Eclesiastes 4:1 Então olhei de novo para toda a injustiça que existe neste mundo. Vi muitos sendo explorados e maltratados. Eles choravam, mas ninguém os ajudava. Ninguém os ajudava porque os seus perseguidores tinham o poder do seu lado.

ROHDEN:

“Toda vida da natureza em evolução está baseada numa espécie de sorriso sadio.

Não há evolução sem resistência ou sofrimento.

O sofrimento sadio está a serviço da integridade e evolução do corpo. Se um ferimento não causasse dor, nenhum organismo existiria sem lesões corporais.

Na humanidade, porém, aparece um novo motivo de sofrimento[i], que não visa apenas o corpo, mas a realização hominal.

Diz um pensador moderno: “Deus creou o homem o menos possível, para que o homem se possa crear o mais possível.”

Essa transição ascensional do menos para o mais implica em ‘sofrência’, num sofrimento sadio e evolutivo.

Se não houvesse sofrimento na humanidade, haveria eterna estagnação, ou até involução.  Mas as leis cósmicas do Universo exigem imperiosamente evolução.

O centro de todo o homem é o seu Eu espiritual, a sua alma, o seu Deus interno. Mas esse Deus interno no homem se acha, de início, em estado embrionário, meramente potencial. Para desenvolver esse embrião divino, deve o homem atualizar o que é apenas potencial – e isto requer esforço, luta, sofrimento.

Uma semente não pode brotar em planta se não se romper o invólucro duro da semente – e isto lembra um sofrimento.

O destino do homem, aqui na terra, é iniciar a relação de uma natureza, que é a sua felicidade. Esta felicidade é compatível tanto com o gozo como com o sofrimento, porque gozo e sofrimento são atributos do ego periférico, ao passo que felicidade (ou infelicidade) estão no Eu central.

O que mais deve preocupar o homem não é gozo ou sofrimento, mas felicidade ou infelicidade. Feliz é todo homem cuja consciência está em harmonia com a Consciência Cósmica, com a Alma do Universo, com Deus. Gozo e sofrimento, como já dissemos, vêm das circunstâncias externas, que não obedecem ao homem – felicidade ou infelicidade vêm da sua substância interna, que obedecem ao homem.

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Há entre os sofredores três classes: 1) os revoltados; 2) os resignados; 3) os regenerados.

Os revoltados assumem atitude negativa em face do sofrimento, que, por isto, os leva à frustração.

Os resignados assumem atitude de estoicismo passivo, toleram em silêncio o inevitável – estes não se realizam nem se frustram pelo sofrimento, mas ficam num status quo, numa estagnação neutra.

Os regenerados assumem atitude positiva em face do sofrimento, servindo-se dele para sua purificação e maturação espiritual. Para estes, o sofrimento, embora doloroso, conduz à felicidade.

O sofrimento em si não pode perder nem redimir o homem – o homem é que se perde ou que se redime pela atitude que assumir em face do sofrimento.

Disse o Mestre aos discípulos de Emaús:”Não devia o Cristo sofrer tudo isso para entrar em sua glória?” O sofredor sensato compreende estas palavras e pode dizer: não devia eu então sofrer tudo isso para assim entrar na minha realização existencial?

É sabedoria evitar o que é evitável – e tolerar calmamente o que é inevitável.”

PORQUE SOFREMOS – ROHDEN, Huberto; 11ª edição, 1993, Martin Claret Editores – São Paulo, pg.s 17, 18 e 20 (trechos).


[i] O livro traz a expressão “sofrência”, que não foi encontrado no Aurélio, no Uol Houaiss e nem no Michaelis.

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