O Senhor é quem te guarda

Guardará de todo o mal,

Tua entrada e saída,

Desde agora e até final.

Outro dia fiz uma viagem noturna. O mesmo percurso já fizera anteriormente, também à noite. Da primeira vez não havia nuvens, o céu estava lindamente azul apresentando orgulhoso o seu manto estrelado. A estrada, de padrão paulista, bem sinalizada. O movimento, àquela hora da madrugada, estava fraco. O risco estava em cochilar, ainda mais para quem está sozinho. Para manter-me atento, às vezes gritava ou cantava, alto e bom som.

Desta última vez o tempo estava fechado. Muitas nuvens escuras. Somente se via onde o farol do carro alcançava. A estrada, é óbvio, continuava a mesma e o trafego reduzido, mas o ato de dirigir estava mais tenso. E eu cantava, ou tentava. Lembrava o que aprendera na mocidade, em quartetos e em corais, e. . . desafinava. O verso em epígrafe era, e continua sendo, um dos meus prediletos.

Mas… a mente divagando trouxe-me imagens que me enviaram, na véspera ou em um dos dias anteriores, do cosmos em que habitamos, mostrando o nosso belo planeta azul, depois o sistema solar, a galáxia em que nós giramos e, ainda depois, afastando-se mais e mais. Já no nosso sistema solar, a Terra é um dos menores planetas; visto a certa distância torna-se apenas um pontinho (se afastar mais desaparece). O nosso glorioso sistema solar, dentro da galáxia, também deixa de ser visto, por ser tão minúsculo. E nossa galáxia? Quando as fotos são obtidas de mais distante, pelos mais potentes equipamentos inventados pelos homens, também deixa de ser…

As imagens visavam chamar a atenção para o cuidado que devemos ter com o nosso pontinho azul.

E ai eu pensei: as pessoas olhadas a certa distância, também se tornam um pontinho e mais um pouquinho desaparecem. O mesmo se dá com as nossas vilas, as nossas cidades, os nossos formidáveis conglomerados, estes gigantescos formigueiros humanos. Então: o que é, o que significa, um humano dentro do cosmos? E eu cantando “O Senhor é quem me guarda…O Senhor da Criação”. Quanta petulância! O que ensinamos a uma criança pequena quando uma formiguinha – não precisa ser a saúva – se aproxima dela: “Pisa nela, pisa com força, para ela não te amolar mais…” E, no entanto, seres inexistentes no Universo (neste que estamos começando a conhecer, não sabemos se existem outros), queremos, exigimos, a proteção do Senhor da Criação. QUANTA PETULÂNCIA!!

E me alonguei nas elucubrações. Mais ainda, queremos ser eternos, como Ele. Porque a nossa brilhante capacidade intelectual nos leva a acreditar que o criador deste cosmos – dada a dimensão e a idade desta coisa criada – só pode ser eterno –– e NÓS só podemos ser como Ele, nós temos uma vida eterna. O que é isto?

A imortalidade (ou vida eterna) é o conceito de viver em uma forma física ou espiritual para um comprimento infinito ou inconcebivelmente vasto de tempo.

Como a imortalidade é a negação da mortalidade, não morrer ou não ser sujeito à morte tem sido objeto de fascínio pela humanidade, pelo menos desde o início da História. A Epopeia de Gilgamesh, uma das primeiras obras literárias, que remonta a meados do século XXII a.C., é essencialmente a busca de um herói pela imortalidade.

Isso prevê se é possível existir uma forma de vida humana interminável (sendo até incapaz de terminar), ou se a alma existe e se possui a imortalidade. Esse foi um grande ponto de enfoque da religião, assim como o objeto de especulação, fantasia e debate.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Imortalidade

As religiões, se é que alguém não sabe, costumam afirmar a vida eterna para os humanos – e nem poderia ser diferente, pois existem exatamente por causa disto. Assim é com o Budismo, Cristianismo, Espiritismo, Hinduísmo, Islamismo, Judaísmo, Mormonismo, Taoísmo, Xintoísmo, Zoroastrismo… Quando lia, no Antigo Testamento, a preocupação dos patriarcas em deixar herdeiros e a pecha horrível que sofriam as mulheres que não conseguiam gerar filhos, entendia que a descendência era tida como a forma de “ser eterno”, mas os “ismos” mencionados fazem questão, cada um à sua maneira, de que o próprio indivíduo, cada um de per si, tenha a imortalidade, por exemplo:

Hindus acreditam em uma alma imortal que reencarna após a morte. De acordo com o hinduísmo, as pessoas repetem um processo de vida, morte e renascimento em um ciclo chamado de samsara. Se eles vivem a sua vida de boa índole, o seu carma melhora e a sua estadia na próxima vida será maior e, inversamente menor se eles vivem suas vidas de forma má. Eventualmente, depois de muitas vidas de aperfeiçoar o seu carma, a alma se liberta do ciclo de vida e vai para uma felicidade perpétua

E quem se der ao trabalho de consultar o informe da Wikipédia, notarão que a própria ciência, sempre tida como atéia, pensa seriamente no obter a longevidade incondicional ao ser humano através da Criogenia, da Mind Upload, da Cyborgologia…

Os que acreditam que a morte coloca um ponto final na existência do indivíduo, parece que são minoria. Às vezes até acho que estes amigos são comodistas, pois não precisam se preocupar com o que chamamos mundo espiritual.

E eu, diante da imensidão do Universo, me sentindo menor que o carrapato da pulga do meu gato, acreditando, certamente por força deste imenso desejo coletivo, contra todas as indicações em contrário, que sou ETERNO. Ou melhor, a única indicação a favor é exatamente esta vontade férrea, sobrenatural, profundamente arraigada no que há de mais íntimo nas pessoas, de que são ETERNAS.

O meu único consolo é este: seja lá o que quer que eu deseje, seja lá o que quer que eu pense, não vou mudar nada. AS COISAS SERÃO COMO ESTÃO ESTABELECIDAS PARA SEREM, ou seja, quer eu deseje ser eterno ou não, quer eu pense que a eternidade será assim ou assada, isto não mudará nada em como as coisas de fato serão. Por este único e inabalável motivo, me permitam que eu continue cantarolando:

O Senhor é quem me guarda

Guardará de todo o mal,

Minha entrada e saída,

Desde agora e até final.

É tão bom e tão reconfortante!

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