Religiosidade motivada pelo espírito de massa e abuso da prática de fazer promessas.

Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Lembrando:

A Bíblia de Jerusalém dá ao capítulo 4º do livro de Eclesiastes o subtítulo “A Vida em Sociedade” e o estende até o versículo 8º do capítulo 5º, dividindo-o assim: versos 4:1-12 – Opressão pelo abuso de poder e desamparo do homem isolado; versos 4:13-16 – Maquinações políticas; versos 4:17 até 5:6 – Religiosidade motivada pelo espírito de massa e abuso na prática de fazer promessas; versos 5:7-8 -Tirania do poder. Vamos seguir esta divisão.

Eclesiastes Cap. 5 (Linguagem de hoje):

1  Tenha cuidado quando for ao Templo. Não ofereça o seu sacrifício como fazem os tolos, que nem sabem que não estão fazendo isso da maneira certa. Vá pronto para ouvir e obedecer a Deus.

2  Pense bem antes de falar e não faça a Deus nenhuma promessa apressada. Deus está no céu, e você, aqui na terra; portanto, fale pouco.

3  Quanto mais você se preocupar, mais pesadelos terá; e, quanto mais você falar, mais tolices dirá.

4 Assim, quando você fizer uma promessa a Deus, cumpra logo essa promessa. Ele não gosta de tolos; portanto, faça o que prometeu.

5  É melhor não prometer nada do que fazer uma promessa e não cumprir.

6  Não deixe que as suas próprias palavras o façam pecar. Assim, você não terá de dizer ao sacerdote que o que você queria dizer não era bem aquilo. Para que fazer Deus ficar irado com você? Por que deixar que ele destrua as coisas que você conseguiu com o seu trabalho?

7  Mesmo nos seus muitos sonhos, em todas as suas ilusões e em tudo o que disser, você deve temer a Deus.

Esclarecimentos: 1) O verso 4:17 na versão da Bíblia de Jerusalém, é o verso 5:1 na versão da Linguagem de Hoje; 2) Acrescentei o verso 7 pois se adéqua melhor ao sub-título deste grupo.

Lembre-se também que no “Sermão…XXIII” foi inserida também a porção bíblica acima na versão da Bíblia de Jerusalém.

Fale pouco.” Eu me lembro de meu pai. Falava pouco – quanta sabedoria! (e eu não sabia).

Tiago 1:19  Sabeis estas coisas, meus amados irmãos. Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.

Prov. 10:19 No muito falar não falta transgressão, mas o que modera os lábios é prudente

Por que as pessoas às vezes falam muito? Seria porque se julgam o ‘centro do universo’, a criatura mais importante do mundo  – talvez nem saibam disto? Ou porque falando se sentem vivas, existindo? Extremo egocentrismo ou medo? Não me arrisco em fazer qualquer afirmação.

Tarcisio Sassara (http://tsassara.wordpress.com/2006/10/03/fale-pouco-fale-o-necessario/)  colocou um artigo em seu Blog sob o título “Fale pouco – fale o necessário”, contando como um vendedor de sapatos deixou de vender-lhe um par de tênis simplesmente porque o saturou com informações e argumentações sobre o que ele já havia escolhido. Mas o articulista aprendeu, mudou muito, conforme seu testemunho, a forma de apresentar suas ideias:

“É bem melhor quando você se adapta a realidade, quando você é novo, quer a atenção, quer que seja reconhecido, porem esquece dos exemplos que a vida lhe dá…

“E agora, faço uma comparação com a forma que agia, pensando: “Porque não fiz o simples trabalho?”

Vocês já ouviram falar de Osho? Não posso privá-los desta historinha:

Perguntaram a Osho: Osho, por que você fala sempre durante noventa minutos?Há muitas razões, mas porque os noventa minutos vão se completar logo, eu lhe falarei só sobre algumas.

A primeira é: depois de trinta minutos, você dorme durante um terço do tempo. Depois de sessenta minutos, dois terços. Depois de noventa minutos, o tempo todo. Então eu tenho que partir.

