O sentido da morte

Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Eclesiastes Cap. 3 (Linguagem de hoje):

14  Eu sei que tudo o que Deus faz dura para sempre; não podemos acrescentar nada, nem tirar nada. E uma coisa que Deus faz é levar as pessoas a temê-lo.

15  Tudo o que acontece ou que pode acontecer já aconteceu antes. Deus faz com que uma coisa que acontece torne a acontecer.

16  Neste mundo eu também reparei o seguinte: no lugar onde deviam estar a justiça e o direito, o que a gente encontra é a maldade.

17  Então pensei assim: “Deus julgará tanto os bons como os maus porque tudo o que se passa neste mundo, tudo o que a gente faz, acontece na hora que tem de acontecer.”

18  Aí cheguei à conclusão de que Deus está pondo as pessoas à prova para que elas vejam que não são melhores do que os animais.

19  No fim das contas, o mesmo que acontece com as pessoas acontece com os animais. Tanto as pessoas como os animais morrem. O ser humano não leva nenhuma vantagem sobre o animal, pois os dois têm de respirar para viver. Como se vê, tudo é ilusão,

20  pois tanto um como o outro irão para o mesmo lugar, isto é, o pó da terra. Tanto um como o outro vieram de lá e voltarão para lá.

21  Como é que alguém pode ter a certeza de que o sopro de vida do ser humano vai para cima e que o sopro de vida do animal desce para a terra?

22  Assim, eu compreendi que não há nada melhor do que a gente ter prazer no trabalho. Esta é a nossa recompensa. Pois como é que podemos saber o que vai acontecer depois da nossa morte?

Por uma ‘questão de ordem’, entendo que, preliminarmente, deva apresentar a vocês outras traduções do verso 15:

Bíblia de Jerusalém:

O que foi já havia sido; o que será já foi, pois Deus procura o perseguido.”

Edição Ecumênica (Barsa):

“O que foi feito, isto mesmo permanece. As coisas que hão de ser, já foram: e Deus renova aquilo que passou.”

Almeida revista e corrigida:

“O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou.

Fica claro que a tradução do texto não foi fácil. A Bíblia de Jerusalém, no caso, me parece a mais confusa; A Ecumênica, na última afirmação, reitera o dito no início do verso; e Almeida deixa-nos um alerta. Todas, contudo, deixam claro o aspecto cíclico da existência.

Voltemos a apreciar o Capítulo 3 como um todo, lembrando-nos de como se refere a ele a Bíblia de Jerusalém: encima o capítulo com o título “A morte” e faz uma chamada de rodapé com a seguinte análise:

“Metade das ocupações do homem é sinistra, metade de suas ações são gestos de luto. A morte já deixou a sua marca sobre a vida. Esta é uma sequência de atos desconexos (vv.1-8), sem meta (vv. 9-13) a não ser a morte, que, por sua vez, não tem sentido (vv. 14-22).”

Confesso que esta análise me deixa assustado: será que o Coélet está colocando as coisas de maneira tão aterradora? Inicia o Capítulo com a exemplificação dos Princípios da Polaridade e da Vibração – lindo texto, apreciado por mim e por muitos. Analisa o trabalho e o conhecimento humanos, talvez de forma não muito otimista, mas entende que ‘tudo o que (Deus) fez é apropriado ao seu tempo’ e que é dom de Deus que o homem ‘coma e beba e desfrute do produto de seu trabalho’. O que há de sinistro nisto? Porque são gestos de luto? Sim, termina indicando que no final há a morte:

1)Diz o verso 19: “No fim das contas, o mesmo que acontece com as pessoas acontece com os animais. Tanto as pessoas como os animais morrem.” Não faltou dizer que os humanos também nascem exatamente como os animais?Então. . . não há o que reclamar;

2) No verso 21 dá o tom apavorante deste desfecho, colocando a dúvida que tira toda perspectiva das esperanças humanas. Mas Eclesiastes não é de entendimento tão radical. Veja como volta ao assunto no final do Livro: Eclesiastes 12:7: ”e o pó volte à terra, como antes, e o Espírito volte a Deus, seu autor.”

