Recebi, dias destes, o seguinte pensamento:

‘Para saber quantos amigos você tem, dê uma festa;’
‘Para saber a qualidade deles, fique doente!’
(Autor Desconhecido)

Ouso comentá-lo.

Primeiro: Eu jamais teria coragem de me colocar doente com a finalidade de provar a qualidade de meus amigos. Prefiro ficar sãozinho da silva e, se possível, convidá-los para muitas festas.

Segundo: Se sou amigo de meus amigos, por qual razão eu desejaria que eles despendessem seu tempo (tempo é sempre precioso – embora discorde que seja $$$) na visita a um doente?

Terceiro: Se convido amigos para uma festa, e eles comparecem, já este fato – deles atenderem o meu convite – já não faz completa a expectativa que eu esperava deles? Já não o caracteriza como meu amigo? Não me alegrei com a sua visita, sua participação na minha alegria? Permitam, a este propósito, lembrar um relato bíblico:

Mateus 22:

2  —O Reino do Céu é como um rei que preparou uma festa de casamento para seu filho.

3  Depois mandou os empregados chamarem os convidados, mas eles não quiseram vir.

4  Então mandou outros empregados com o seguinte recado: “Digam aos convidados que tudo está preparado para a festa. Já matei os bezerros e os bois gordos, e tudo está pronto. Que venham à festa!”

5  —Mas os convidados não se importaram com o convite e foram tratar dos seus negócios: um foi para a sua fazenda, e outro, para o seu armazém.

6  Outros agarraram os empregados, bateram neles e os mataram.

7  O rei ficou com tanta raiva, que mandou matar aqueles assassinos e queimar a cidade deles.

8  Depois chamou os seus empregados e disse: “A minha festa de casamento está pronta, mas os convidados não a mereciam.

9  Agora vão pelas ruas e convidem todas as pessoas que vocês encontrarem.”

10  —Então os empregados saíram pelas ruas e reuniram todos os que puderam encontrar, tanto bons como maus. E o salão de festas ficou cheio de gente.

11  Quando o rei entrou para ver os convidados, notou um homem que não estava usando roupas de festa

12  e perguntou: “Amigo, como é que você entrou aqui sem roupas de festa?” —Mas o homem não respondeu nada.

13  Então o rei disse aos empregados: “Amarrem os pés e as mãos deste homem e o joguem fora, na escuridão. Ali ele vai chorar e ranger os dentes de desespero.”

Fica claro que o rei desejava a presença de seus súditos na festança: isto significaria que eram seus amigos. Caso contrário, eram inimigos. E, mais ainda, deveriam vir preparados para a festa, dispostos e prontos a festejar, alegrar-se, participar do ambiente festivo. Não estava em jogo a “medida” da amizade, mas tão somente a disposição para o banquete e a alegria.

Quarto: Ando ressabiado com uma afirmação de um psicólogo renomado, segundo a qual nos chama atenção, nos outros, a falha que temos em nós mesmos. Será que nós visitaríamos, se doente ficassem, todos aqueles que convidamos para as nossa festas?

Quinto: Parece que é uma antiga tradição o atender aos convites festivos e esquivar-se de participar de momentos difíceis. Notório, se me permitem mais uma indicação da tradição cristã, ou melhor, hebraica, é o caso de Jó. Homem importante, no topo da sociedade, bem visto, respeitado. Tinha filhos e, certamente, oferecia festas – quem não se sentiria honrado em participar dos seus momentos felizes. Mas quando caia em desgraça – Há! O relato bíblico é de que apenas 3 corajosos se aventuravam em visitá-lo e dizer abobrinhas, além, naturalmente, de sua desastrada esposa.

Pensando bem, seria interessante, sob o ponto de vista da recuperação da saúde, que muitos visitassem o doente? Todos eles – os doentes – apreciariam o cortejo de interessados em vê-lo abatido, contorcendo-se em dores? Imaginem o caso de uma vaidosa senhora, com mal estares angustiantes, tendo de renovar a maquiagem a cada chegada de conhecida-concorrente acostumada a vê-la deslumbrante em outras ocasiões. Talvez, por razão semelhante, ninguém costuma enviar convite para virem vê-lo quando enfermo.

Deve pesar, ademais, que os nossos momentos mais difíceis, mais angustiantes, devemos enfrentá-los absolutamente sozinhos. Sim! Coragem! Sozinhos! É o caso de Jesus na cruz, sozinho na sua angústia, embora cercado de uma multidão de espectadores.

Sexto: Salvo engano, no mesmo dia em que recebi o pensamento acima – vejam que coincidência -, um outro me chegou às mãos, ou melhor aos olhos, pela internet:

“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.” (O Pequeno Príncipe)

Fez-me lembrar uma sabedoria que hoje se propaga: o nosso crescimento espiritual está intimamente ligado ao nosso relacionamento com as pessoas e cada uma delas, com as quais cruzamos na vida – não importa se no trabalho, no lar, no lazer, na dificuldade, na alegria, na tristeza -, tem um significado, uma importância especial para nós. Não se trata de nos preocuparmos em medir o grau de sua amizade, nem mesmo de sabermos se têm amizade por nós, mas de percebermos, em nós mesmos, o significado desta pessoa para o nosso crescimento.

Concluindo: não seria boa ideia nos tornarmos mais amigos dos nossos amigos, recusando-nos a controlá-los e colocando-os bem junto de nosso coração, independente de qualquer reciprocidade?