Práticas políticas e desilusão das posses

Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Eclesiastes, Cap. 2 (linguagem de hoje):

1  Então resolvi me divertir e gozar os prazeres da vida. Mas descobri que isso também é ilusão.

2  Cheguei à conclusão de que o riso é tolice e de que o prazer não serve para nada.

3  Procurei ainda descobrir qual a melhor maneira de viver e então resolvi me alegrar com vinho e me divertir. Pensei que talvez fosse essa a melhor coisa que uma pessoa pode fazer durante a sua curta vida aqui na terra.

4  Realizei grandes coisas. Construí casas para mim e fiz plantações de uvas.

5  Plantei jardins e pomares, com todos os tipos de árvores frutíferas.

6  Também construí açudes para regar as plantações.

7  Comprei muitos escravos e além desses tive outros, nascidos na minha casa. Tive mais gado e mais ovelhas do que todas as pessoas que moraram em Jerusalém antes de mim.

8  Também ajuntei para mim prata e ouro dos tesouros dos reis e das terras que governei. Homens e mulheres cantaram para me divertir, e tive todas as mulheres que um homem pode desejar.

9  Sim! Fui grande. Fui mais rico do que todos os que viveram em Jerusalém antes de mim, e nunca me faltou sabedoria.

10  Consegui tudo o que desejei. Não neguei a mim mesmo nenhum tipo de prazer. Eu me sentia feliz com o meu trabalho, e essa era a minha recompensa.

11  Mas, quando pensei em todas as coisas que havia feito e no trabalho que tinha tido para conseguir fazê-las, compreendi que tudo aquilo era ilusão, não tinha nenhum proveito. Era como se eu estivesse correndo atrás do vento.

Os versos 4, 5 e 6 falam de coisas úteis que diz ter feito o Coélet (parece que Salomão o fez). Plantou vinhedos, jardins e pomares, e construiu açudes. Na versão acima, diz que construiu casas – mas, ao que tudo indica, não foram habitações populares, tipo CDHU. A Bíblia de Jerusalém diz: ‘Fiz obras magníficas, construí palácios para mim’. Aliás, tudo que fez, deixou isto bem claro, com excesso de repetições, o fez ‘para mim’, isto é, o fez para ele próprio. Afinal, era o Rei (político chefe!), os outros não existiam, só o serviam. Construir, plantar, são coisas boas e ainda que tenha feito só para si, certamente muitos foram beneficiados. Mas que excesso de egoísmo! Isto não é bom nem para os outros e muito menos para ele, pelo menos assim o afirmam todos os especialistas em assuntos espirituais.

No verso 7 fala de suas posses de escravos (humanos) e gado maior e ovelhas. Possuir escravos, hoje, não seria coisa de ‘bom tom’ e, talvez por esta razão, algumas versões bíblicas minimizem a informação dizendo: ‘Adquiri servos e servas, e tive servos nascidos em casa’. Àquela época estas coisas eram feitas às claras. Hoje, muitos que têm poder, contratam ‘colaboradores’, com carteira assinada e tudo, por um custo muito menor.

Verso 8: acho que é bom que apreciem outras versões.

Bíblia de Jerusalém:

Acumulei também prata e ouro, as riquezas dos reis e províncias. Escolhi cantores e cantoras e todas as delícias dos homens, toda a abundância dos cofres.”[i]

Edição Ecumênica (Padre Antonio Pereira de Figueiredo):

amontoei para meu uso para meu uso prata e ouro, e as riquezas dos reis e das províncias. Para me lisonjearem os ouvidos escolhi músicos, e cantores, e tudo o mais que faz as delícias dos filhos homens, taças e jarros, de que se compõe uma copa para o serviço do vinho. . .”

Almeida, revista e atualizada:

Amontoei também para mim prata e ouro e tesouros de reis e de províncias; provi-me de cantores e cantoras e das delícias dos filhos dos homens: mulheres e mulheres.”

Almeida Revista e corrigida, edição de 1969:

Amontoei também para mim prata e ouro, e jóias de reis e das províncias; provi-me de cantores e cantoras, e das delícias dos filhos dos homens, e de instrumentos de música de toda a sorte.”

