A opressão dos poderosos

Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Eclesiastes Cap. 4 (Linguagem de hoje):

1 Então olhei de novo para toda a injustiça que existe neste mundo. Vi muitos sendo explorados e maltratados. Eles choravam, mas ninguém os ajudava. Ninguém os ajudava porque os seus perseguidores tinham o poder do seu lado.

2  Por isso, cheguei a esta conclusão: aqueles que morreram são mais felizes do que os que continuam vivos.

3  Porém mais felizes do que todos são aqueles que ainda não nasceram e que ainda não viram as injustiças que há neste mundo.

4 Também descobri por que as pessoas se esforçam tanto para ter sucesso no seu trabalho: é porque elas querem ser mais do que os outros. Mas tudo é ilusão. É tudo como correr atrás do vento.

5  Dizem que só mesmo um louco chegaria ao ponto de cruzar os braços e passar fome até morrer.

6  Pode ser. Mas é melhor ter pouco numa das mãos, com paz de espírito, do que estar sempre com as duas mãos cheias de trabalho, tentando pegar o vento.

7 Descobri que na vida existe mais uma coisa que não vale a pena:

8  é o homem viver sozinho, sem amigos, sem filhos, sem irmãos, sempre trabalhando e nunca satisfeito com a riqueza que tem. Para que é que ele trabalha tanto, deixando de aproveitar as coisas boas da vida? Isso também é ilusão, é uma triste maneira de viver.

9  É melhor haver dois do que um, porque duas pessoas trabalhando juntas podem ganhar muito mais.

10 Se uma delas cai, a outra a ajuda a se levantar. Mas, se alguém está sozinho e cai, fica em má situação porque não tem ninguém que o ajude a se levantar.

11 Se faz frio, dois podem dormir juntos e se esquentar; mas um sozinho, como é que vai se esquentar?

12 Dois homens podem resistir a um ataque que derrotaria um deles se estivesse sozinho. Uma corda de três cordões é difícil de arrebentar.

A Bíblia de Jerusalém dá ao capítulo 4º do livro de Eclesiastes o subtítulo “A Vida em Sociedade” e o estende até o versículo 8º do capítulo 5º, dividindo-o assim: versos 4:1-12 – Opressão pelo abuso de poder e desamparo do homem isolado; versos 4:13-16 – Maquinações políticas; versos 4:17 até 5:6 – Religiosidade motivada pelo espírito de massa e abuso na prática de fazer promessas; versos 5:7-8 -Tirania do poder. Vamos seguir esta divisão.

Primeiro há que se dar um suspiro de desconsolo com a leitura do verso primeiro. É difícil fazer uma retrospectiva desde os tempos em que o Eclesiastes colocava no ar os seus lamentos para saber se a situação está, hoje, melhor ou não. Também não vem ao caso fazê-lo, pois o importante e dolorido é constatar que o gemido de sofredores continua chegando aos céus. Para falar só de uma parte do problema, alguns dados sobre a Fome:

Há 800 milhões de pessoas desnutridas no mundo;

11mil crianças morrem de fome a cada dia;

Um terço das crianças dos países em desenvolvimento apresentam atraso no crescimento físico e intelectual;

1,3 bilhões de pessoas no mundo não dispõe de água potável;

40% das mulheres de países em desenvolvimento são anêmicas e encontram-se abaixo do peso;

Uma pessoa a cada sete padece de fome no mundo.

No Brasil:

“A desnutrição infantil dá sinais mais claros do problema nas áreas rurais e urbanas.

No Rio de Janeiro, na Cidade de Deus, uma pesquisa realizada em 2008, mostrou que 22% das mais de 2 mil crianças pesquisadas estavam desnutridas.[i]

Em Alagoas, 9,5% das crianças de até 5 anos apresentam desnutrição crônica (baixa altura em relação à idade)[ii].”

