Práticas políticas e desilusão das posses

Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Eclesiastes Cap. 2 (Linguagem de hoje):

12 Então comecei a pensar no que é ser sábio e no que é ser tolo ou sem juízo. Por exemplo: será que um rei pode fazer alguma coisa que seja nova? Não! Só pode fazer o que fizeram os reis que reinaram antes dele.

13 E cheguei à conclusão de que a sabedoria é melhor do que a tolice, assim como a luz é melhor do que a escuridão.

14 Os sábios podem ver para onde estão indo, mas os tolos andam na escuridão. Porém eu sei que o mesmo que acontece com os sábios acontece também com os tolos.

15 Aí eu pensei assim: “O que acontece com os tolos vai acontecer comigo também. Então, o que é que eu ganhei sendo tão sábio?” E respondi: “Não ganhei nada!”

16 Ninguém lembra para sempre dos sábios, como ninguém lembra dos tolos. No futuro todos nós seremos esquecidos. Todos morreremos, tanto os sábios como os tolos.

17 Por isso, a vida começou a não valer nada para mim; ela só me havia trazido aborrecimentos. Tudo havia sido ilusão; eu apenas havia corrido atrás do vento.

18 Tudo o que eu tinha e que havia conseguido com o meu trabalho não valia nada para mim. Sabia que teria de deixar tudo para o rei que ficasse no meu lugar.

19  E ele poderia ser um sábio ou um tolo – quem é que sabe? No entanto, ele seria o dono de todas as coisas que eu consegui com o meu trabalho e ficaria com tudo o que a minha sabedoria me deu neste mundo. Tudo é ilusão.

20 Então eu me arrependi de ter trabalhado tanto e fiquei desesperado por causa disso.

21 A gente trabalha com toda a sabedoria, conhecimento e inteligência para conseguir alguma coisa e depois tem de deixar tudo para alguém que não fez nada para merecer aquilo. Isso também é ilusão e não está certo!

22 Nós trabalhamos e nos preocupamos a vida toda e o que é que ganhamos com isso?

23 Tudo o que fazemos na vida não nos traz nada, a não ser preocupações e desgostos. Não podemos descansar, nem de noite. É tudo ilusão.

24 A melhor coisa que alguém pode fazer é comer e beber e se divertir com o dinheiro que ganhou. No entanto, compreendi que mesmo essas coisas vêm de Deus.

25 Sem Deus, como teríamos o que comer ou com que nos divertir?

26 Ele dá sabedoria, conhecimento e felicidade às pessoas de quem ele gosta. Mas Deus faz com que os maus trabalhem, economizem e ajuntem a fim de que a riqueza deles seja dada às pessoas de quem ele gosta mais. Tudo é ilusão. É tudo como correr atrás do vento.

No meu entender o Eclesiastes não é um bom redator. Ele mistura os pensamentos. Acompanhem-me: no verso 12 ele cita um exemplo (coloquei-o em azul) que não esclarece nada acerca de ser sábio, ou tolo ou sem juízo. Deixado de lado este texto, há uma continuidade de diálogo com os versos 13 e 14 e, aí, marca um ponto a favor da sabedoria. Destaco a primeira parte do verso 14 que a Bíblia de Jerusalém redige assim:

“O sábio tem os olhos abertos,

o insensato caminha nas trevas.”

Da segunda metade do verso 14 até o verso 16 o Coélet faz duas constatações que o deprimem: ele (e o que fez) será esquecido; ele, como o tolo e o louco, morrerá. Quanto à primeira parte, deixo-lhe um poemeto, para o consolar:

Poema do alegre desespero

António Gedeão

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,
ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egito
o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heráclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,
e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogênio,
e os poemas de António Gedeão.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

(Obtido no Site Poemas ao Acaso)

Quanto à sua conclusão quanto à morte, quanta perspicácia! E o que esperava o pensador? Até eu sei disso. E se ele lesse o livro sacro dos hebreus, veria que ali afirmam isto com todas as letras. Por exemplo, o Salmo 49, que citei no “post” anterior, declara:

“12 O ser humano, por mais importante que seja, não pode escapar da morte; como os animais morrem, ele também morre.”

E repete:

20 O ser humano, por mais importante que seja, não pode escapar da morte; como os animais morrem, ele também morre.”

Verso 15:“Então, o que é que eu ganhei sendo tão sábio?” E respondi: “Não ganhei nada!” Será que o nosso amigo não está usando uma artimanha para colocar a questão fundamental de todo ser humano: “Qual a finalidade da minha (nossa) existência?