E a segunda: eu não tenho esposa aqui. Primeiro você terá de ouvir uma história, então você entenderá minha resposta. O que quero dizer quando digo que não tenho uma esposa?

Contam que um grande líder político, sempre que queria falar, costumava prolongar-se e prolongar-se, sem terminar, mas, sempre que sua esposa estava presente, a fala dele era muito curta e suave.

Seu secretário era perfeitamente capaz de entender do que se tratava: quando a esposa estava presente, ele tinha medo.

Assim, não havia curiosidade a respeito disso, mas sobre uma coisa ele tinha grande curiosidade. Antes de o líder começar a falar, a esposa sempre enviava uma pequena nota pelo secretário. Era sempre assim.

Um dia, só por curiosidade, ele olhou para a nota. Não havia muito — só uma única palavra: KISS (“beijo”, em inglês). Ele pensou: “Ela o ama tanto, sempre envia uma nota dizendo ‘KISS’ antes que ele inicie!”

De modo que, certo dia, quando se encontrou sozinho com o líder, ele disse: “O senhor tem uma esposa muito interessante! Vive com ela há trinta anos, e ela ainda é tão romântica — toda vez que você fala, ela envia uma nota dizendo ‘KISS'”.

Mas o político ficou muito triste e disse: “Você não entende. É uma palavra em código: ela significa ‘Keep It Short, Stupid’ (Fale Pouco, Estúpido)”.

http://chicleterosa.blogspot.com/2008/07/quero-algum-que-fale-pouco-mas-com-o.html

Talvez para compensar seu muito falar, quem o faz costuma ser pródigo em promessas. Borbulha os empenhos sem pensar em como cumpri-los e nem mesmo em cumpri-los. Um dos sentidos de ‘promessa’ é ‘palavra de honra’. Atente para dois entendimentos que o Aurélio dá à palavra Honra:

2.Sentimento de dignidade própria que leva o indivíduo a procurar merecer e manter a consideração geral; pundonor, brio:
3.Dignidade, probidade, retidão:

O povo de Israel, segundo os relatos do Velho Testamento, parece que era pródigo em fazer promessas – não qualquer promessa, mas “votos” ao seu Deus, conforme os referidos pelo Eclesiastes no nosso texto. O costume de se entregar o dízimo na casa do Senhor teria se iniciado com um ‘voto’ de Jacó?

Gênesis 28

20 Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comigo, e me guardar nesta jornada que empreendo, e me der pão para comer e roupa que me vista,

21 de maneira que eu volte em paz para a casa de meu pai, então, o SENHOR será o meu Deus;

22 e a pedra, que erigi por coluna, será a Casa de Deus; e, de tudo quanto me concederes, certamente eu te darei o dízimo.

Comum eram os votos de sacrifícios voluntários:

Levítico 7

16  E, se o sacrifício da sua oferta for voto ou oferta voluntária, no dia em que oferecer o seu sacrifício, se comerá; e o que dele ficar também se comerá no dia seguinte

Havia o voto de Nazireu (Israelita, homem ou mulher, que fazia voto de dedicação ao serviço de Deus por algum tempo ou por toda a vida, cf. Nm 6:1-21[i]). Um dos exemplos mais conhecidos é certamente do de Sansão: [Forte? Homem do Sol?], nazireu e juiz, célebre pela sua força física, que usou contra os Filisteus. Traído por Dalila, teve os olhos vazados e ficou preso. Mas sua morte matou mais gente do que durante a sua vida, cf. Jz 13 – 16[ii].

Votos de abstinência também eram comuns:

Números 30

2  Quando um homem fizer voto ao SENHOR ou juramento para obrigar-se a alguma abstinência, não violará a sua palavra; segundo tudo o que prometeu, fará.

De filhos:

1 Samuel 1

11  E fez um voto, dizendo: SENHOR dos Exércitos, se benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua serva te não esqueceres, e lhe deres um filho varão, ao SENHOR o darei por todos os dias da sua vida, e sobre a sua cabeça não passará navalha.

