Desamparo do homem isolado

Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Eclesiastes Cap. 4 (Linguagem de hoje):

7 Descobri que na vida existe mais uma coisa que não vale a pena:

8  é o homem viver sozinho, sem amigos, sem filhos, sem irmãos, sempre trabalhando e nunca satisfeito com a riqueza que tem. Para que é que ele trabalha tanto, deixando de aproveitar as coisas boas da vida? Isso também é ilusão, é uma triste maneira de viver.

9  É melhor haver dois do que um, porque duas pessoas trabalhando juntas podem ganhar muito mais.

10 Se uma delas cai, a outra a ajuda a se levantar. Mas, se alguém está sozinho e cai, fica em má situação porque não tem ninguém que o ajude a se levantar.

11 Se faz frio, dois podem dormir juntos e se esquentar; mas um sozinho, como é que vai se esquentar?

12 Dois homens podem resistir a um ataque que derrotaria um deles se estivesse sozinho. Uma corda de três cordões é difícil de arrebentar.

Lembrando:

A Bíblia de Jerusalém dá ao capítulo 4º do livro de Eclesiastes o subtítulo “A Vida em Sociedade” e o estende até o versículo 8º do capítulo 5º, dividindo-o assim: versos 4:1-12 – Opressão pelo abuso de poder e desamparo do homem isolado; versos 4:13-16 – Maquinações políticas; versos 4:17 até 5:6 – Religiosidade motivada pelo espírito de massa e abuso na prática de fazer promessas; versos 5:7-8 -Tirania do poder. Vamos seguir esta divisão.

Parece-me plausível fazer as seguintes subdivisões no texto que vamos considerar:

DESVANTAGENS DE SE VIVER SÓ:

7 Descobri que na vida existe mais uma coisa que não vale a pena:

8  é o homem viver sozinho, sem amigos, sem filhos, sem irmãos. Isso também é ilusão, é uma triste maneira de viver.

9  É melhor haver dois do que um;

10 Se uma delas cai (uma das pessoas), a outra a ajuda a se levantar. Mas, se alguém está sozinho e cai, fica em má situação porque não tem ninguém que o ajude a se levantar.

11 Se faz frio, dois podem dormir juntos e se esquentar; mas um sozinho, como é que vai se esquentar?

12 Dois homens podem resistir a um ataque que derrotaria um deles se estivesse sozinho. Uma corda de três cordões é difícil de arrebentar.

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RELAÇÃO DO “VIVER SÓ” COM O TRABALHO:

7 Descobri que na vida existe mais uma coisa que não vale a pena:

8…sempre trabalhando e nunca satisfeito com a riqueza que tem. Para que é que ele trabalha tanto, deixando de aproveitar as coisas boas da vida? Isso também é ilusão, é uma triste maneira de viver.

9…         porque duas pessoas trabalhando juntas podem ganhar muito mais.

Separei do texto as expressões que se referem a uma nítida relação com a atividade laboral. Foi feito porque estas já foram comentadas quando abordamos os versos 4 a 6. O verso 8 é um resumo do que pensamos a respeito do envolvimento compulsivo no trabalho – este é um meio, não um fim! E concordamos: nunca se vai contentar com a riqueza que possui; irá privar-se de coisas melhores na vida; é dedicar-se a uma vida triste, sem sentido.

Apesar de já terem sido objeto de considerações, acrescento um texto da Cabala que certamente nos ajudará a pensar:

“A lista dos sucessos da humanidade é paralela à lista de seus desejos. O desejo humano de transportar mercadorias a um passo mais veloz ace­lerou a invenção da roda. E o desejo humano de governar e conquistar foram a força motriz que levou a invenção do canhão na Idade Média.

À medida que o desejo coletivo cresce, as civilizações progridem. A Cabala divide o complexo inteiro de desejos humanos em cinco graus:

Nível 1. Satisfazendo desejos naturais básicos, tais como comida, abrigo e sexo

Nível 2. Lutando para enriquecer.

Nível 3. Necessidade de poder e fama.

Nível 4. Sede por Instrução.

Nível 5. O desejo para a espiritualidade

Uma vez o desejo imediato satisfeito, mesmo assim uma sensação de “vazio” se manifesta. Quanto mais o processo se repete, mais a pessoa é levada a questionar o benefício desse processo de vazio-satisfação-vazio. Quando desistimos de satisfazer os nossos desejos de certo nível, tentamos novamente no próximo nível. E quando os desejos dos pri­meiros quatro níveis terem provado ser todos ineficientes em nos dar uma satisfação duradoura, começamos a perguntar: “Existe algo mais na vida do que correr atrás de bens materiais e posição social? Quando isso acontece, começamos a querer espiritualidade. Na Cabala, esse estado é chamado “o aparecimento do ponto no coração”.

