Ainda sobre a morte, um texto de Huberto Rohden.

Um dos maiores sofrimentos para muitos é a morte de pessoas queridas da família ou amizade.

E esse sofrimento é agravado pelo espantalho que certos teólogos fazem da morte e daquilo, segundo eles, vem depois da morte. Dizem que a alma se encontrará subitamente com Deus, ou então com o diabo. Quase todos ensinam que, depois do julgamento, a alma vai para um céu eterno, ou então para um inferno eterno.

Um cientista moderno, dr. Raymond Moody Jr., escreveu um livro intitulado “Vida Depois da Vida”, em que ele narra o resultado de centenas de pesquisas e entrevistas com pessoas clinicamente mortas, mas que ‘reviveram’ depois. O livro abrange pessoas de todas as condições sociais e de todas as ideologias religiosas e filosóficas. As narrativas dos ‘redivivos’ coincidem admiravelmente em muitos pontos: quase todos falam de fenômenos ou vultos luminosos que viram; muitos passaram por um túnel escuro que terminava na luz; muitos se encontraram com entidades protetoras e com amigos falecidos. Nenhuma dessas centenas de pessoas, clinicamente mortas e ‘redivivas’ se encontrou com Deus ou com o diabo; nenhuma fala em experiências apavorantes que lhe tivessem acontecido. Parece que para todas essas pessoas a morte era apenas um sono suave e plenamente consciente.

Na realidade a morte não marca nada de definitivo; é apenas uma transição de um modo de existência para outro modo. A morte é comparável ao despimento de uma roupagem e revestimento de outra. A alma, desde que é alma, e não puro espírito, tem sempre o seu corpo, seja de que espécie for. Alma sem corpo seria fantasma – corpo sem alma seria cadáver.

A palavra corpo não deve ser identificada com matéria. Corpo é um revestimento ou invólucro do espírito, desde que o espírito se encarnou, tornando-se alma, isto é, anima, daquilo que anima ou vivifica.

Já no primeiro século, escrevia Paulo de Tarso: “Há muitas espécies de corpo, há corpo material e há corpo espiritual[i]”.

Também a nossa ciência avançada sabe que a matéria pode existir em formas várias.

O que nós, por via de regra, chamamos matéria é o estado mais baixo da vibração, que se tornou perceptível aos sentidos da visão, da audição, do tato, etc. Quando a chamada matéria adquire um grau superior de vibração, é chamada energia, ou, na expressão de Einstein, ‘matéria descongelada’. Quando a energia aumenta de vibração, pode aparecer como luz, que Einstein chama ‘energia descondensada’. A própria luz perceptível vem da luz imperceptível, chamada por alguns de luz cósmica.

Segundo a ciência moderna, as coisas conhecidas da terra provêm dos 92 elementos da química, e estes são manifestações da luz invisível.

O que há para além da luz cósmica não é acessível à ciência.

O corpo humano pode existir em formas várias. A nossa vida terrestre, em corpo material, certamente não é a nossa única existência. A realização plena do homem não pode estar restrita a 30, 50, 80 anos. Ela abrange o ciclo total de milhares de anos ou de séculos. Podemos dizer mesmo que a evolução do home  é sem fim. Somos eternos viajores rumo ao Infinito. E esta viagem ascensional ao Infinito é a nossa vida eterna, que não é uma chegada definitiva, mas uma jornada indefinida, uma sinfonia inacabada.

Se esta viagem é uma sinfonia ou uma disfonia, isto depende do nosso livre arbítrio, da nossa consciência, da nossa atitude livremente creada e mantida. O livre arbítrio não está restrito ao corpo material da vida presente; ele é um atributo inseparável da alma humana.

Tanto o nosso céu como o nosso inferno é uma jornada determinada pelo livre arbítrio. Uma jornada ascensional é céu – uma jornada descensional é inferno.

Não é nenhum Deus externo que nos leva ao céu, nem nos manda ao inferno – é o nosso Deus interno, o nosso Eu humano que faz tudo isto.

Ao nossos defuntos não estão no céu nem no inferno, em sentido teológico, estão em plena jornada evolutiva, ascensional ou descensional.

É de suma importância que o homem inicie o seu céu aqui e agora; assim o continuará facilmente na jornada depois da morte física.

O que interessa aos sobreviventes saber é se, e como, poderão ajudar os seus queridos defuntos.

Toda vibração reforça outra vibração da mesma frequência ou espécie. Esta lei vale tanto na física como na metafísica. Um pensamento, um desejo, um ato de amor, uma prece, uma atitude espiritual são vibrações emitidas por nós – e podem afetar a alma do defunto, suposto que ela tenha para isto a necessária abertura ou receptividade. Nada sabemos dessa receptividade, mas podemos admitir que seja propícia às nossas emissões.

É inevitável que a morte de um ente querido nos cause sofrimento e que sintamos saudades da sua presença perceptível. Pêsames e condolências são do nosso ego motivo, e não são condenáveis. Condenável seria se o nosso sofrimento ou as nossas saudades prevalecessem sobre a atitude do nosso Eu superior.

Quando um homem tem a perspectiva correta sobre a sobrevivência do seu Eu espiritual e de seus defuntos, pode sofrer com certa serenidade a separação deles.

Um dos maiores sofrimentos é, para muitos, a separação de pessoas queridas. E esse sofrimento não é aliviado por meio de pêsames e condolências, que não passam de uma espécie de camuflagem, embora permitida. Nessa hora dolorosa deveríamos atingir as profundezas de uma verdadeira consolação de outra espécie.

As nossas teologias tradicionais pouca consolação podem dar aos sobreviventes enlutados. A ideia de um lugar definitivo, chamado céu, e de uma vida estática, chamada vida eterna, está cedendo aos poucos à verdade de uma evolução indefinida e progressiva rumo ao Infinito. Aqui no planeta Terra estamos nós, os viajores em corpo material; paralelamente, em outras regiões do Universo, estão outros viajores em corpo imaterial, os nossos defuntos, tão vivos como nós, demandando o mesmo destino universal. Nós não estamos realmente separados deles, estamos apenas vivendo numa outra faixa vibratória ou frequência. A ausência material dos nossos defuntos é realmente uma presença imaterial. Sentir essa ausência-presença é questão de refinamento de vibrações humanas. Deveríamos habituar-nos cada vez mais, durante a vida, a não confundir real com material. Uma presença pode ser real sem ser material. A própria ciência nos favorece neste ponto: ela considera a matéria como a coisa menos real de toda as coisas; mais real é a energia (o astral); mais real ainda é a luz. A presença espiritual é a mais real das presenças, a despeito de toda a ausência material.

Um dos nossos costumes mais detestáveis é desesperar-nos à presença de uma morte, fazer cena, cobrir-nos de luto, etc. Povos antigos mais avançados acompanhavam seus defuntos com luzes e flores, com cânticos e leituras religiosas. As auras pesadas produzidas pelo luto, pela tristeza, pelos lamentos dos sobreviventes, podem até ser um empecilho para a alma do falecido e dificultar-lhe a orientação em seu novo ambiente. Silêncio, calma, serenidade, criam um ambiente propício para a alma em transição para outras regiões da existência. Vibrações espirituais, como cânticos e silenciosa meditação, deviam substituir a atmosfera de luto e tristeza, que em geral envolve o velório dos entes queridos que partiram para o além. Para o espírito não há ausência – há presença permanente.

(“PORQUE SOFREMOS”, HUBERTO, Rohden – Martin Claret Editores Ltda., 11ª edição, pg.s 39 a 44)


[i] ICor.15:44

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