Abaixo o texto de Rohden advogando o sofrimento-crédito. Quem puder compreender, compreenda-o!

“Refere o Evangelho que Jesus se encontrou com um cego de nascença. Quiseram os seus discípulos e outros saber do mestre quem é que pecara, esse home ou seus pais, para ele ter nascido cego.

Os consulentes não querem saber se o sofrimento da cegueira era castigo dum pecado, o que para eles era evidente; querem tão-somente saber quem contraíra esse débito moral que esse cego estava pagando, ele mesmo ou seus pais. Que o débito existia parecia estar fora de dúvida, porque sofrimento supõe culpa: onde não há culpa não há sofrimento.

Como se vê, os consulentes só conhecem o caráter negativo do sofrimento; nada sabem do seu aspecto positivo. Que possa haver um sofrimento-crédito lhes é totalmente ignoto; só conhecem um sofrimento-débito.

Supõem eles, além disto, que o homem possa, na vida presente, solver um débito contraído numa vida passada; alguém deixou aquela existência anterior sem estar quite com a justiça cósmica, e tem de saldar a sua dívida na atual existência terrestre. A ideia da reencarnação é tão antiga como a própria humanidade pensante, patrimônio geral de muitas das antigas religiões e filosofias.

Supõe esta pergunta ainda a possibilidade de não ter o homem contraído débito algum, nem na vida atual nem numa existência anterior, mas ter de solver o débito de outros homens, seus pais ou antepassados.

Nesta pergunta, como se vê, temos as duas teorias para explicar o problema do sofrimento humano: a teoria da reencarnação, defendida pela teosofia, pelo espiritismo e ideologias afins – e a doutrina do pecado original, advogada pelas igrejas cristãs, discípulas do apóstolo Paulo.

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E Jesus, que atitude assume? De qual dessas duas doutrinas se confessa adepto? Toma atitude a favor da reencarnação, ou a favor do pecado original? Afirma que o cego está pagando os seus próprios pecados, ou os pecados herdados de seus pais?

Não se declara a favor de nenhuma dessas doutrinas, mas contra ambas.

“Nem ele pecou nem seus pais pecaram, para ele nascer cego!”

O sofrimento desse cego não é pagamento dum débito, nem próprio nem alheio. Que é então? Visa a um crédito! “Isto aconteceu para que nele se revelassem as obras de Deus.”

Jesus declara categoricamente que esse sofrimento tem uma função positiva! Por meio dele se revelam as obras de Deus.

Mas que obras?

Dizem uns que essas obras são os milagres, como esse que Jesus ia realizar: Deus teria feito nascer cego esse homem e o teria deixado nessa cegueira, quiçá uns 40 anos, para que, em momento dado, Jesus tivesse ensejo para realizar um dos seus milagres de cura.

Quem é capaz de aceitar essa explicação, aceite-a – mas saiba que reduz Deus a uma espécie de tirano arbitrário que se diverte com as dores dos seus súditos inermes.

A obra de Deus no homem é a evolução ascensional do ser humano, potencialmente creativo, e que deve tornar-se atualmente creador[i]. Muitos homens, porém, não saem da sua creatividade potencial e entram na creação atual se não passarem por um grande sofrimento.

Verdade é que não é o sofrimento como tal que redime o homem – pode até levá-lo ao suicídio – mas é a atitude positiva que o homem assumir em face do sofrimento que o redime das suas misérias e o faz entrar na sua glória.

Evidentemente, esse homem nascera cego, não para pagar débitos, próprios ou alheios, mas para realizar créditos. Esse crédito de aperfeiçoamento não era possível senão através do sofrimento. Era esta a obra de Deus que se devia manifestar nesse homem: a sua evolução espiritual.

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Um dos mais esplêndidos livros do Antigo Testamento, obra-prima da literatura dramática, versa esse misterioso problema do sofrimento humano. Um abastado e santo fazendeiro gentio, na terra de Huz, perde subitamente toda a sua vasta fortuna, sua saúde e seus filhos; da sua família só lhe ficou, para cúmulo de desgraça, uma mulher insipiente e cínica que nada compreende da alma profunda e sublime de seu esposo.