E aconteceram votos absolutamente catastróficos  e que serviram de marco, acredito, para a prudente advertência feita pelo Eclesiastes. Como este:

Juizes 11

30  Fez Jefté um voto ao SENHOR e disse: Se, com efeito, me entregares os filhos de Amom nas minhas mãos,

31  quem primeiro da porta da minha casa me sair ao encontro, voltando eu vitorioso dos filhos de Amom, esse será do SENHOR, e eu o oferecerei em holocausto.

32  Assim, Jefté foi de encontro aos filhos de Amom, a combater contra eles; e o SENHOR os entregou nas mãos de Jefté.

33  Este os derrotou desde Aroer até às proximidades de Minite (vinte cidades ao todo) e até Abel-Queramim; e foi mui grande a derrota. Assim, foram subjugados os filhos de Amom diante dos filhos de Israel.

34  Vindo, pois, Jefté a Mispa, a sua casa, saiu-lhe a filha ao seu encontro, com adufes e com danças; e era ela filha única; não tinha ele outro filho nem filha.

35  Quando a viu, rasgou as suas vestes e disse: Ah! Filha minha, tu me prostras por completo; tu passaste a ser a causa da minha calamidade, porquanto fiz voto ao SENHOR e não tornarei atrás.

36  E ela lhe disse: Pai meu, fizeste voto ao SENHOR; faze, pois, de mim segundo o teu voto; pois o SENHOR te vingou dos teus inimigos, os filhos de Amom.

37  Disse mais a seu pai: Concede-me isto: deixa-me por dois meses, para que eu vá, e desça pelos montes, e chore a minha virgindade, eu e as minhas companheiras.

38  Consentiu ele: Vai. E deixou-a ir por dois meses; então, se foi ela com as suas companheiras e chorou a sua virgindade pelos montes.

39  Ao fim dos dois meses, tornou ela para seu pai, o qual lhe fez segundo o voto por ele proferido; assim, ela jamais foi possuída por varão. Daqui veio o costume em Israel

40  de as filhas de Israel saírem por quatro dias, de ano em ano, a cantar em memória da filha de Jefté, o gileadita.

Os cristãos, mais focados nas regras do Novo Testamento, preferem seguir a orientação de Tiago:

Tiago 5

12  Acima de tudo, porém, meus irmãos, não jureis nem pelo céu, nem pela terra, nem por qualquer outro voto; antes, seja o vosso sim sim, e o vosso não não, para não cairdes em juízo.

ainda que seja comum vermos as promessas de ir todo ano a determinado lugar, subir escadarias de joelhos, praticar determinado número de rezas em ocasiões determinadas etc. etc.

Mas deixando o ambiente do ‘religioso’, convivemos com uma parcela de população que adora fazer promessas: os políticos. É verdade, não as fazem à Divindade, mas ao povo (e espalham que “a voz do povo é a voz de Deus”). Eventualmente (e botem eventual nisto) as cumpre. Levanto aqui uma questão ‘teológica’ que há muito me preocupa: no nosso dia-a-dia seria possível separarmos a vida “espiritual” da vida “material”? No caso específico, promessas feitas ao “povo”, às “pessoas” teriam menos força, menor compromisso, do que as feitas à Divindade? Ainda esquecendo o “SOMOS UM” tão em voga atualmente, que somos filhos de um só CRIADOR, que somos uma ALMA ÚNICA, as promessas feitas à criatura teriam apenas um frágil significado ético, e não religioso? Assumir compromissos, isto é responsabilizar-se pela palavra empenhada, depende do poder de coerção da outra parte envolvida ou decorre da própria estrutura moral de quem deve a obrigação? Mas quem sabe, por questões didáticas, prefiro não macular este texto com promessas de políticos brasileiros, mesmo a título de simples ‘ilustração’.

Pense bem antes de falar e não faça a Deus nenhuma promessa apressada. Deus está no céu, e você, aqui na terra; portanto, fale pouco.

Concordo. E você?

PRETENDO CONTINUAR


[i] De minha Biblia Online, da Sociedade Bíblica do Brasil.

[ii] Idem.

 

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