O DINHEIRO

A maioria das vezes o dinheiro é dilapidado

Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

Ecl 5,10:

Quando aumentam os bens, aumentam aqueles que os comem. Que aproveitam ao seu dono, senão para os ver com seus olhos?

Muito sugestivo, sem dúvida, o subtítulo que a Bíblia de Jerusalém dá a este versículo, especialmente para nós brasileiros diuturnamente bombardeados pelas notícias da dilapidação do dinheiro público. Mas dirão: “Mas o texto não fala de coisa pública e, sim, de ricos esbanjadores”. Concordo e prometo abordar também esta questão, mas O POVO BRASILEIRO – considerando o volume de impostos que recolhe para dar atendimento à saúde das gentes, a educação esmerada de seus filhos, a segurança absoluta dos cidadãos, a aposentadoria nababesca de seus idosos… não deve ser considerado, incontestavelmente, um povo rico? E há toda uma estrutura montada com base em 3 poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário, em cada um dos níveis municipal, estadual e federal, para gerir com proficuidade esta fabulosa riqueza arrecadada. Portanto, me parece oportuno considerar, baseado no versículo em destaque, a dilapidação do dinheiro público. Para ilustrar (ou denegrir) trago trecho de artigo de Almir Pazzianotto Pinto (Ministro do Trabalho e presidente do Tribunal Superior do Trabalho, aposentado), publicado no Correio Braziliense em 11 de fevereiro de 2008, sob o título A ARTE DE FURTAR:

“Disse alguém não haver nada melhor do que gastar o dinheiro alheio. A frase carregada de ironia aplica-se ao Brasil onde fraudar, sonegar, iludir, desviar, mentir, falsificar, integram os costumes luso-brasileiros desde o período colonial. …

… o Padre Antonio Vieira no “Sermão do Bom Ladrão”, pregado em Lisboa no ano de 1655, advertia … àqueles que roubam enquanto governam ou toleram que seus subordinados o façam, que “nem os reis podem ir ao Paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao Inferno sem levar consigo os reis”.

  A utilização de cartões corporativos foi objeto do Decreto nº 3.892, baixado em 2001 com base na Lei nº 8.666/93 sobre licitações e contratos na administração federal. Este decreto alterou, sem ganhos significativos, o de nº 2.809/98, que versa idêntico tema.
A medida do Executivo autoriza o uso do cartão eletrônico para aquisição de passagem aérea e compra de materiais e serviços, e determina ser o ordenador de despesa a autoridade responsável “pela definição e pelos controles dos limites de utilização, vedada sua utilização em finalidade diversa da prevista neste Decreto”.
Descuidou-se, porém, de estabelecer teto às despesas e ao número de privilegiados. Assim se entende como determinado Ministro de Estado gastou R$ 8,30 em tapiocaria, ao passo que certo assessor presidencial teria consumido R$115 mil em supermercados, açougues, bebidas, peixaria, padaria, vídeo locadora, e pequenas outras despesas.
Seriam hoje 11.510 servidores beneficiados com uma espécie singular de “bolsa família” sem controles e sem limites, conforme número divulgado pela revista “Veja” na última edição.
Enquanto escasseiam recursos para atividades como educação, saúde, segurança, transporte, e o governo se vê obrigado a cortar fundo no orçamento, a farra prossegue para confirmar que não há nada mais divertido do que gastar dinheiro alheio, especialmente quando vem do contribuinte.”

http://www.pazzianotto.com.br/fire/artigos.asp?cod=8

E, só para atualizar (o oportuno escrito do Dr. Pazzianotto data de 2008), transcrevo o que se encontra no Blog Brasil Livre e Democrata, postado em 22 de abril de 2011:

CORRUPÇÃO à MODA da CASA

          A Polícia Federal desencadeou uma operação para investigar fraudes em licitações para a contratação de serviços de assessoria jurídica para prefeituras. Mesmo assim, um deputado mineiro, também suspeito de envolvimento com o esquema desarticulado, afirmou que não pretende afastar os servidores investigados.

          A corrupção no Brasil atinge níveis literalmente intoleráveis, campeando por todos os setores da vida pública, dissipando bilhões de reais, que se perdem nas malhas das licitações viciadas, do superfaturamento de obras e serviços contratados pelo Estado, dinheiro dilapidado pelas comissões embutidas nos projetos públicos e pelo tráfico de influência dos atravessadores.

          E quem sofre e perde com isso?

          O povo pobre, sofrido, pacato, porém honrado e operoso.

          Provavelmente, isso vai terminar em nada, uma vez que, no poder público, ninguém ousa debelar tal monstruosidade, a corrupção, que, a partir de certo nível, exige que todos sejam corruptos, e quem se recusa é alvo de pressões insustentáveis.

          A corrupção na administração pública agora é organizada e partidarizada.

