Li A Alma Celebra, livro que recebi emprestado e do qual já postei um texto de Jung. Apreciem agora os comentários de Jaffe Lawrence sobre ensinos de Jung sobre este tema sempre atual.

“Jó não é senão o momento externo do processo interior de dialética em Deus[i].

A suposição ingênua de que o criador do mundo é um ser consciente precisa ser vista como preconceito desastroso que mais tarde deu origem às confusões mais incríveis da lógica[ii].

É difícil para a mente moderna assimilar a ideia de que Deus tem algo a aprender do homem, provavelmente devido ao “preconceito desastroso” de que Deus é um ser consciente. A necessidade emocional que temos dessa noção é o estado relativamente infantil de nossa consciência coletiva que precisa da presença de bom pai no alto. É difícil aceitar a ideia de que nosso pai é misto de opostos, e por isso ela continua sendo o maior obstáculo à compreensão do mito junguiano da transformação da imagem de Deus.

Pode ser que somente os que tiveram a experiência de Jó, que viram as “costas de Iahweh”, o “mundo abismal de cacos[iii]” – isto é os que foram primeiro esmigalhados e depois curados por Deus – estejam em condições de conciliar a imagem de Deus paradoxal, que Jung chamou de “contradição trágica de Deus[iv]

A visão junguiana complementa o ponto de vista freudiano precisamente no que este é mais frágil. Esclareço. Certa vez, alguém propôs ao notável psicanalista Salman Akhtar uma pergunta à qual, imagino, era difícil ele responder, o que não seria bem o caso para um junguiano. A pergunta era: Qual seria o resultado ótimo da psicanálise de um distúrbio de personalidade grave? Akhtar respondeu com o que ele chamou de “parábola” de dois vasos de flores, ambos valiosos e de igual valor, um quebrado e em seguida reconstituído por um perito. E conclui:

Os sinais de reconstituição (do vaso quebrado). . . serão sempre perceptíveis a olho experiente. No entanto, esse vaso terá certa sabedoria, uma vez que conhece alguma coisa que o vaso que não foi quebrado não conhece: sabe o que é quebrar e o que é ser recuperado[v].

Pode-se considerar o mito junguiano o estudo do sentido de ser esmigalhado ou esmagado. Para muitos de nós que passamos por essa experiência, esse sentido é redentor. É importante sabermos que não fomos quebrados porque somos inferiores, mas porque, aparentemente, Deus quer recipientes quebrados. O Talmude nos diz que os seres humanos rejeitam recipientes quebrados, mas que Deus gosta deles. Jung concorda:

Por causa de sua pequenez, insignificância e impossibilidade de defender-se contra o Todo-poderoso, (o homem) possui. . .consciência um pouco mais aguçada baseada na auto-reflexão[vi].

Não há estímulo mais eficaz à auto-reflexão do que o sofrimento.”

Jaffe, Lawrence W.; A Alma celebra: preparação para a nova religião – Celebrating Soul: preparing for the New Religion, 1999 – (tradução de Euclides Calloni); São Paulo; Paulus, 2002, Sentido do Sofrimento,  pg.s 67 e 68.


[i] Resposta a Jó, Psicologia e Religião, Obras Completas, 11; também Edinger, Creation of Consciousness, p. 70.

[ii] Ibid., par. 600, n 13.

[iii] Ibid., par. 595.

[iv] Memories, Dreams, Reflecions, p. 216.

[v] Revisão de Broken Structures: Severe Personality Disorders and Their Treatment, in “Psychotheraphy Book News”, vol. 26, 15 de outubro de 1992, p. 16.

[vi] Resposta a Jó. . ., o.c.