Um Guia Para a Sabedoria Oculta, Terceira Edição, KABBAKLAH PUBLISHERS,  Rav Michael Laitmn, PhD, Cap. 4 – A história dos desejos, Cinco Níveis de Desejos, pg. 42/43

Até onde entendi, Eclesiastes está focado em problemas relacionado aos níveis 1 e 2 do desenvolvimento humano, quiçá tangenciando o nível 3. O bom da história é que, vencida esta etapa, o ser humano estará crescendo em caminho da espiritualidade.

Destacaria o entendimento proposto no verso 9 “porque duas pessoas trabalhando juntas podem ganhar muito mais.” Isto é parcialmente verdade hoje. Pois os empregadores atuais, seja empresas seja governo, se adaptaram ao justo desejo do “sexo fraco” de ‘trabalhar para fora’, com carteira assinada, direitos trabalhistas etc.: os salários do “sexo forte” foram cortados pela metade para que, marido e mulher trabalhando, sustentem a casa. Pelo menos no Brasil não era assim, por exemplo, até o tempo de Getúlio Vargas, que instituiu o “salário mínimo” – este deveria ser o rendimento necessário para o sustento de uma família de marido, mulher e dois filhos. É o que está em nossas leis, mas que, pra que? Ninguém obedece.

Focalizemos agora o Desamparo do homem isolado.

De início, um pensamento interessante:

“O homem que vive sozinho e somente para si tende a se corromper devido a companhia que tem.”
Charles H. Parkhust

Hoje se fala muito em viver sozinho. Mas isto geralmente se refere a viver em uma casa, ou em um apartamento, sozinho, não significando que esteja isolado de pais, parentes, colegas de trabalho, amigos, namorada(o). Muitos moços e moças preferem assim. É apenas um meio de manter o seu espaço próprio.  Mas não é coisa só de gente jovem – por exemplo, cá onde moro, são comuns casos de senhoras(es) viúvas(os), que vivem em casa/apartamento sozinhas(os); mas mantêm contato com a família, com amigos(as) dos grupos de terceira idade, são ativos e felizes. O mais das vezes a opção foi tomada para não interferir na vida de filhos(as), genros, noras… Não se enquadram, entendo, no que prevê o verso 8. Mesmo assim, é bem provável que estejam sujeitos aos inconvenientes apontados nos versos 9 a 12 de Eclesiastes.

Outra forma de viver sozinho é a reclusão voluntária, geralmente por razões tidas como religiosas. Sabe-se que houveram muitos casos destes no passado, e, acredito, ainda os há. Pesquisando a respeito, encontrei um Site budista com uma visão diferente do viver só – anotem este trechinho:

“Senhor Buddha, um de nossos companheiros praticantes chamado Thera, o ancião, gosta de fazer tudo sozinho: caminhada meditativa, refeição meditativa, trabalhando sempre sozinho, e nós não sabemos se viver assim realmente seja viver verdadeiramente só.” E Buddha disse, “Onde este monge está? Peçam-lhe para vir aqui e tomar uma xícara de chá conosco.” Assim os monges foram e convidaram Thera a unir-se a eles, e o Buddha disse, “Eu ouvi que gostas de viver só. Como tu vives por conta própria? Por favor dizei-me.” E Thera disse, “Senhor Buddha, eu me sento em meditação só, eu como sozinho, eu lavo minhas roupas sozinho, eu vou à aldeia para pedir esmolas sozinho “.

E o Buddha disse, “Oh, sendo esta a verdade, então tu realmente vives só. Mas talvez o modo em que vivas só não seja o melhor modo para viver sozinho, há um modo melhor para se viver só.” E então o Buddha recitou um gatha: “Se tu vives sem ser aprisionado pelo passado, não sendo pressionado pelo futuro, não sendo arrebatado pelas formas e imagens do momento presente, vivendo cada momento de sua vida profundamente, este será o verdadeiro modo de viver sozinho.” Quando Thera ouviu isto, soube que tinha estado vivendo só apenas de forma externa, e que havia um modo mais profundo para se viver só.

Conhecendo o Melhor Modo de Viver Sozinho

http://www.nossacasa.net/shunya/default.asp?menu=554

Se puderem, leiam o texto completo. É interessante.

Quanto aos monges católicos, certamente os beneditinos são dos mais representativos. Dividem o seu tempo em oração, estudo e trabalho. Embora o silêncio esteja presente em suas práticas, reservam algum tempo para as atividades recreativas e mesmo para o atendimento de comunidades.  Não me contenho em transcrever uma pequena informação sobre estes irmãos:

“O monge é, pois, aquele que está em busca da sua unidade essencial e existencial, que procura esta unidade fundamental do seu ser em Deus, consigo mesmo, com os demais seres humanos e com o cosmos. O monge alcança a sua unidade sendo um só, com Deus; um só com a humanidade; e um só, com a criação.”

http://www.saobento.org/Vida_Monastica/vida_monastica.htm

Lindo não? E muito atual.

