O meu compartilhar de hoje será rememorar um ensinamento que me foi passado quando fiz minha profissão de fé, na Igreja Metodista de Ribeirão Preto – foi outro dia mesmo, pois já estava com 13/14 anos, hoje 71.

Recordo-me com saudades do Reverendo Benedito Quintanilha, homem simples, mas de uma enorme simpatia, transbordante de fé e alegria. Selecionou alguns trechos do catecismo e pediu que eu lesse como preparatório para o importante evento sacro. Nunca me esqueci da recomendação (ao menos intelectualmente) para que vivesse cada dia

  • Como se fosse o último dia de minha vida;
  • Jamais esquecendo que minha vida é eterna.

Acho que hoje a gente chama de “paradoxo” os ensinos com tais contradições. Mas faz sentido: viver cada dia como se fosse o último é vivê-lo plenamente, aproveitá-lo com intensidade, senti-lo e saborea-lo nos menores detalhes; vivê-lo como segmento da vida eterna é vivê-lo sem pressa, bem pensado, com a máxima responsabilidade, com consciência, pois seus reflexos darão qualidade ao meu amanhã, depois de amanhã. . .e para todo o sempre.

Pensando no novo ano, é a mesma coisa. Se cada um de seus 365 dias (se os viver todos) deve-se fruí-los como se fossem os últimos e sabendo-se eterno, o mesmo pode-se dizer de todo o ano, de toda a próxima década. . . Afinal, um dia, um ano, qual a diferença – é um pedacinho de tempo e, pelo que se diz hoje, tempo nem existe.

Refiro-me ao capítulo Vida Nova na Velhice, de A Alma Celebra de Lawrence W. Jaffe (Paulus, 2002, pg.119, 120), que se inicia com a menção do verso bíblico (Gn. 12, 1-4) em que Iahweh manda que Abraão (75 anos) abandone sua parentela, sua terra natal e parta para uma viagem. . .para uma terra desconhecida, “que te mostrarei”. O Capítulo se encerra com Jung:

“Tratei muitas pessoas de idade, e é interessante observar o que o inconsciente faz com o fato de que está aparentemente ameaçado com um fim derradeiro. Ele desconsidera  esse fim. A vida se comporta como se estivesse continuando, e por isso é melhor que a pessoa idosa pense que continuará vivendo, que tenha expectativa do dia seguinte, como se tivesse de viver séculos; então viverá adequadamente. Mas quando tem medo, quando não olha para frente, e sim para trás, fica petrificada, enrijece e morre antes do tempo. Mas quando vive e tem perspectiva da grande aventura à frente, então vive, e é isso o que o inconsciente tem intenção de fazer[i].”

[ii]Aplica-se a recomendação de Jung somente a “pessoas de idade”, isto é, aquelas que já tiveram o privilégio de viverem muitos e abençoados (mesmo por que já vividos) anos? Entendo que os entraves do medo, do enrijecimento, da petrificação, ocorrem a todos que, por alguma circunstância adversa, se deixam seduzir pelo desalento, pelo pessimismo, pela falta de esperança, pelo boicote dos sonhos. Cada um de nós mesmos, em quantos momentos da existência, sem nos tornarmos, felizmente, patológicos, já deixamos que isto nos ocorresse? Que nos sirva de incentivo esta afirmação de Henri Bergson: “Permite a evolução da vida… as portas do futuro permanecerem escancaradas. É uma criação que prossegue infindavelmente. . .[iii]

Então, para todos, uma FELIZ aventura em 2010, com muito amor, muita alegria, com muitos sonhos, com muitas realizações, com tudo de bom!


[i] Entrevista “Face to Face” in C. G. Jung Speaking, pg. 438.

[ii] Texto anterior: “Será que as últimas recomendações só servem para gente “velha”? Os moços vivem dias turbulentos, violentos, profecias catastróficas repetidas insistentemente. . .”

[iii] BERGSON, Henri; A EVOLUÇÃO CRIADORA (L’Évolution Créatrice, Paris 1927); Tradução Adolfo Cassais Monteiro, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro, pg. 127.

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