Há tempo para tudo

Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Eclesiastes Cap. 3 (Linguagem de hoje):

1  Tudo neste mundo tem o seu tempo;

cada coisa tem a sua ocasião.

2  Há tempo de nascer e tempo de morrer;

tempo de plantar e tempo de arrancar;

3  tempo de matar e tempo de curar;

tempo de derrubar e tempo de construir.

4  Há tempo de ficar triste e tempo de se alegrar;

tempo de chorar e tempo de dançar;

5  tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las;

tempo de abraçar e tempo de afastar.

6  Há tempo de procurar e tempo de perder;

tempo de economizar e tempo de desperdiçar;

7  tempo de rasgar e tempo de remendar;

tempo de ficar calado e tempo de falar.

8  Há tempo de amar e tempo de odiar;

tempo de guerra e tempo de paz.

Ufa! Uma parada na choradeira. Aqui um trecho do Eclesiastes mais conhecido e mais badalado. Dê uma olhada na internet e veja milhares de postagens sobre o assunto. Uma grande maioria se contenta em transcrever o texto – e para que mais, é lindo!; outros o enfeitam com imagens e sons; e é tema de românticas poesias. Os religiosos o comentam: tranqüila abordagem é o da Igreja Adventista:

http://www.cpb.com.br/htdocs/periodicos/licoes/adultos/2007/frlic412007.html

Também gosto do texto.

Mas vejam como se refere a este capítulo 3 a Bíblia de Jerusalém: encima o capítulo com o título “A morte” e faz uma chamada de rodapé com a seguinte análise:

“Metade das ocupações do homem é sinistra, metade de suas ações são gestos de luto. A morte já deixou a sua marca sobre a vida. Esta é uma sequência de atos desconexos (vv.1-8), sem meta (vv. 9-13) a não ser a morte, que, por sua vez, não tem sentido (vv. 14-22).”

É o capítulo visto como um todo. Esta linda introdução leva a conclusões não muito alvissareiras. Mas vamos fazer o seguinte: não deixemos de ter o todo em consideração, mas curtamos a beleza do preâmbulo.

Por força de superficiais leituras heréticas não posso deixar de me reportar a dois “Princípios” do Hermetismo: o da Polaridade e o do Ritmo.

Consideremo-los.

O Principio de Polaridade

Tudo é Duplo; tudo tem pólos; tudo tem o seu oposto;o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados.”

O CAIBALION

Aqui uma desavença com a expressão da Bíblia de Jerusalém: ‘Esta é uma sequência de atos desconexos’. “Amar” e “Odiar”, “Tristeza” e “Alegria”, “Abraçar” e “Afastar”, são opostos que indicam posições, sentimentos, em uma mesma linha, da mesma similitude, apenas de grau, intensidade diferentes. Fala-se da mesma coisa, em momentos distintos – não se trata de atos desconexos, não há incoerência nos postulados. Tanto assim que são apreciados pelas gentes, que as aplicam para todos os seus momentos de vida. Mas a beleza dos opostos é evidenciada, ilustrada, cadenciada, pelo

Principio de Ritmo

“Tudo tem fluxo e refluxo; tudo ,em suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação.”

O CAIBALION

O ritmo embala os corações e torna a declamação do ‘chorar e cantar’, ‘falar e calar’… uma melodia gostosa de se ouvir.

Sendo expressões de opostos, causam ‘dores e alegrias’ – se preferem ‘alegrias e até dores[i]’- que são o cotidiano da existência humana, por isso entendidos, intuídos por todos.

Se movimento é sinal de vida e se o “Há tempo para tudo” é prólogo para considerações sobre a morte, não teria o Coélet (conscientemente?) escolhido, inteligente e trimegisticamente, a Vida, um extremo do pêndulo, para discorrer sobre a Morte – o outro extremo?

Indago ainda se politicamente corretas as afirmações do verso 8: “Há tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz”. O “ódio” pode ser da mesma natureza do “amor”, mas a luta do homem consigo mesmo – para o aperfeiçoamento espiritual – já deveria ter transmudado aquele neste. Já seria tempo de a paz não deixar lugar para a guerra. Ainda não chegamos lá? É pena, mas ao menos podemos considerar a expressão politicamente incorreta, o que já é um avanço.

ESPERO CONTINUAR.


[i] Que exemplo mais edificante: O PARTO!

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