Quando fala da ‘prata e ouro’, parece deixar claro que não tinha nenhum preconceito de surrupiar as Províncias que governava e os Reis que vencia em batalha (para que servem as batalhas?). Aliás, hoje em dia, será que existe tal preconceito? Isto parece ser preconceito de POBRE! Se bem que, civilizadamente, fazem-nos, os nossos governantes, sob o absoluto amparo da Lei (que eles mesmos deliberam e outorgam). Quase sou tentado a citar exemplos vivos, mas me contenho. Na segunda parte do verso, lembra dos músicos, cantores e cantoras que ‘lisonjeavam seus ouvidos’ e, por fim, das delícias dos filhos dos homens: mulheres e mulheres, como diz Almeida Revista e Atualizada. As feministas certamente condenarão este cavalheiro e irão preferir a versão da Bíblia da Barsa: “e tudo o mais que faz as delícias dos filhos homens, taças e jarros, de que se compõe uma copa para o serviço do vinho. . .” Vinho no lugar de mulheres – mas eu acho que foi uma ‘forçada’ nojenta.

O verso 9 traz um resumo de sua ‘jactância’, quer em riquezas, quer em sabedoria.

A primeira parte do verso 10 coloca o Eclesiastes como o mais lídimo representante da hoje popular doutrina de “O Segredo” – tudo o que quis eu consegui -, e termina com uma afirmação que me parece elogiável: “Eu me sentia feliz com o meu trabalho, e essa era a minha recompensa.” Joia, nada melhor do que trabalhar feliz, porque esta felicidade é mesmo a recompensa de seu trabalho – e não precisa nada mais.

O verso 11 é a constatação da sua grande DESILUSÃO com tudo o que construiu para si próprio, com toda riqueza que ajuntou para si próprio.

O Salmista discutiu este assunto. Vamos apreciar trechos do Salmo 49 em duas versões bíblicas, pois uma e outra sempre um esclarecimento adicional.

Versão da Bíblia na linguagem de hoje):

“12 O ser humano, por mais importante que seja, não pode escapar da morte; como os animais morrem, ele também morre.

13 Reparem no que acontece com os que confiam em si mesmos; vejam o fim daqueles que estão satisfeitos com as suas riquezas.

14 O pastor deles – a morte – os leva, e eles são condenados a morrer como se fossem ovelhas. De manhã, as pessoas corretas os vencerão; os corpos deles apodrecerão na sepultura, longe dos seus lares.

. . .

16 Não se preocupem quando alguém fica rico, e a sua riqueza aumenta cada vez mais.

17 Pois, quando morrer, ele não poderá levar nada; a sua riqueza não irá com ele para a sepultura.

18 Ainda que esteja contente com a sua vida e seja elogiado por ter sucesso,

19 ele, quando morrer, vai reunir-se com os seus antepassados no lugar onde a escuridão dura para sempre.

20 O ser humano, por mais importante que seja, não pode escapar da morte; como os animais morrem, ele também morre.

Bíblia de Jerusalém:

“12 Seus túmulos[ii] são para sempre suas casas, suas moradias de geração em geração; e eles davam o próprio nome às suas terras[iii]. . .

13 Mas o homem com seu luxo não entende[iv], é semelhante ao animal mudo. . .

14 E assim caminham, seguros de si mesmos, e terminam, contentes com sua sorte[v].

15 São como o rebanho destinado ao Xeol, a Morte os leva a pastar, os homens retos vão dominá-los. Pela manhã a sua imagem desaparece; o Xeol é a sua residência[vi].

16 Mas Deus resgatará a minha vida das garras do Xeol, e me tomará[vii].

17 Não temas quando um homem enriquece, quando cresce a glória de sua casa:

18 ao morrer nada poderá levar, sua glória não descerá com ele.

19 Enquanto vivia, ele se felicitava – “Eles te aplaudem, pois tudo vai bem para ti!”

20 Ele vai juntar-se à geração dos seus pais, que nunca mais verá a luz.

21 Mas o homem com seu luxo não entende, é semelhante ao animal mudo. . .”

O Salmista tem a visão de vida eterna (veja a nota ‘vii’ abaixo, do rodapé da Bíblia de Jerusalém); é um homem religioso. O Eclesiastes, até aqui, não manifestou qualquer preocupação com os aspectos espirituais da existência. Observe como o Salmista se refere a egomaníacos como ele nos versos 13 e 21 da Bíblia de Jerusalém: “Mas o homem com seu luxo não entende, é semelhante ao animal mudo. . .”

Ao que parece, o luxo, as riquezas, as bajulações os cegam e os deixam surdos. Não percebem o quão efêmera é a deles e a nossa existência. Todo o fruto do seu trabalho só pode ser usufruído aqui, enquanto o permite a própria saúde. Esforçam-se para terem coisas aqui, ‘na carne’ – como diria um crente que se preze -, e se esquecem do espiritual como recomendam os as religiões.

