Dezembro, mês do Natal. Compartilho com vocês textos de amigos meus do GCEC – e mato saudades daquele grupo maravilhoso.

“Eu venho de um deserto.

Um deserto de cristãos.

Um deserto de igrejas.

Um deserto de bíblias.

Um deserto de reuniões.

Um deserto de estradas asfaltadas.

Um deserto de livros.

Um deserto que se chama R E L I G I Ã O. . .

Encontro-me sozinho. . .e tenho medo,

Medo de mim mesmo.

Encontro-me sozinho no meio de tanta gente.

“Não tenho onde reclinar a cabeça”.

Um deserto de incompreensão.

Um deserto de acusação.

Minha boca seca anseia pelo copo amigo,

Meu ventre faminto anseia pelo pão da vida,

Meu corpo oprimido e tenso anseia pela libertação.

O sol forte queima o meu rosto,

Os chinelos já gastos.

Roupas esfarrapadas – mendicante e peregrino.

A boca seca já não consegue falar. . .

Eu queria falar. Gritar bem alto o nome   D E U S.

A boca seca fala baixinho, balbucia, é um murmúrio. . .D E U S – a mais sublime e sofrida oração da minha vida.

Como é difícil dizer Deus num deserto.

E na mendicância de um peregrino

Sem água – pão – amigos. . .

Lembrei-me de irmãos distantes:

Moisés, Elias, João Batista, Jesus –

Irmãos que viveram. . .

Paixão (copo), amor (corpo), fé (cruz);

Deus não estava no terremoto.

Deus não estava no vento forte.

Deus estava na brisa tranqüila.

Nesse deserto. . .é preciso brisa tranqüila.

Deus eu queria gritar Teu nome e. . .

perceber-Te de novo na brisa tranqüila.

E na brisa conseguir de novo crer, acreditar, ter coragem;

A coragem de um povo que na esperança utópica do Messias peregrinou 40 anos no deserto árido da opressão.

A coragem dos profetas loucos que na solidão profética optaram por falar a Tua palavra.

Meu Deus – o que foi feito de Ti?

Transformaram a brisa tranqüila

num vendaval de destruição.

Transformaram os Teus profetas boiadeiros

em ricos sacerdotes.

Transformaram a Tua graça e misericórdia

em lei e culpa.

Transformaram a Tua alegria e vida

em tristeza e morte.

Transformaram o Teu povo peregrino-pobre e forasteiro

em templos ricos e perenes.

Transformaram a Tua manjedoura

em berço de ouro.

Transformaram a esperança messiânica de um reino para todas as pessoas

num templo de certezas e um reino para poucos – os eleitos.

DEUS – eu já não agüento mais.

Até quando existirá a provação?

Não é um fogo que queima a carne.

Não é a tortura dolorida do corpo.

São os olhares ferozes.

São os olhares desconfiados.

São os dedos acusadores.

São as palavras ferinas.

É a inveja idolátrica.

Meu DEUS – na solidão de um caminheiro que quer viver a alegria eu Te peço:

Que neste tempo de advento

recuperemos a alegria do VENTO.

E no deserto de cristãos. . .

eu quero encontrar pessoas que já não possuam olhares ferozes e sim olhares ternos de compreensão. E que não haja vergonha de se olhar com os olhos – olhos de amor.

E no deserto de igrejas. . .

já não existam mais dedos acusadores e sim mãos amigas, formando a grande roda da vida, mão que acariciam. E que não haja vergonha do toque carinhoso e fraterno – toque de amor.

E no deserto de bíblias. . .

já não existam palavras ferinas e sim palavras bonitas, belas, palavras de Deus, palavras que precisam ser pronunciadas a cada instante – palavras de bendição-bem-dizer – palavras de amor.

E que no deserto de reuniões. . .

já não exista a briga pelo poder e sim a comunidade amiga; que haja o encontro de irmãos e irmãs que celebrem a mesma fé – encontros de amor.

E que no deserto das estradas asfaltadas. . .

já não exista a segurança de um peregrinar sem medo; que os nossos pés, sem os confortáveis sapatos, sintam a poeira da estrada e que, no contato com o pó, que somos nós mesmos, exista – um caminhar de amor.

E que no deserto de livros. . .

não haja mais letras de condenação e sim escritos poéticos; que os livros sejam os companheiros nas horas de solidão trazendo a poesia amiga que nos enche de utopia – leituras de amor.

E que no deserto da religião. . .

já não haja tempo para os ídolos e que na coragem de libertação, o povo aniquile de vez a maldita religião, e que tenhamos – a religião do amor.

De repente. . .

pela janela aberta – a cortina balança e invade a sala uma brisa tranqüila. . .e a brisa acaricia meu corpo – toca meus braços, pernas, rosto. . .

E então, meu corpo todo ora uma oração sublime:

D E U S. . .

Deus está no deserto.”

(COMPROMISSO COM O SONHO, GCEC uma comunidade cristã alternativa, pg.s 260 a 263, sermão do Longuini[i] no primeiro domingo do Advento – 1986.)


[i] Rev. Luiz Longuini Neto, hoje  professor do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil (STBSB) – é a última notícia que temos deste irmão, um dos primeiros pastores do GCEC.