Maquinações políticas

Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Lembrando:

A Bíblia de Jerusalém dá ao capítulo 4º do livro de Eclesiastes o subtítulo “A Vida em Sociedade” e o estende até o versículo 8º do capítulo 5º, dividindo-o assim: versos 4:1-12 – Opressão pelo abuso de poder e desamparo do homem isolado; versos 4:13-16 – Maquinações políticas; versos 4:17 até 5:6 – Religiosidade motivada pelo espírito de massa e abuso na prática de fazer promessas; versos 5:7-8 -Tirania do poder. Vamos seguir esta divisão.

Eclesiastes Cap. 4 (Linguagem de hoje):

13 O moço pobre mas sábio vale mais do que o rei velho e sem juízo que já não aceita conselhos.

14 Um homem pode muito bem sair da cadeia e se tornar o rei do seu país, mesmo tendo nascido pobre.

15 Eu pensei em todas as pessoas que vivem neste mundo e imaginei que existe entre elas, em algum lugar, um moço que tomará o lugar do rei.

16 O número de pessoas que um rei governa é muito grande; no entanto, quando deixa de ser rei, ninguém é agradecido pelo que ele fez. É tudo ilusão, é tudo como correr atrás do vento.

Vamos considerar também a versão da Bíblia de Jerusalém:

13 Mais vale um jovem pobre e sábio do que um rei velho e insensato que não sabe aceitar conselhos.

14 Pois eis que alguém saiu do cárcere para reinar, embora tivesse nascido pobre, enquanto outro reinava.

15 Observei todos os seres vivos que se moviam debaixo do sol, acompanhando aquele jovem que lhe sucedera;

16 embora uma multidão inumerável o tivesse precedido, aqueles que o seguiam não se haveriam de alegrar com ele, porque também isso é vaidade e procura do vento.

O verso 13 é praticamente idêntico em ambas as versões. Já os demais, nem tanto. Esta última traz uma chamada de rodapé ao final do verso 14: “Tradução incerta de um texto obscuro”, o que deixa claro a dificuldade dos tradutores. Mas o que me chama a atenção é o fato de que, em nenhum dos textos, existe conteúdo que justifique o sub-título utilizado pela Bíblia de Jerusalém – Maquinações Políticas, conforme foi ‘lembrado’ logo no início desta postagem – vamos esquecê-lo, portanto.

Interessante que, embora feitas as considerações de Eclesiastes em um tempo em que o regime político era o reinado, havia mobilidade social suficiente para que pessoas de classes sociais distintas galgassem o poder supremo, pelo menos para o povo de Israel – o que é muito bom. Felizmente nas democracias de hoje isto também é possível. No Brasil, mesmo, temos o caso de um moço pobre, não muito dado ao trabalho, inculto e que eu não me arriscaria em classificar de sábio, que chegou ao Trono (para reinar!). Não nos espantemos – mais adiante em suas considerações já dizia o Coélet: 10,6 – “O ignorante ocupa altos postos, enquanto ricos (seriam as nossas elites?) vivem no rebaixamento”. De qualquer forma, para ele e para qualquer outro vale a advertência do verso 16 – “é tudo correr atrás do vento”. E que tal lembrar o ensinamento contido em Eclesiástico 10,4: “Nas mãos do Senhor está o governo do mundo: Ele suscita, no tempo oportuno, o homem que convém.”

O verso 13 expressa uma sabedoria universal, também no sentido de que não se refere apenas a um “rei velho” que governa uma nação, mas a qualquer indivíduo que tem a obrigação de ‘reinar’ sobre sua vida. As decisões tomadas a todo momento, são de nossa inteira responsabilidade, logo, “somos reis” de nós mesmos (pelo menos) e não adianta procurar culpados por nossos eventuais fracassos – basta olhar para nós mesmos. O ‘aceitar conselhos’ indica a necessidade de humildade em nossas decisões.

ESPERO CONTINUAR.

 

 

 

Anúncios