Lembra bem o Salmista: “17 Pois, quando morrer, ele não poderá levar nada; a sua riqueza não irá com ele para a sepultura.” E esta advertência mostra um benefício para os que “aqui ficam”: os que acumularam riquezas deixam-nas para usufruto dos que ainda vivem. Casas, pomares, jardins, açudes, conhecimentos etc., sempre são úteis. E nisto se pode discordar da afirmação do Coélet: “compreendi que tudo aquilo era ilusão, não tinha nenhum proveito”. Não há proveito para quem se foi; pode ser útil para quem ficou.

Li hoje um texto de Jung, obtido no Site http://www.vedanta.pro.br em que fala sobre ‘Ramana Maharshi, o santo hindu’. O finalzinho do seu discurso, acredito, dará um fecho mais que interessante para esta humilde apresentação.

“. . .Ensina-nos a experiência que o homem voltado excessivamente para as coisas exteriores nunca se contentará com o estritamente necessário, ambicionando sempre o mais e o melhor, que ele, fiel aos seus preconceitos, busca no exterior. Assim procedendo, se esquece por completo de que interiormente continua sempre o mesmo, apesar de todos os sucessos exteriores, e é por isso que se queixa de sua pobreza quando só possui um carro, ao invés de dois, como os outros. Não há dúvida de que a vida do homem comporta ainda muitas melhorias e embelezamentos, mas tais coisas perdem o seu sentido quando o homem interior não as acompanha. É claro que saciar-se com todo o “necessário” pode ser uma fonte considerável de bem-estar, mas acima de tudo está o homem interior, proclamando suas exigências que não podem ser satisfeitas com bens exteriores. E quanto menos se prestar ouvidos a essa voz, que ultrapassa a busca incontida das glórias deste mundo, tanto mais homem interior se converterá numa fonte de inexplicáveis fracassos e de incompreendida infelicidade. A tendência ao puramente exterior pode transformar-se em enfermidade incurável, porque ninguém é capaz de compreender por que deve ser causa do próprio sofrimento. Ninguém se espanta com a própria insaciabilidade, considerando-a um seu direito normal, sem perceber que a unilateralidade da dieta psíquica conduz finalmente aos mais graves desequilíbrios. É dessa doença que o ocidental sofre e não descansará enquanto não tiver contaminado o mundo inteiro com sua agitação febril e sua cobiça desenfreada.

É justamente por isso que a sabedoria e a mística do Oriente tem tanta coisa a dizer-nos, embora falem uma linguagem própria e impossível de ser imitada. Elas devem lembrar-nos aquilo que temos de semelhante em nossa cultura, mas que já esquecemos, e dirigir nossa atenção para o destino de nosso homem interior. Não se trata de um mero “document humain“, mas de uma mensagem e de uma advertência ao gênero humano ameaçado de se perder no caos de sua inconsciência e falta de controle.. .”

Texto extraí­do do capí­tulo O Santo Hindu, publicado nas páginas 99 a 108 do livro Psicologia e Religião Oriental (Zur Psychologie westlicher und östlicher Religion), de Carl Gustav Jung (1875-1961), com tradução de Pe. Dom Mateus Ramalho Rocha e revisão de Dora Ferreira da Silva, das Obras Completas de C. G. Jung, volume XI/5, Editora Vozes, 5ª edição, 1991.

ESPERO CONTINUAR.


[i] E traz o esclarecimento: “Segundo o sentido do termo em hebraico pós-bíblico. Outros sugerem: “uma princesa, princesas” ou “uma concubina, concubinas” e pensam no harém de Salomão.

[ii] “túmulos”, versões; “interior”, hebr. (troca de duas letras).

[iii] ESTA NOTA É MINHA: tenho notícias de um político deste nosso Brasil, que por sinal já se fez Imortal, que deu nome seu e de sua família a todos os prédios públicos no Estado onde reinam.

[iv] “entende”, versões (cf. v. 21); “passa a noite”, hebr.

[v] Texto difícil. São propostas outras traduções. O tema é o da falsa confiança dos ricos apegados aos seus bens (v. 7).

[vi] “sua residência”, lit.: “uma residência para eles” (zebul lamô), conj.; “sem residência para ele” (mizebûl lô), hebr. – A manhã é o tempo dos julgamentos escatológicos e do trinfo dos justos (Sl 17.15 +)

[vii] O sábio conta com Deus para escapar do Xeol. Não se pode afirmar que ele entreveja a possibilidade de ser arrebatado ao céu como Henoc (Gn 5:24) e Elias (2Rs 2:3, cf. Sl 16:10 +), mas ele pensa que a sorte final dos justos deve ser diferente da dos ímpios e que a amizade divina não deve cessar. Esta fé ainda implícita numa retribuição futura prepara a revelação posterior da ressurreição dos mortos e da vida eterna (2Mc 7:9 +).

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