Acabo de ler “Verdadeiros Filósofos, de Jean-Yves Leloup. O capítulo 8º, dedicado a Gregório de Nissa, muito me impressionou, razão pela qual ofereço a vocês um pequeno trecho.

Alguns textos são suficientes para mostrar a riqueza e energia do pensamento de Gregório, assim como o percurso e as etapas do que poderíamos chamar o “Eros gregoriano”, ou seja, o caminho que deve percorrer o desejo do homem em direção à Realidade da qual ele é sedento. Com efeito, para Gregório, a causa do sofrimento e do mal-estar do homem é a sua separação do Real, a saber: a ignorância do Ser de que ele conserva, apesar da espessura do esquecimento, a nostalgia e o desejo. Por seu parentesco com o infinito, o homem transforma-se em um animal insatisfeito, em ser de desejo:

Com efeito, do mesmo modo que, graças aos princípios luminosos de que é constituído, o olho participa da luz e, em virtude desse poder inato, atrai para si aquilo que tem a mesma natureza, assim também uma certa afinidade com o divino foi misturada à natureza humana para lhe inspirar, por meio dessa correspondência, o desejo de se aproximar do que lhe é aparentado (Discurso catequético).

O desejo não surge do homem, mas é criado por essa afinidade com a natureza divina que Deus depositou em nós. Afinal de contas, Deus é que, desta forma, nos atrai para ele: “Assim, o homem foi dotado de vida, de razão, de sabedoria e de todas as vantagens divinas, a fim de cada uma delas faça surgir nele o desejo pelo que lhe é aparentado” (discurso Catequético)

Neste caso, apesar de existir no homem criado à “imagem e semelhança de Deus” um desejo pelo que lhe é aparentado, esse desejo permanece livre. “O homem é um espelho livre”; aliás, esta imagem é familiar para os filósofos da Antiguidade. Na época, o espelho era feito de metal e, na esteira de Plotino, Gregório indicava com precisão que era necessário retirar a ferrugem para que a luz possa refletir-se nele; e, além disso, ainda era necessário orientá-lo. Não basta reconhecer o desejo, ainda é necessário purificá-lo e, em seguida, orientá-lo: “Acaba-se recebendo em si a semelhança do que se observa”.

O espelho voltado para o caos reflete o caos, enquanto voltado para a luz, ele próprio torna-se luz. Tornamo-nos o que observamos, tornamo-nos o que amamos.

Como afirmava o Evangelho: “Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6,21). Daí a importância da vigilância e do discernimento em relação ao “obscuro objeto de nosso desejo”.

O que merece verdadeiramente ser amado? Formular esta pergunta é fazer apelo ao conhecimento, à gnose inspirada que irá iluminar o desejo e a vontade a fim de orientá-los em direção “ao que verdadeiramente é”.

Um texto do Contra Eunômio mostra com clareza as etapas que Abraão percorre a caminho do Real e as mutações do seu desejo. Em primeiro lugar, Abraão observa o que está à sua volta, o movimento de seus rebanhos, o ciúme de suas mulheres, a alternância entre dia e noite, as estrelas mais numerosas do que as areias do deserto.

Em seguida, tendo superado sua sabedoria nativa, quero dizer a filosofia caldeia que se detém nas aparências, Abraão elevou-se acima de tudo que é conhecido pelos sentidos (noites dos sentidos). No entanto, do mesmo modo que a harmonia das maravilhas celestes (objeto da filosofia caldeia) lhe havia fornecido o desejo de ver a beleza sem formas, assim também transformou todas as coisas que tinha conhecido nesta segunda etapa – poder, bondade, asseidade[ii], infinidade (objeto da filosofia simbólica) – em outros tantos degraus para avançar mais longe.

Tendo purificado inteiramente seu espírito de qualquer representação da natureza divina (noite da inteligência) e tendo adquirido uma fé sem mistura e livre de qualquer conceito, ele aceitou como sinal de uma inteligência infalível da divindade o fato de considerá-la superior a qualquer sinal determinado (objeto da filosofia apofática[iii])(Contra Eunômio).

Aqui reconhecemos três ordens da realidade que, na esteira de Abraão podem servir de referência para nossa inteligência e nosso desejo:

  • A realidade fenomenal (as aparências) descrita por Gregório como o objetivo da filosofia caldeia, ciência do que pode ser percebido através dos sentidos ou dos instrumentos que os prolongam. Trata-se, portanto, da realidade apreendida por um tipo de conhecimento científico; encontramo-nos no campo do observável.
  • A realidade evocada pela harmonia, ordem e beleza das formas, objeto do conhecimento noético ou simbólico, realidade inteligível ou “imaginal”: neste aspecto, encontramo-nos no campo dos transcendentais (o Ser, o Belo, o Bem) ou dos arquétipos. Para Gregório, as diferentes abordagens de tais campos “sutis” do Real devem ser consideradas “como outros tantos degraus para avançar mais longe”, na medida em que o espírito está purificado de qualquer representação.
  • A realidade pura a respeito da qual nada é possível dizer, nem pensar, objeto do conhecimento apofático. Passamos do campo do observável para o campo do conceitualizável. Encontramo-nos, agora, no campo do inconcebível.

O tema dos diferentes planos da realidade, harmonizados com diferentes tipos de conhecimento, será retomado por São Boaventura[iv] na Idade Média e, mais recentemente por Ken Wilber. Neste caso, eles falam dos “três olhos do conhecimento”: o olho da ciência, o olho da filosofia e o olho da contemplação. Cada olho desenvolve seu modo de apreensão do Real e a metodologia que lhe é própria; em vez de confundi-las ou estabelecer uma oposição entre elas, trata-se de manter juntos os diversos objetos de nosso desejo, “ordenando-os” e respeitando a especificidade de suas ordens.

Não é possível chegar, de repente, ao Real Absoluto; existe um certo número de “passagens”, de mutações, que devem ser percorridas pelo espírito e pelo desejo.

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INTRODUÇÃO AOS “VERDADEIROS FILÓSOFOS”; Os padres Gregos: um continente esquecido do pensamento ocidental – LELOUP, Jean-Yves; Título original francês: Introduction aux “vrais philosophes” – Les Péres grecs: un continent oublié de la pensée occidentale; tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira; 2ª edição; Editora Vozes – Petrópolis, 2003; capítulo 8º, pg.s 180 a 183.[v]


[i] 2.Psican. Princípio de ação, símbolo do desejo, cuja energia é a libido. [Cf., nesta acepç., tânatos (2).]-Aurélio

[ii] Atributo divino fundamental, que consiste em existir por si próprio. (Aurélio)

[iii] Relativo a, ou que encerra apófase.Apófase: Proposição negativa; negação. (Aurélio)

[iv] São Boaventura (1221-1274), teólogo italiano, foi geral da Ordem dos Franciscanos; suas numerosas obras de teologia, inspiradas pela doutrina de Santo Agostinho, valeram-lhe o cognome de Doutor Seráfico Cf. Le Petit Lar. Op. Cit. (N. do trad.

[v] Obs: Inseri, presunçosamente, algumas notas de esclarecimentos. Estão em negrito.

 

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