Alguns, contudo, levam o seu isolamento com maior rigor. Mas considerem o que diz abaixo Jean-Yves Leloup a respeito de João Crisóstomo (344 – 407) que no ano de 374 “abandonou o mundo que amava e cujos prazeres sabia apreciar” isolando-se no  deserto:

“Ao meditar com mais profundidade os Evangelhos, no deserto, é que o monge João descobriu o outro, seus sofrimentos e suas necessidades. E o mesmo amor que o conduziu para a solidão, reconduziu-o à cidade: ‘As pessoas que vivem no mundo e os monges têm o mesmo dever de alcançar o mesmo ápice de perfeição[i].’”

INTRODUÇÃO AOS VERDADEIROS FILÓSOFOS; 2ª edição; LELOUP, Jean-Yves; Editora Vozes, 2003, Petrópolis, RJ.

Logo, João Crisóstomo está pensando como o Coélet.

O texto bíblico deixa claro que se refere a uma pessoa que deve viver no mundo que conhecemos, de obrigações e trabalho. Aí o problema fica maior. Trata-se de viver em um deserto de multidões. Vejam isto:

“Meu maior medo é viver sozinho e não ter fé para receber um mundo diferente e não ter paz para se despedir. Meu maior medo é almoçar sozinho, jantar sozinho e me esforçar em me manter ocupado para não provocar compaixão dos garçons. Meu maior medo é ajudar as pessoas porque não sei me ajudar. Meu maior medo é desperdiçar espaço em uma cama de casal, sem acordar durante a chuva mais revolta, sem adormecer diante da chuva mais branda. Meu maior medo é a necessidade de ligar a tevê enquanto tomo banho. Meu maior medo é conversar com o rádio em engarrafamento. Meu maior medo é enfrentar um final de semana sozinho depois de ouvir os programas de meus colegas de trabalho. Meu maior medo é a segunda-feira e me calar para não parecer estranho e anti-social. Meu maior medo é escavar a noite para encontrar um par e voltar mais solteiro do que antes. Meu maior medo é não conseguir acabar uma cerveja sozinho. Meu maior medo é a indecisão ao escolher um presente para mim. Meu maior medo é a expectativa de dar certo na família, que não me deixa ao menos dar errado. Meu maior medo é escutar uma música, entender a letra e faltar uma companhia para concordar comigo. Meu maior medo é que a metade do rosto que apanho com a mão seja convencida a partir com a metade do rosto que não alcanço. Meu maior medo é escrever para não pensar.”

(trecho de Pais e filhos maridos e esposas II)

http://www.imotion.com.br/frases/?p=12038

E o poeta se manifesta:

SOLIDÃO

26/set/2009

Quem vive só num mundo fechado,
Não vive, tenta sobreviver.
Aos medos que se tornam maiores por não ter ninguém ao lado.
Ao pessimismo que se torna maior a cada hora que passa.
A angustia de ver o tempo não passar.
Pois nesse mundo toda hora parece a mesma.

Permanecer só não é viver.
Não deve ser uma opção para se esconder.
Você deve enfrentar o mundo do jeito que ele é.
Dizer pra ele, eu vou sempre continuar.
Ferido ou cicatrizado eu seguirei.
E só jamais ficarei.
Pois com amigos e familiares ficarei.

Quando decidimos viver só.
Nesse momento deixamos de viver.
Passamos a apenas existir.
Viramos um objeto inanimado.
Sem passado, presente e futuro.
Sem uma vida.

http://textosefrases-textosefrases.blogspot.com/2009/09/quem-vive-so-num-mundo-fechado.html

É possível não concordar que “nesta vida ainda existe esta coisa que não vale a pena”?

Finalizamos com um ensinamento da Cabala:

“É de conhecimento comum que os humanos são seres sociais. Nós não podemos sobreviver sem a ajuda dos outros na sociedade. Assim, alguém que subitamente decide se isolar da sociedade será sujeito a uma vida de sofrimento, pois a pessoa não poderá suprir as necessidades dele ou dela.

A natureza nos obriga a viver entre outros como nós, e ao nos relacionar com eles, executar duas operações: receber todas as coisas necessárias da sociedade, e, dar à sociedade o produto de nosso trabalho. A violação de qualquer uma dessas duas regras perturba o equilíbrio da sociedade e, assim então, merece o castigo da sociedade.”

CONCEITOS BÁSICOS DA CABALA,  Rav Michael Laitman, PhD, Cap. 3 A Outorga da Cabala, pg.s 28/29

Convém lembrar que esta dependência não está restrita ao campo físico, material. Segundo a Cabala e outras sabedorias – inclusive a de João Crisóstomo, as almas humanas são parte de uma unidade; assim o desenvolvimento de um ser humano, de uma alma, está mesclado com crescimento de todos os outros seres humanos, de todas as outras almas. Daí se deduz a importância do ensino do CRISTO: “Amai o próximo como a si mesmo”. E botamos uma peninha de nosso egoísmo: não é para ajudar o próximo, é para o nosso próprio bem.

ESPERO CONTINUAR

 


[i] J.Crisóstomo, Contra os adversários da vida monástica, 3, 14-18

 

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