Foi fácil conseguir estas informações. Vejam os Sites:

http://www.pime.org.br/mundoemissao/fomesolucao.htm

http://www.actionaid.org.br/Nossaatuba%C3%A7%C3%A3ob/A%C3%A7%C3%A3onacional/AlimentA%C3%87%C3%83ODireitodeTodos/NoBrasil/tabid/148/Default.aspx

Mas não vamos nos alongar, pois a documentação sobre opressão é corriqueira. Convivemos com os oprimidos e opressores.

Comentemos apenas, rapidamente, as soluções encontradas pelo Coélet para este problema, contidas nos versos 2 e 3: 1) aqueles que morreram são mais felizes do que aqueles que continuam vivos; 2) mais felizes ainda são os que não nasceram.

Mais adiante, no Eclesiastes (6:3), se expressa, por outro motivo, esta mesma ideia. Jó também já se encontrara essa mesma solução e a expõe de maneira, a meu ver, bem mais poética – se é que neste assunto haja poesia – ou dramática se preferirem:

Jó 3:

11 Por que não morri eu na madre? Por que não expirei ao sair dela?

12 Por que houve regaço que me acolhesse? E por que peitos, para que eu mamasse?

13 Porque já agora repousaria tranqüilo; dormiria, e, então, haveria para mim descanso,

14 com os reis e conselheiros da terra que para si edificaram mausoléus;

15 ou com os príncipes que tinham ouro e encheram de prata as suas casas;

16 ou, como aborto oculto, eu não existiria, como crianças que nunca viram a luz.

17 Ali, os maus cessam de perturbar, e, ali, repousam os cansados.

18 Ali, os presos juntamente repousam e não ouvem a voz do feitor.

19 Ali, está tanto o pequeno como o grande e o servo livre de seu senhor.

20 Por que se concede luz ao miserável e vida aos amargurados de ânimo,

21 que esperam a morte, e ela não vem? Eles cavam em procura dela mais do que tesouros ocultos.

22 Eles se regozijariam por um túmulo e exultariam se achassem a sepultura.

23 Por que se concede luz ao homem, cujo caminho é oculto, e a quem Deus cercou de todos os lados?

24 Por que em vez do meu pão me vêm gemidos, e os meus lamentos se derramam como água?

25 Aquilo que temo me sobrevém, e o que receio me acontece.

26 Não tenho descanso, nem sossego, nem repouso, e já me vem grande perturbação.

Os amigos de Jó declinam veementemente suas posições contrárias ao sofredor. Há fontes espiritualistas que garantem que os nossos sofrimentos de hoje são frutos de nossas ações passadas; outras dizem que o sofrimento é o método alternativo (se não seguidas as regras que indicam) para nossa correção. No Evangelho de João, capítulo 9º, Jesus afirma que a cegueira do homem à sua frente não era motivada por pecado dele ou de seus pais, mas era para que se manifestasse a glória de Deus. Huberto Rohden entende que Jesus coloca aí a tese do sofrimento-crédito (espero colocar neste blog o texto de Rohden).

No dia 18 de agosto/2010, na entrada Considerações sobre a Morte, Epicuro de Samos, expõe esta opinião:

“Mas pior ainda é aquele que diz: bom seria não ter nascido, mas, uma vez nascido, transpor o mais depressa possível as portas do Hades.

Se ele diz isso com plena convicção, por que não se vai desta vida? Pois é livre para fazê-lo, se for esse realmente seu desejo; mas se o disse por brincadeira, foi um frívolo em falar de coisas que brincadeira não admitem.”

A meu ver, não argumenta, dá paulada.

E eu, que direi? Indagando, preliminarmente, se a opção “não nascer” é possível, digo que me sinto longe ainda de tomar posição neste intrincado problema. Afinal, sou um homem feliz e vou colocar meu dedo na ferida dos outros e fazer julgamento? Será muito mais próprio para mim empenhar-me em aliviar o sofrimento do próximo. Ou não?

ESPERO CONTINUAR


[i] PANUT Avaliação nutricional de crianças de 0 a 5 anos na Cidade de Deus/RJ. Maria Lúcia de Macedo Cardoso [et al]. Rio de Janeiro, 2009.

[ii] Cadernos de Estudos Desenvolvimento social em debate, Nº 4. Brasília, DF. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 2006.

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