Sentado num fétido monturo, raspa Job o pus das suas chagas com o caco de um vaso partido, derradeiro vestígio de passadas grandezas – quando aparecem, para o consolar na sua imensa dor, três amigos da vítima, filósofos do oriente. Consternados param ao longe; depois, aproximando-se do infeliz, mudos de dor, sentam-se no chão ao redor dele, sem poderem proferir uma só palavra à vista de tão grande sofrimento.

Finalmente, um dos filósofos abre os lábios e procura elucidar o porquê do sofrimento. O que ele sabe dizer é, em resumo, o seguinte: Deus não castiga inocentes, só castiga culpados.

Replica Job que não tem consciência de pecado que tal sofrimento lhe haja merecido.

Mas o filósofo responde que Job deve ter algum pecado inconsciente, ignorado, pelo qual esteja sofrendo, algum resíduo de “karma negativo”, diriam os hindus, algum débito oculto de existências anteriores, diriam os reencarnistas, débito que, finalmente, na presente encarnação ele deva pagar.

Neste mesmo sentido, com ligeiras variantes, abundam também os outros dois filósofos. Todos os três, portanto, admitem que Job é culpado, consciente ou inconscientemente, que o seu sofrimento é o pagamento de uma divida moral.

Nestas alturas intervém o próprio Deus e rebate com palavras veementes os argumentos dos pretensos exegetas do mistério da dor: Insensatos! Que estais aí a adulterar com palavras tolas a sabedoria dos meus planos?

Declara Deus que o seu servo Job não sofre para pagar algum débito negativo, de tempos passados, mas sim para acumular crédito positivo e glórias futuras.

Implicitamente, diz o mesmo que Jesus disse tangente ao cego de nascença: que esse sofrimento o colheu para que nesse homem se revelassem as obras de Deus.

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Na tarde da primeira Páscoa, deixaram dois discípulos de Jesus a cidade de Jerusalém e foram em demanda da sua aldeia natal, Emaús, profundamente revoltados com os sofrimentos e a morte do profeta de Nazaré, inocente e justo – quando se associou a eles o próprio Jesus, sem que eles o reconhecessem. E começou a expor aos dois, à luz das Escrituras, provando-lhes que “O Cristo devia sofrer tudo isto e assim entrar em sua glória.”

Nenhuma palavra sobre débito! Jesus sofreu tudo aquilo – por que? A fim de pagar um débito, próprio ou alheio? Que ele mesmo tivesse débito a saldar, ninguém admite; mas que os seus sofrimentos tinham por fim solver os débitos de terceiros, da humanidade pecadora de todos os tempos, isto é doutrina geral das igrejas cristãs. Entretanto, Jesus não afirma nem isto nem aquilo. Diz simples e positivamente que esse sofrimento era necessário para ele atingir a plenitude da sua evolução e perfeição, que ele chama “glória”. Admite, pois, o sofrimento como um fator de evolução espiritual, isto é, o sofrimento-crédito.

Em síntese: o sofrimento é um elemento evolutivo, tanto em Job, como no cego de nascença, como também em Jesus. O sofrimento, à luz destes textos, atualiza algo que era potencial no homem, despertando do sono o que dormia nas profundezas da alma, tornando visível algo que jazia invisível e latente nos abismos da natureza humana.

Quem puder compreendê-lo compreenda-o!

Enquanto o homem não atingir as alturas do Cristo não compreenderá que o sofrimento – embora possa, em certos casos, ser pagamento de débitos negativos – crea também um crédito positivo, sendo assim uma etapa para o homem “entrar em sua glória” de homem integral.”

FILOSOFIA CÓSMICA DO EVANGELHO, primeiro volume da FILOSOFIA DO EVANGELHO, ROHDEN, Huberto – 1990,  Martin Claret Editores – São Paulo, pg.s 90 a 94.


[i] ADVERTÊNCIA de Rohden: A substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior, porque deturpa o pensamento. CREAR é a manifestação da Essência em forma de existência – CRIAR é a transição de uma existência em outra existência. O Poder Infinito é creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado.