Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

RIQUEZAS PODEM SER UM MAL

Ecl 5, 9:

Quem ama o dinheiro, dele não se farta; quem ama a abundância, dela não tira nenhum proveito: também isto é vaidade.

No Sermão…XXVI, postado em 20 de março/2011, coloquei todo o texto de Eclesiastes 5, 9 até 6,12, que aborda o tema do Dinheiro – eu preferiria dizer das Riquezas – debaixo da classificação dada pela Bíblia de Jerusalém. Fi-lo pelo respeito e carinho que tenho pelos tradutores desta versão bíblica. Aqui, como em outros momentos, tentaram dar uma ordem lógica ao texto, como se o Pregador, de um púlpito, expusesse um sermão com começo, meio e fim. Talvez eu não tenha o conhecimento suficiente para acompanhá-los. As afirmações do Coélet parecem, para mim, em alguns pontos, afirmações sobre temas que preocupavam a sociedade da época, apenas colecionados adequadamente segundo o tema. Mas o entendimento dos sábios fica exposto para deleite dos mais eruditos do que eu.

Notarão que na Bíblia de Jerusalém todo o texto está classificado como “O DINHEIRO”; o verso acima está encimado com a indicação “Dinheiro mal repartido”. Preferiria que aquele fosse substituído por “RIQUEZAS”. É óbvio que ‘dinheiro’ é um símbolo de riquezas, mas à época da dissertação do livro, não era um bem tão difundido, tanto assim que a sua menção não é tão freqüente. A ‘posição social’ da figura estava melhor associada a outros bens como terras, palácios, rebanhos, pedras preciosas, escravos…. Quanto a indicação “Dinheiro mal repartido” para o verso, entendo-a não adequada, ou seja, o fato de alguém amar o dinheiro e dele não tirar qualquer proveito não dá nenhuma pista para a má distribuição do dinheiro, de recursos.

Justifico, pois, o subtítulo que apontei: Riquezas podem ser um mal. Recorro, inicialmente, a parte da citação feita no final da postagem anterior:

“Uma coisa não pode ser inerentemente boa ou má; é o uso que fazemos dela que pode associá-la a ações justas ou injustas.”

http://www.ecosust.org.br/textos/dinheiro.htm

Ou seja, dinheiro ou qualquer tipo de riqueza não é, em si mesmo, um mal. Quem qualifica ou desqualifica qualquer coisa é sempre o homem. Se este homem acumula bens, ele já praticou uma ação – já tomou uma decisão: se usou de egoísmo, praticou um mal; se utilizou de altruísmo, praticou um bem. E agora resta decidir: acumular bens é uma ação má, isto é, foi tomada por egoísmo, ou é uma boa ação, isto é, foi tomada por altruísmo?

Vamos lembrar uma passagem bíblica. Vocês certamente já ouviram falar do maná:

Êxodos 20:

14 Quando o orvalho secou, por cima da areia do deserto ficou uma coisa parecida com escamas, fina como a geada no chão.

15 Os israelitas viram aquilo e não sabiam o que era. Então perguntaram uns aos outros: —O que é isso? Moisés lhes disse: —Isso é o alimento que o SENHOR está mandando para vocês comerem.

16 Esta é a ordem que ele deu: “Cada um de vocês deverá juntar o que for necessário para comer, de acordo com o número de pessoas que houver na família, dois litros por pessoa.”

20  Mas alguns não obedeceram à ordem de Moisés e guardaram uma parte daquele alimento. E no dia seguinte o que tinha sido guardado estava cheio de bichos e cheirava mal. Aí Moisés ficou muito irritado com eles.

Mais uma vez nos valemos da sabedoria de Paul William Roberts e Syd Kessler:

“Aqueles que ainda pensam – como uma cultura consumista nos insta a pensar – que demais é o suficiente, deveriam lembrar de uma história do Êxodo. Quando os hebreus estão vagando pelo deserto sem comida eram alimentados, eles se vêem alimentados diariamente pela maná que cai milagrosamente do céu; porém, quando resolvem guardar mais da maná do que realmente precisam, não somente essa maná excedente apodrece e se torna não-comestível, mas eles também descobrem que o próprio meio ambiente reage, tornando-se ainda menos propenso a produzir as necessidades vitais. É uma parábola tão profundamente relevante hoje – se não muito mais, e em diversos níveis – como era há 3000 anos.”

http://www.ecosust.org.br/textos/dinheiro.htm

A Campanha da Fraternidade de 2010 usou como tema “Economia e Vida: Vocês Não Podem Servir a Deus e ao Dinheiro”. O Jornal Comércio de Jau fez, a respeito, o seguinte comentário:

“Apesar de afirmarem que não estão propondo um novo modelo econômico, representantes das igrejas criticaram a acumulação de capital e os grandes negócios.”

http://www.comerciodojahu.com.br/novo/14369/CAMPANHA+DA+FRATERNIDADE+FAZ+CRITICA+AO+ACUMULO+DE+RIQUEZA.htm

E outra publicação, dissertando ainda sobre esta Campanha, expressa:

‘O dinheiro “deve ser usado para servir ao bem comum das pessoas, na partilha e na solidariedade.”’

http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=42929

Será que “partilha” e “solidariedade” combinam com acumulação de riquezas? Quem acumula riquezas é capaz de ser altruísta? As versões de Almeida e da Linguagem de Hoje, do texto bíblico correspondente ao epigrafado, não deixam este entendimento:

Linguagem de Hoje:

10 Quem ama o dinheiro nunca ficará satisfeito; quem tem a ambição de ficar rico nunca terá tudo o que quer. Isso também é ilusão.

Almeida Revista e Corrigida (1969)

10 O que amar o dinheiro nunca se fartará de dinheiro; e quem amar a abundância nunca se fartará da renda: também isto é vaidade.

Se o ‘gajo’ fica centrado, obcecado, na obtenção de dinheiro ou qualquer tipo de riqueza, isto para ele será um grande mal – dinheiro, riquezas não são objetivos, são apenas (ou só deveriam ser) resultados de ações benéficas e competentes. Colocados como objetivos já é, em si mesmo, uma perversão de valores, que acarretará outras perversões: estaremos no campo lodoso do egoísmo. Considerem esta consideração do Sr. Luiz Lilienthal, que no seu artigo “ACUMULO”, aponta efeitos colaterais danosos provocados pelo acúmulo de riquezas:

“Acúmulo de riqueza quase sempre tem como efeito colateral acúmulo de poder, que gera atrocidades contra a natureza, contra o homem, contra a terra, contra a humanidade, contra o cidadão; acúmulo de riqueza é quase sempre sinônimo de autoritarismo. Acúmulo de pobreza é sempre sinônimo de miséria, fome, doenças (daquelas “evitáveis”), morte…”

http://www.gestaltsp.com.br/2011/03/23/acumulo-luiz-lilienthal/

O livro de Eclesiastes comentou um outro tipo de efeito colateral maléfico resultante da excessiva preocupação com o acumular riquezas, no seu capítulo 4, verso 8. Por favor, reportem-se ao “Sermão…XXI”, postado em 20 de outubro de 2010.

Estacionei meu carro ao lado de um fusquinha amarelo, bem usado, quase que pedindo uma lataria nova, em cujo vidro haviam coladas, com fita adesiva, folhas de papel de 15×15 cm, já amareladas, nas quais estavam escrito, em letras maiúsculas, a seguinte indagação:

DEUS CRIOU AS PESSOAS PARA QUE AS AMASSEMOS E AS COISAS PARA QUE AS USASSEMOS. PORQUE NÓS AMAMOS AS COISAS E USAMOS AS PESSOAS?”

Aproveitamos a deixa da indagação para introduzir o tema da segunda parte do verso 9,  capítulo 5 do Eclesiastes: “ quem ama a abundância, dela não tira nenhum proveito” . Se o infeliz já havia invertido valores, amando a riqueza – e não o seu próximo -, agora apresenta um quadro de patologia mórbida. Acerta o Pregador quando afirma que da abundância “não tira nenhum proveito”, se a ama doentiamente a ponto de não abrir mão destas ‘riquezas’ nem para seu próprio proveito. Isto é ganância exacerbada, que recebeu o nome de avareza, comportamento apontado pela Igreja Católica como um dos sete pecados capitais.

Informa a Wikipédia:

Para o avaro, os bens materiais deixam de ser um meio para aquisição de bens e serviços e para a satisfação das necessidades, mas um fim em si.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Avareza_(pecado)

Alguns pensamentos esclarecedores sobre este procedimento humano doentio:

“A avareza é um nó corredio que aperta cada dia mais o coração e acaba por sufocar a razão.”

Honoré de Balzac

“A avareza é um tirano bem cruel; manda ajuntar e proíbe o uso daquilo que se junta; visita o desejo e interdiz o gozo.”

Plutarco

O absurdo da avareza está no fato de o avaro viver como pobre e morrer rico.”

Vittorio Buttafava

O avarento vive sempre na pobreza.”

Horácio

“Ser avarento é pior do que ser pobre.”

Textos Judaicos

Mas o Livro Sagrado dos cristãos não diz mais nada sobre o assunto? Precisaria mais do que os ensinos abaixo?

Lucas 12:

15 Então, lhes recomendou: Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui.

16 E lhes proferiu ainda uma parábola, dizendo: O campo de um homem rico produziu com abundância.

17 E arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei, pois não tenho onde recolher os meus frutos?

18 E disse: Farei isto: destruirei os meus celeiros, reconstruí-los-ei maiores e aí recolherei todo o meu produto e todos os meus bens.

19 Então, direi à minha alma: tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.

20 Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?

21 Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus.

I Timóteo 6:

9 Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição.

10 Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores.

Lendo a revista Sophia de jul/set 2010, no artigo A Renovação da Sociedade, assinado por Linda Oliveira, subtítulo Autêntica Espiritualidade, pg. 34, deparei com uma citação de John Ruskin (1819 – 1900):

“NÃO HÁ RIQUEZA, SENÃO A VIDA.”

ESPERO CONTINUAR