Mais sabedoria, mais sofrimento.

Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Eclesiastes, Cap. 1(linguagem de hoje):

12 Eu, o Sábio, fui rei de Israel, em Jerusalém.

13 E resolvi examinar e estudar tudo o que se faz neste mundo. Que serviço cansativo é este que Deus nos deu!

14 Eu tenho visto tudo o que se faz neste mundo e digo: tudo é ilusão. É tudo como correr atrás do vento.

15 Ninguém pode endireitar o que é torto, nem fazer contas quando faltam os números.

16 E pensei assim: “Eu me tornei um grande homem, muito mais sábio do que todos os que governaram Jerusalém antes de mim. Eu realmente sei o que é a sabedoria e o que é o conhecimento.”

17 Assim, procurei descobrir o que é o conhecimento e a sabedoria, o que é a tolice e a falta de juízo. Mas descobri que isso é o mesmo que correr atrás do vento.

18 Quanto mais sábia é uma pessoa, mais aborrecimentos ela tem; e, quanto mais sabe mais sofre.

Ainda este mesmo trecho escriturístico – prometo que o mudo da próxima vez.

Trago abaixo algumas ilustrações relativas aos três últimos versos, mas, antes, deixo-lhes a sua versão segundo a Bíblia de Jerusalém:

16 Pensei comigo: aqui estou eu com tanta sabedoria acumulada que ultrapassa a dos meus predecessores em Jerusalém; minha mente alcançou muita sabedoria e saber. 17 Por força de trabalho compreendi que a sabedoria e o saber são loucura e tolice. E compreendi que também isso é procura do vento.

18 Muita sabedoria, muito desgosto; aumentando o saber, aumenta-se o sofrer.

E agora, um texto de Agustina Bessa-Luís,  pseudônimo literário de Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa, nascida em 15/outubro/1922, escritora portuguesa, agraciada, em 2004, com o Prêmio Camões. Ela concorda com Eclesiastes.

A Desvantagem da Sabedoria

A sua inteligência estorvava-o. Que podia esperar da sabedoria e das suas cinco propriedades?

Primeiro, ele saberia como tratar os problemas difíceis ligados à conduta humana e ao sentido da vida. Mas isso não era prioritário para ninguém, iam achá-lo desalmado e pôr-lhe toda a espécie de obstáculos pela frente.

Segundo, a sabedoria exprime uma qualidade superior do conhecimento. Antecipa a avaliação das situações, por tudo e nada reanima a atenção dos outros com os seus conselhos. Depressa é tratada como importuna e terá que recuar ao abrigo da frivolidade.

Terceiro, a sabedoria é moderada e vê as coisas em profundidade. É, portanto, inimiga do juízo fácil e das paixões que são requestadas para dar emoção às existências fúteis e cinzentas.

Quarto, a sabedoria é exercida tendo em vista o bem-estar da humanidade. Tem, por isso, mau nome em qualquer publicidade que faz vender produtos de grande lucro, como a guerra, o amor e as máquinas.

Quinto, finalmente: a sabedoria é reconhecida como valor estável pela maioria da população, o que é nocivo para o envolvimento dessa mesma população em qualquer campanha, seja de poder ou de ganho de negócios.

Enfim, ele teria que formar-se e esquecer os seus sonhos de grandeza, porque a sabedoria, nesse campo, não lhe serviria de nada.

Agustina Bessa-Luís, in ‘Antes do Degelo’

Também, no mesmo diapasão está Desiderius Erasmus Roterodamus, conhecido como Erasmo de Roterdão (ou Roterdã), nascido em 27/outubro/1466 e falecido em 12/julho/1536, teólogo e humanista neerlandês.

De Que Vale a Sabedoria ?

Os homens que se entregam à sabedoria são de longe os mais infelizes. Duplamente loucos, esquecem que nasceram homens e querem imitar os deuses poderosos, e a exemplo dos Titãs, armados com as ciências e as artes, declaram guerra à Natureza. Ora, os menos infelizes são aqueles que mais se aproximam da animalidade e da estupidez.