A choradeira continua e no verso 18 introduz uma razão há mais para o seu lamento: “Sabia que teria de deixar tudo para o rei que ficasse no meu lugar.” “E ele poderia ser um sábio ou um tolo!” Ora, se o Eclesiastes se diz ser “rei” deveria estar preocupado com as coisas boas do seu reinado; se não fosse sábio seu sucessor, aquilo que ele fez se perderia. Mas que nada! Nenhuma palavrinha sobre isto: sua única preocupação era com os palácios que construíra – para si, com seus vinhedos, suas oliveiras, seus bosques, seus açudes, seus “jarros, de que se compõe uma copa para o serviço do vinho” (de ouro? prata?). . . quem sabe até com suas concubinas,  e que ficariam de posse de seu sucessor. E, neste caso, que importa se seu sucessor será sábio ou tolo. Que goze de seus bens exaustivamente.

Se só na hora de fechar os olhos para esta existência viu que estas coisas aconteceriam, teria ele, o Pregador, sido tão sábio como se julga? Então, não tem predicados para reclamar .”Isso também é ilusão e não está certo!”  Deveria “viver” o que deduziu: “melhor coisa que alguém pode fazer é comer e beber e se divertir com o dinheiro que ganhou”. Mas é indispensável aqui comentar os versos 20 a 22. Verso 20: “Então eu me arrependi de ter trabalhado tanto e fiquei desesperado por causa disso.” Vamos lembrar, em contraposição ao Coélet, uma sabedoria que tem sido ensinada exaustivamente nos dias de hoje: Faça aquilo, trabalhe naquilo  que lhe traz prazer. Se o fizesse, não teria se arrependido. Mas ‘tadinho’ do Eclesiastes, viveu muitos anos antes de nós! Trabalhou com sabedoria, conhecimento e inteligência todos os anos de sua vida produtiva, mas ‘sem prazer’, logo, arrependeu-se – era de se esperar. O que está no verso 22, escutamos também com muita freqüência:

22 Nós trabalhamos e nos preocupamos a vida toda e o que é que ganhamos com isso.”

Que pena que o Pregador não conheceu Jesus de Nazaré. Veja que coisa linda Ele ensinou:

Mateus 6:

25 Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes?

26 Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves?

27 Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?

28 E por que andais ansiosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam.

29 Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.

30 Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé?

Pelo que esbanja o Pregador, não estaria preocupado com o vestir e o comer, porém, miseravelmente, a sua queixa, sua preocupação, é como se estivesse. Aprenda, pois, com o Cristo.

E finalmente, eis o homem falando em Deus: comer, beber, desfrutar do produto de seu trabalho é dom de Deus!

E termina o capítulo 2 (verso 26) com uma declaração que parece paradoxal com o que falou até aqui: Deus dá sabedoria, alegria, ao homem do seu agrado; ao pecador[i] impõe a tarefa de trabalhar (sem alegria) e acumular riquezas para agraciar aquele que nada fez mas está nas graças de Deus. Neste caso, o Eclesiastes, que se julga um sábio, não o era, mas sim um pecador impenitente, um homem mau,  forçado a acumular bens para seu sucessor. Nesta altura, entra a Bíblia de Jerusalém para ajudar. Esclarece em Nota de rodapé: “Assim falavam os Sábios (referindo-se ao verso 26) para justificar o escândalo das riquezas nas mãos dos ímpios – ([menciona exemplos:

Provérbios 11:8 O homem honesto escapa da angústia, porém o mau a recebe em lugar dele.

Provérbios13:22 O homem bom terá uma herança para deixar para os seus netos, mas a riqueza dos pecadores ficará para as pessoas honestas.

Jó:27:16 “O perverso pode ajuntar prata aos montes, pode ter muita roupa, muita mesmo,

27:17 mas algum dia uma pessoa direita usará essas roupas, e um homem honesto ficará com a prata.])

Coélet ironiza essa posição por causa da insuficiência dessa doutrina.”

Há bom! Então o Coélet continua sendo sábio. Mas a dificuldade que levantou continua sem resposta: qual o “glorioso” destino de tudo que acumulou?

ESPERO CONTINUAR.


[i] A Bíblia na linguagem de hoje fala em “o homem mau”, porém a Bíblia de Jerusalém, fala em “pecador”.

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