Não sei se o sr. Palmeirim leu o Eclesiastes e, aqui, o retratou magnificamente, mas é muito bonito!

Ai! Pobres folhas coitadas,

Sozinhas, abandonadas

Por esse chão!

Tão orfãs e desvalidas,

Andam no mundo perdidas,

Que triste são!

São assim esp’ranças minhas:

Pobres folhas, coitadinhas.

Bem rijo sopra o nordeste

Que os ramos de folhas despe

Passando além;

E as pobres no chão prostradas,

Nem sentidas, nem choradas

São por ninguém!

Assim passa a minha vida,

Nem chorada, nem sentida.

Folhas secas já ornastes,

Já verdes abrilhantastes

Lindo jardim.

Agora…secas, prostradas,

Vos deixam abandonadas

Jazer assim!

Também tive a mesma sorte

Só me resta agora a morte.

Que funda melancolia

Se revela na agonia

Do seu chorar!

Pobres folhas! A vaidade

Ainda as faz sentir saudade

De mais brilhar.

Olhai que o fado tirano

Já vos deu um desengano.

Que vaidades serão estas!

Ontem tudo era festejo;

Mas hoje nem sequer vejo

De vós ter dó.

São tudo galas fingidas.

São tudo ilusões perdidas!

Este mundo é só vaidade:

Apenas reina a maldade

E nada mais.

Quem perdeu a juventude

Não lhe vale da virtude

Deixar sinais.

Hoje…vaidade e riquezas;

Amanhã, fundas tristezas!

Ai! Pobres folhas coitadas,

Sozinhas, abandonadas,

Por esse chão!

São órfãs e desvalidas,

Andam no mundo perdidas.

Que triste são!

Pois será bem magoado

Doravante o nosso fado.

LUÍS AUGUSTO PALMEIRIM (n. 9/8/1825, Lisboa; m. 4/12/1893, Lisboa) – http://lunallena.spaceblog.com.br/