Tentarei fazer-vos entender isto, usando, em vez dos argumentos dos estóicos, um exemplo crasso. Haverá, pelos deuses imortais, espécie mais feliz que os homens a quem o vulgo chama loucos, parvos, imbecis, cognomes belíssimos, na minha opinião? Esta afirmação poderá a princípio parecer insensata e absurda e, no entanto, nada há de mais verdadeiro. Tais homens não receiam a morte, e, por Júpiter! isso já não representa pequena vantagem! A sua consciência não os incomoda. As histórias de fantasmas não os aterrorizam, nem os afeta o medo das aparições e espectros, nem os males que os ameaçam ou a esperança dos bens que poderão vir a receber. Nada, em resumo, os atormenta, isentos dos mil cuidados de que a vida é feita. Ignoram a vergonha, o medo, a ambição, a inveja e chegam mesmo, se são suficientemente estúpidos, a gozar o privilégio, segundo os teólogos, de não cometerem pecados.

Passai agora em revista, ó louco sábio, todas as noites e infinitos dias em que a inquietação crucifica a tua alma. Olha bem para todos os aborrecimentos da tua vida e tenta compreender, enfim, de quantos males eu liberto os meus loucos. Acresce ainda que não só passam o tempo em divertimentos, risos e canções, como levam a todos os que os rodeiam o prazer, os seus jogos, o divertimento e a alegria, como se a indulgência divina os tivesse destinado a afastar a tristeza da vida humana. Além disso, quaisquer que sejam as disposições de uns para os outros, todos os reconhecem como amigos; procuram-nos, adoram-nos, acarinham-nos, gostam de conversar com eles, permitem-lhes que tudo digam e tudo façam. Ninguém os tenta prejudicar e os próprios animais ferozes evitam fazer-lhes mal como se instintivamente os soubessem inofensivos. Estão, com efeito, sob a proteção dos deuses e sobretudo sob a minha égide, rodeados pelo respeito universal.

Erasmo de Roterdão, in “Elogio da Loucura” (fala a Loucura)

Para amenizar um pouquinho, a mesma idéia na visão de Fernando Pessoa:

O mistério do mundo

O mistério do mundo,
O íntimo, horroroso, desolado,
Verdadeiro mistério da existência,
Consiste em haver esse mistério.

Não é a dor de já não poder crer
Que m’oprime, nem a de não saber,
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente,
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério.

Quanto mais fundamente penso, mais
Profundamente me descompreendo.
O saber é a inconsciência de ignorar…

Só a inocência e a ignorância são
Felizes, mas não o sabem. São-no ou não?
Que é ser sem o saber? Ser, como a pedra,
Um lugar, nada mais.

Quanto mais claro
Vejo em mim, mais escuro é o que vejo.
Quanto mais compreendo
Menos me sinto compreendido. Ó horror
paradoxal deste pensar…

Alegres camponesas, raparigas alegres e ditosas,
Como me amarga n’alma essa alegria!

Mas apesar de toda esta bronca contra a sabedoria, há quem a procure diligentemente, como se vê nesta oração dos índios americanos:

Ó Grande Espírito!

Cuja voz ouço nos ventos e cujo sopro dá vida a todo o mundo.
Ouve-me! Sou pequeno e débil.
Preciso da tua força e sabedoria.
Deixa-me caminhar na Beleza, e faz com que os meus olhos
contemplem para todo o sempre o pôr-do-sol vermelho e púrpura.
Faz com que as minhas mãos respeitem todas as coisas que criaste
e que a minha audição esteja atenta para ouvir a tua voz.
Torna-me sábio para que possa compreender
as coisas que ensinaste ao meu povo.
Deixa-me aprender as lições que escondeste
em cada folha e em cada rocha.
Eu busco força, não para ser maior que o meu irmão,
mas para lutar contra o meu maior inimigo – eu.
Faz com que esteja sempre pronto para chegar a ti
com as mãos limpas e olhos retos.
Para que quando a vida se desvanecer, como um pôr-do-sol,
o meu espírito possa chegar a ti sem vergonha.

ESPERO CONTINUAR