Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Vaidade da Ciência

Eclesiastes, Cap. 1(linguagem de hoje):

12 Eu, o Sábio, fui rei de Israel, em Jerusalém.

13 E resolvi examinar e estudar tudo o que se faz neste mundo. Que serviço cansativo é este que Deus nos deu!

14 Eu tenho visto tudo o que se faz neste mundo e digo: tudo é ilusão. É tudo como correr atrás do vento.

15 Ninguém pode endireitar o que é torto, nem fazer contas quando faltam os números.

16 E pensei assim: “Eu me tornei um grande homem, muito mais sábio do que todos os que governaram Jerusalém antes de mim. Eu realmente sei o que é a sabedoria e o que é o conhecimento.”

17 Assim, procurei descobrir o que é o conhecimento e a sabedoria, o que é a tolice e a falta de juízo. Mas descobri que isso é o mesmo que correr atrás do vento.

18 Quanto mais sábia é uma pessoa, mais aborrecimentos ela tem; e, quanto mais sabe, mais sofre.

É mister lembrar, de início, o que já foi exposto na inserção IV destes comentários, no que se refere à autoria deste livro, que alguns entendiam ser Salomão: “Na introdução contida na Bíblia de Jerusalém encontramos: ”Mas esta atribuição não passa de mera ficção literária do autor, que põe suas reflexões sob o patrocínio do mais ilustre dos sábios de Israel. A linguagem do livro e sua doutrina, da qual falaremos a seguir, impedem de situá-lo antes do Exílio.””

Vale a pena, contudo, fazer de conta que é o rei Salomão o próprio Coélet. Vamos lembrar um pouco a história deste ilustre personagem. Chegou muito cedo ao poder. Em sonhos (I Reis, Cap. 3:5. . .) aparece-lhe o Senhor e lhe diz – Pede o que quiseres”. Todos nós conhecemos a resposta: sabedoria. Mas, pesquisando o texto bíblico, chego à conclusão que o pedido foi para um tipo específico de sabedoria: verso 9: “Portanto, dá-me sabedoria para que eu possa governar o teu povo com justiça e saber a diferença entre o bem e o mal. Se não for assim, como é que eu poderei governar este teu grande povo?”. Sabedoria para governar o povo. Mas como o Senhor gostou da resposta, deu-lhe mais:

“. . .dou-te coração sábio e inteligente, de maneira que antes de ti não houve teu igual, nem depois de ti o haverá.

13  Também até o que me não pediste eu te dou, tanto riquezas como glória; que não haja teu igual entre os reis, por todos os teus dias.”

Talvez esteja exagerando em minha análise, mas é meu entendimento que “sabedoria” vem do coração, enquanto que “inteligência” vem do celebro e o verso 16 pelo menos concorda que são diferentes: “Eu realmente sei o que é a sabedoria e o que é o conhecimento.”

Tanto a sabedoria como o conhecimento de Salomão foram notáveis. No capítulo 4 encontramos:

29 Deu também Deus a Salomão sabedoria, grandíssimo entendimento e larga inteligência como a areia que está na praia do mar.

. . .

32  Compôs três mil provérbios, e foram os seus cânticos mil e cinco.

33  Discorreu sobre todas as plantas, desde o cedro que está no Líbano até ao hissopo que brota do muro; também falou dos animais e das aves, dos répteis e dos peixes.

A meu ver, o verso 32 poderia estar falando sobre “sabedoria”, enquanto o verso 33 dá enfoque sobre “inteligência”, “conhecimento”. E daí? Daí que, fosse Salomão o autor de Eclesiastes, o seu interesse em “examinar e estudar tudo o que se faz neste mundo” estaria intimamente ligado ao pedido que fez ao seu Deus. Se bem que só pediu sabedoria – a inteligência veio de contrapeso, como o empurrãozinho de ajuda para descer a ladeira. Isto seria choro de barriga cheia: “Que serviço cansativo é este que Deus nos deu!”.[i]

Feitas estas observações, consideremos o texto deixando de lado o sábio rei Salomão. Estes versículos buscam mostrar que a satisfação e felicidade da pessoa humana não se encontram na aquisição da sabedoria.

Primeiro, notamos que é erro de perspectiva de o Pregador entender que “examinar e estudar tudo o que se faz neste mundo”, com a visão de um estudioso, seja ocupação de todos os filhos dos homens. Isto é tarefa de poucos, a meu ver até os nossos dias. Assim, se cansativo, o seria para uma minoria, não o seria “para os filhos dos homens”, isto é, para o povão em geral. Mas minoria não tem direitos – como o direito de sentir-se cansada de seu labor? Oh, Sim! Também são filhos de Deus e devem contar com toda nossa consideração. Mas, baseados nas informações do Pregador, examinemos essa minoria. No capítulo 2 este suposto Salomão gaba- se de seus feitos:

“4  Empreendi grandes obras; edifiquei para mim casas; plantei para mim vinhas.

5  Fiz jardins e pomares para mim e nestes plantei árvores frutíferas de toda espécie.

6  Fiz para mim açudes, para regar com eles o bosque em que reverdeciam as árvores.

7  Comprei servos e servas e tive servos nascidos em casa; também possuí bois e ovelhas, mais do que possuíram todos os que antes de mim viveram em Jerusalém.

8  Amontoei também para mim prata e ouro e tesouros de reis e de províncias; provi-me de cantores e cantoras e das delícias dos filhos dos homens: mulheres e mulheres.

9  Engrandeci-me e sobrepujei a todos os que viveram antes de mim em Jerusalém; perseverou também comigo a minha sabedoria.

10  Tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o coração de alegria alguma,. . .”

Diante disto, o “examinar e estudar tudo o que se faz neste mundo” não passava de um agradável passa tempo de nosso homem. Até bem pouco tempo, segundo entendo, dedicar-se às ciências, à filosofia, era reservado a poucos privilegiados – primeiro financeiramente e, depois, intelectualmente. Hoje em dia parece que isto está ligeiramente mudado, pois os resultados econômicos que as atividades da ciência (principalmente) podem trazer, geraram uma camada de estudiosos que se mantêm com salários positivamente diferençados; permanece o problema de se contemplar as crianças das classes sociais mais humildes com o ensino básico adequado para que germinem os talentos aí existentes. Em outras palavras, “examinar e estudar tudo o que se faz neste mundo” hoje é profissão – requer muita dedicação, muito e constante interesse dos que aí desejam permanecer. Enfado, nem pensar – serões, noites mal dormidas, isto sim é que é legal! Querem um exemplo?

“Quando professor na Universidade de Berlim, refere sua esposa Elsa, havia dias em que ele se trancava no seu quartinho, nas águas-furtadas do último andar de um edifício de sete andares, e dava ordem à esposa para que não o chamasse para nada, nem para as refeições, recomendando apenas que colocasse uma bandeja de sanduíches diante de sua porta trancada. Assim passava Einstein dias inteiros. . .”

(EINSTEIN O Enigma do Universo; ROHDEN, Huberto; Editora Martin Claret, 2005, Einstein e a intuição cósmica, pg. 26)

WILL CONTINUE


[i] Em Almeida esta lamentação está assim: “essa enfadonha ocupação deu Deus aos filhos dos homens, para nelas os exercitar”. Na Bíblia de Jerusalém: “É uma tarefa ingrata que Deus deu aos homens para dela se desincumbirem”. E na Ecumênica: “Esta péssima ocupação deu Deus aos filhos dos homens para que se ocupassem nela”.