Meu tio Sérgio Stopatto trabalhou como engenheiro da Estrada de Ferro Central do Brasil, depois RFFSA, de 1944 a 1963. Aposentado, publicou um pequeno e interessante livro em dezembro de 1983, intitulado CRÔNICAS DA FERROVIA, onde relata algumas experiências vividas na ferrovia ao longo de 40 anos.

Administrador que sou, me chamou a atenção esta historinha deliciosa:

“O episódio aconteceu ali pelas proximidades de Joaquim Murtinho, perto de Lafaiete.

Um acidente com um trem cargueiro resultou no tombamento da locomotiva. Fora causado pela fratura do friso de uma de suas rodas. O socorro do “Depósito” de Lafaiete chegou logo ao local, bem como o pessoal da linha. Tudo indicava que a interrupção da via seria por pouco tempo. O maior problema estava no levantamento e encarrilamento da locomotiva.

Durante os trabalhos chega ao local um trem especial trazendo várias personalidades, de volta de uma “inspeção” até Belo Horizonte. Nessas alturas a locomotiva já estava encarrilada. Tudo então correndo às mil maravilhas quando veio a grande surpresa. Ao pôr-se a locomotiva em movimento, ela tornava a descarrilar devido à falta do pedaço de friso.

Aí então começaram os palpites.

Havia chefe à beça para tentar uma solução. Cada tentativa era mais um fracasso. O tempo ia passando e aumentando a aflição geral.

No meio dessa confusão, um humilde servidor da via-permanente pedia ao responsável pelo trabalho para que tentasse uma solução que ele estava imaginando. Entretanto ninguém lhe dava atenção, pois havia muito “chefe” a ser ouvido. A cada fracasso o tal servidor, parece que um mestre-de-linha, voltava a insistir com a sua idéia. E nada.

Só depois de muito tempo resolveram chamar o mestre-de-linha e ouvir o que ele tinha a sugerir. É simples, disse. Basta levantar ligeiramente o rodeiro  e prender dois dormentes bem encharcados de óleo ou graxa, um de cada lado da roda avariada, e depois puxar a locomotiva.

Houve alguma demora para prender os dormentes, mas a solução foi um sucesso total e surpreendente! Pouco depois a locomotiva estava chegando num desvio de J. Murtinho e a linha desimpedida.

É o tal caso! Havia engenheiro demais para atrapalhar!”

(STOPATTO, Sérgio; CRÔNICA DA FERROVIA, Rio de Janeiro, 1984, pg.s 38/39)

Anúncios