone no bolso, com o qual fala com todos seus amigos a qualquer hora, recebe notícias, via internet, a todo o momento (cotações da Bolsa de valores, notícias do clima aqui e na China, escalação de seu time para a próxima partida, lançamentos da moda e da tecnologia, etc.). Em casa, a TV digital já está ficando ultrapassada. Viaja, a serviço ou a passeio, por todo o País ou para o exterior, em modernas e rápidas aeronaves. O que mais?

Então é fácil classificar de pessimista o tal livro de Eclesiastes.

Mas o Pregador tem razão ao dizer que as coisas repetitivas cansam. Sim, podem cansar e, em casos mais graves, podem até ocasionar sérios problemas físicos: você, certamente, já ouviu falar da Lesão por esforço repetitivo. Quem, por força da profissão, ou por outro motivo qualquer, está sujeito a executar as mesmas atividades (por prazerosas que sejam), acabam por perder o interesse pelas mesmas. Os psicólogos insistem que as rotinas devem ser quebradas, vez por outra, para que haja uma boa saúde mental e até de relacionamento. O “papel de parede” de meu Notebook, hoje, trás o seguinte pensamento: “O repetitivo adormece. Porém, dentro de você, há  um imenso potencial de criatividade.” (Paulo e Lauro Raful – http://www.ogrupo.org.br)

Ver o céu, perceber o percurso dos astros, sentir o vento, acompanhar o itinerário dos rios…  e sentir-se enfadado? É ter visão embotada ao renascimento da vida na primavera, às nuvens carregadas de chuvas transportadas pelos ventos, à vida que os rios trazem em seu seio e fazem brotar às suas margens. . .

Não há, pois, o que condenar. Pode-se, contudo, contrapor à visão do Coélet outros trechos bíblicos que, a propósito dos mesmos fenômenos, chegam a uma percepção totalmente oposta:

Salmo 19:

1  O céu anuncia a glória de Deus e nos mostra aquilo que as suas mãos fizeram.

2  Cada dia fala dessa glória ao dia seguinte, e cada noite repete isso à outra noite.

3  Não há discurso nem palavras, e não se ouve nenhum som.

4  No entanto, a voz do céu se espalha pelo mundo inteiro, e as suas palavras alcançam a terra toda. Deus armou no céu uma barraca para o sol.

5  O sol sai dali todo alegre como um noivo, como um atleta ansioso para entrar numa corrida.

6  O sol sai de um lado do céu e vai até o outro lado; nada pode se esconder do seu calor.

Salmo 8:

3 Quando olho para o céu, que tu criaste, para a lua e para as estrelas, que puseste nos seus lugares—

4  que é um simples ser humano para que penses nele? Que é um ser mortal para que te preocupes com ele?

Romanos 1:

20 Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a        sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo   percebidos por meio das coisas que foram criadas….

Salmo 136:

Rendei graças ao SENHOR. . .

. . .

5  àquele que com entendimento fez os céus,

6  àquele que estendeu a terra sobre as águas,

7  àquele que fez os grandes luminares,

8  o sol para presidir o dia

9  a lua e as estrelas para presidirem a noite,

porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre.

Vejam só: O salmista vê nos fenômenos da natureza a harmonia, a beleza, a Glória de Deus, a misericórdia do Criador; Paulo intui, pelas coisas criadas, os atributos invisíveis de Deus. Não se sentiram agastados de tantas e tantas vezes verem e ouvirem, mas, ao contrário: maravilhados!

Se não se repetissem os fenômenos e as coisas: existiria a nossa ciência? Por que só é ciência o que se pode provar, experimentar, verificar repetidas vezes. Apreciem esta historieta obtida na Wikipédia:

“Conta-se que certa vez, Hierão, rei de Siracusa, no século III a.C. havia encomendado uma coroa de ouro, para homenagear uma divindade que supostamente o protegera em suas conquistas, mas foi levantada a acusação de que o ourives o enganara, misturando o ouro maciço com prata em sua confecção. Para descobrir, sem danificar o objeto, se o seu interior continha uma parte feita de prata, Hierão pediu a ajuda de Arquimedes. Ele pôs-se a procurar a solução para o problema, a qual lhe ocorreu durante um banho. A lenda afirma que Arquimedes teria notado que uma quantidade de água correspondente ao seu próprio volume transbordava da banheira quando ele entrava nela e que, utilizando um método semelhante, poderia comparar o volume da coroa com os volumes de iguais pesos de prata e ouro: bastava colocá-los em um recipiente cheio de água, e medir a quantidade de líquido derramado. Feliz com essa fantástica descoberta, Arquimedes teria saído à rua, nu, gritando: “Eureka! Eureka!”(“Encontrei! Encontrei!”‘).”

Perceberam? Se Arquimedes não houvesse “notado que uma quantidade de água correspondente ao seu próprio volume transbordava da banheira quando ele entrava nela”, isto é, se este fato não ocorresse sempre da mesma maneira. . . o que seria da hidrostática? E assim é a ciência. Não houvessem fatos repetitivos, não teríamos ciência: o nosso mundo teria de se contentar com os “filósofos” intuitivos. Ainda estaríamos convictos de que o nosso planeta é o centro do universo?

Desde menino, eu ouvi muitas vezes: “O homem nasce, cresce, fica bobo e casa. . .” . Alguém duvida? Parafraseando o Coélet será que se pode dizer: “Veja! Isto nunca aconteceu no mundo”? “Não! Já aconteceu antes, bem antes de nós nascermos.” Mas o homem fica bobo? O grande exemplo bíblico disto é a história do formidável Sansão. Talvez a expressão forte daquela primeira frase seja “e casa. . .” – porque remete a “casamento”, uma formalidade muito usada no passado, mas hoje . . . nem tanto. Mas se não há o casamento formal – a humanidade sempre procura meios mais simples de resolver as coisas -, há o fato consumado da união, com aquelas mesmas juras: “jamais te esquecerei!”; “Amarei você para todo o sempre!”. Isto sempre se repete, apesar de todas as mudanças, de todos os modernismos introduzidos na sociedade moderna. Vejo nas ruas, nas praças – em todos os lugares (O liberalismo dos costumes permite que aconteçam em qualquer espaço) – jovens, crianças ainda, na maior manifestação de impetuoso carinho (mais do que isto, às vezes, mas não sei como dizê-lo); divirto-me e entristeço-me: divirto-me com o carinho – pois isto sempre é bonito e enternecedor; entristeço ao pensar no caminho que o casal tem pela frente – sempre haverão os problemas, as dificuldades, as tristezas, as desavenças, as frustrações. . . Isto sempre se repete.

Mas pasmem! Hoje lendo, na Internet, o Estadão, encontrei duas afirmações de coisas novas. A primeira vem de José Murilo de Carvalho, mineiro, imortal, citado em artigo de Ivan Marsiglia (Uma nova velha história): Sempre houve negócios escusos, compra de votos, subornos, trocas de favores. Mas não me lembro de algo sistemático e generalizado como o que tem havido ultimamente, envolvendo os principais partidos, ministros, governadores, secretários, congressistas, empresários. É uma inovação em nossa história.”
A segunda assertiva é de Gaudêncio Torquato (em DEMolição), comentando a reza da propina por parlamentares de Brasília: “A morfologia de nossa cultura explica o fervoroso gesto, a começar pela lembrança de que o santo nome de Deus sempre frequenta os mais comezinhos atos do cotidiano. Inédito, porém, é usá-lo como escudo para abrigar desvios criminosos.”

Tomara que um dia nos esqueçamos destas novidades em nossas plagas!

WILL CONTINUE

Anúncios