Como alimentar a amizade e tornar possível a vida em comum? Em resposta, João Cassiano (365dC – 435dC) propõe 6 princípios: 1) A amizade é um bem tão precioso que deve ser preferido a qualquer coisa de material; 2) Nunca impor sua vontade; 3) Tudo o que é útil e necessário deve ceder lugar ao amor e à paz; 4) Seja qual for o motivo, nunca ficar com raiva; 5) Considerar os defeitos ou pecados do outro como seus; 6) Pensar que, em qualquer instante, podemos emigrar deste mundo.

De maneira especial me impressionou o comentário de Leloup sobre o quinto ponto proposto por Cassiano. Compartilho-o.

No deserto, trata-se de uma regra de ouro: “Nunca acusar os outros, mas sempre auto-acusar-se”; não por sórdido sentimento de culpa ou masoquismo, e sim para descobrir a eficácia não violenta de tal método. Se amo meu próximo como a mim mesmo, tudo o que observo nele, posso observá-lo em mim: “Somos um mesmo corpo, membros uns dos outros”. Aquilo mesmo que pretendo corrigir nele, devo começar por corrigir em mim; ao ser incomodado por determinado defeito de meu amigo, devo superá-lo em mim.

Trata-se aí de uma espécie de “reflexologia” espiritual. No plano fisiológico, a reflexologia parte do princípio de que agir em um membro ou elemento do corpo é uma forma de agir no restante do corpo: a massagem bem localizada da orelha, por exemplo, pode exercer influência no fígado ou nos rins. Tal é, também, de alguma forma, o ensinamento dos Padres da Igreja: empreender a mudança em si mesmo, antes de pretender mudar os outros – “Estás observando uma atitude de orgulho em teu irmãos? Neste caso, arranca em ti todas as raízes dessa atitude. Cupidez em teu irmão? Observa onde se encontra teu desejo. Violência em teu irmão? Fica vigilante a tuas mãos tensas e teus pensamentos assassinos.”

Quando o coração se amplia, ele chega mesmo a sentir-se até “responsável por tudo e por todos”. Cassiano lembrava-se do ensinamento de João Crisóstomo: “O pão que mofa em teu armário é o pão que roubas ao esfomeado; os sapatos que guardas na sapateira são aqueles que roubas ao descalço… Tens galpões para os teus coches e cavalos, mas não tens um cômodo para o pobre que bate à tua porta…”

Lutar contra as injustiças existentes no mundo é começar por combater tudo o que há de injustiça em nós mesmos. Nesse sentido, talvez – e não como uma justificação do egoísmo -, deveria ser compreendido o provérbio: “Caridade bem compreendida começa por si mesmo”. Modificar a terra consiste, antes de tudo, em cultivar, lavrar, lançar semente no pedaço de terra que nos foi confiado. Se dermos crédito aos físicos e às teorias contemporâneas sobre a interconexão de todas as coisa, nada há de menos egoísta do que trabalhar pela própria salvação, ou seja, pela libertação de seus egoísmos: a santidade de uma só pessoa incrementa a santidade de todos. Não seria megalomaníaco o ermita que, em sua gruta, responde à pergunta – “O que está fazendo aqui” – com a seguinte frase: “Estou colocando em ordem o universo”. Cuidar em si dos defeitos do outro ou do mundo, também não carece de bom senso já que o nosso corpo, nosso sopro, nossos pensamentos, nossos sentimentos são espaços do universo nos quais podemos exercer uma certa influência ou poder sem nos arrogarmos qualquer direito em relação ao outro. “Aquele que evita o julgamento de seu irmão e se julga a si mesmo será poupado do juízo final”, afirmavam os antigos; neste aspecto, Cassiano torna-se o eco de tal sabedoria.

INTRODUÇÃO AOS VERDADEIROS FILÓSOFOS; LELOUP, Jean-Yves; Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira; Petrópolis, RJ; Editora Vozes, 2ª edição, 2003. Pg.s162, 163.

 

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