Mas pensar sobre a morte é legal. Na realidade é pensar sobre a vida. Vejam as coisas bacanas que encontrei.

Em meados de julho deste ano o Café Filosófico, da Cultura, apresentou uma palestra sobre o assunto. Esta foi a chamada para o programa:
“Por que a morte é sempre vista como uma espécie de escândalo? Por que esse acontecimento banal provoca ao mesmo tempo horror e curiosidade? Os antigos diziam que a filosofia era uma longa meditação sobre a morte; os modernos quiseram afastá-la de suas preocupações; nós, contemporâneos, procuramos bani-la de nosso mundo. Mas a morte se acha profundamente ligada à vida, colocando em causa o sentido da existência, propondo ao homem o desafio de pensar a sua própria condição.”

Destaco: meditar sobre a morte é fazer filosofia.

De Paulo Geraldo:

“Devíamos pensar na morte. Analisá-la. Medi-la. Não como quem mede um inimigo, para ver se é possível derrotá-lo, mas como quem olha para dentro de si mesmo com o objetivo de se conhecer.
De todos os seres vivos, só o homem possui o conhecimento certo de que vai morrer. Esse conhecimento – manifestação da grandeza do homem – é luminoso e útil: permite-nos saber o que somos e o que são realmente todas as coisas; permite-nos tirar conclusões sobre o sentido da nossa existência – temporária, passageira – neste planeta que deambula num universo imenso.”
Bato palmas!

Epicuro:

A morte é meramente a separação dos átomos que nos compõe. Não anuncia, portanto, nem castigos nem recompensas para os homens. Não devemos temer nem a morte e menos ainda, as punições infernais inventadas pela ignorância e pela superstição.”

Pelo menos não há o que temer.

Rubem Alves:

“Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs.”

Do artigo “O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? “,publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12-10-03. fls 3.
Recomendo: dêem uma olhada no texto completo. Veja o Site do autor, indicado no lado direito deste blog.

Mais alguns pensamentos interessantes:

“A morte nos ensina a transitoriedade de todas as coisas.”
Leo Buscaglia

Você possui apenas aquilo que não perderá com a morte; tudo o mais é ilusão.”
Autor desconhecido

“Que o teu trabalho seja perfeito para que, mesmo depois da tua morte, ele permaneça.”

Leonardo da Vinci

Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte.

Sêneca

“A vida é o princípio da morte. A vida só existe em função da morte. A morte é acabar e começar ao mesmo tempo, separação e união mais estreita consigo mesmo.”

Friedrich Novalis

“O homem livre, no que pensa menos é na morte, e a sua sabedoria é uma meditação, não da morte, mas da vida.”

Baruch Espinoza

E, por fim, Pablo Neruda:

Morre lentamente

Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere o preto ao invés do branco,
Ou branco ao invés do preto
E os pingos nos iis à um redemoinho de emoções,
Exatamente a que resgata o brilho nos olhos,
O sorriso nos lábios e coração aos tropeços
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho
Morre lentamente quem não se permite,
Pelo menos uma vez na vida,
Ouvir conselhos sensatos
Morre lentamente quem não viaja,
Não lê, não ouve música,
Quem não encontra graça em si mesmo
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se
Da sua má sorte, ou da chuva incessante
Morre lentamente quem destrói seu amor próprio,
Quem não se deixa ajudar
Morre lentamente quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
Nunca pergunta sobre um assunto que desconhece,
E nem responde quando lhe perguntam sobre algo que sabe
Evitemos a morte em suaves porções,
Recordando sempre que estar vivo exige
Um esforço muito maior que o simples ar que respiramos
Somente com infinita paciência
Conseguiremos a verdadeira felicidade

ESPERO CONTINUAR