          Pela petulância do deputado suspeito, as investigações e o trabalho da Polícia Federal não passarão de uma simples receita de pizza, e, em face dos envolvidos no esquema, com certeza será à moda da casa.

http://brasillivreedemocrata.blogspot.com/2011/04/visao-do-leitor_1464.html

Feito o desabafo, consideremos outros aspectos do nosso versículo. Vamos ver como se expressa a versão bíblica na nossa linguagem atual:

Eclesiastes 5:

(Linguagem de Hoje)

11 – Quanto mais rica é a pessoa, mais bocas tem para alimentar. E o que ela ganha com isso é apenas saber que é mais rica.

Outros são os termos, mas o conteúdo é o mesmo.

Em princípio parece até que o texto diz o óbvio. Afinal, riquezas, dinheiro, não é, preliminarmente, destinado a atender as necessidades básicas das pessoas? E que haja, pois, muitas bocas desfrutando a riqueza. Mas, provavelmente, o autor se refere  não àqueles que, de forma ordeira, correta, honesta, usam os recursos para sua sobrevivência física; refere-se, isto sim, aos supostos ‘aproveitadores’. À época em que o livro de Eclesiastes foi escrito, e até antes, estes já existiam, como dá notícia esta advertência deste (outro?) filho de Davi:

Provérbios 19:

 (Jerusalém)

4 – A riqueza multiplica os amigos, mas o pobre os vizinhos abandonam.

6 – Muitos bajulam o homem generoso, e todos são amigos de quem dá presentes.

Em Eclesiástico igualmente há informação a respeito e, além disso, deixa claro que os ricos mesmos, se aproveitam de outros com o fim de os levarem à bancarrota – não querem concorrentes. A riqueza, o dinheiro é um “status” de poucos privilegiados (se houverem muitos deixa de ser “status”, deixa de ser “privilegio”.

Eclesiástico 13:

(Jerusalém)

3 – O rico…

5 – Se tiveres alguma coisa, ele conviverá contigo e despojar-te-á sem compaixão.

6 – Enquanto precisar de ti, enganar-te-á, sorrir-te-á e dar-te-á esperanças, dirigir-te-á belas palavras e dirá: “O que desejas?”

7 – Humilhar-te-á em seus banquetes até despojar-te por duas ou três vezes, por fim rir-se-á de ti. Depois disso, vendo-te, passará adiante e sacudirá a cabeça por tua causa.

E aqui fica claro que para os afortunados a segunda parte da afirmação do Coélet – E o que ela ganha com isso é apenas saber que é mais ricadeveria ter outra redação: E o que ele ganha com isso é saber que é único e mais rico(Em letras grandes, pois não é coisa desprezível, mas um privilégio).

Mas estamos falando de ricos de outros tempos. Nós certamente já ouvimos falar de famílias ricas do passado que hoje estão reduzidas a quase nada: esbanjaram, dilapidaram suas fortunas ou foram colhidos pela má sorte. Em compensação conhecemos, de igual modo, pessoas e famílias que estão acumulando fortunas, muitas vezes – e na maioria delas – de forma fraudulenta (a família do LULA é hoje a mais notória). Se estas riquezas serão dilapidadas e em quanto tempo não sabemos.

Os noticiários andaram divulgando esta semana que está crescendo o número de bilionários em todo o mundo, especialmente em Países emergentes, como o Brasil. Isto não quer dizer que os pobres estão ficando mais ricos, mas que a quantidade de ricos e o valor do patrimônio deles estão aumentando. Não se deve pensar que isto  decorre somente de procedimentos ilícitos, mas está mais ligado ao funcionamento desta máquina chamada economia (LEMBRE-SE: O Deus do mundo de hoje é o dinheiro). Que bom se estas riquezas fossem aplicadas no atendimento das necessidades básicas de mais pessoas! Mas esta análise não cabe aqui, principalmente pelas minhas limitações.

De qualquer forma podemos dar uma olhadinha nos ricos de hoje. Apreciem este pedacinho do capítulo QUESTÃO DE FÉ (E MUITO DINHEIRO) do livro VOCÊ ESTÁ LOUCO! UMA VIDA ADMINISTRADA DE OUTRA FORMA (Rio de Janeiro: Rocco, 2006, pg.s 165 a 172), de Ricardo Semler:

Paccioli estudou o número áureo, da proporção de 1,68 para um, que aparece, curiosamente, em uma infinidade de casos na natureza (proporção do corpo humano, girassóis, abelhas) e na arquitetura. Mas o que eu chamaria de Parâmetro Vitruviano indica outra coisa importante: que o ser humano só consegue ser feliz na proporção certa. E isso tem a ver com riqueza.

                Os melhores exemplos são moradia e alimentação. Os meus vizinhos servem de exemplo. Um deles tem 11 casas, várias delas na Europa. No entanto, há muitas que ele não visita há dois anos. Claro, de quantas casas alguém consegue usufruir, em vez de simplesmente as colecionar?

                Outro vizinho tem uma mansão que lembra romances de Garcia Márquez, parece construída para abrigar um ditador latino-americano aposentado, em seus labirintos. Onde a família passa a maior parte do tempo? Numa sala pequena de TV, num cantinho acima da escada.

                O mesmo vale para refeições. Ser rico o suficiente para fazer oito refeições por dia não resolve. O mesmo, claro, vale para a saúde, sem falar em felicidade, amor, e outras questões vitais.

                O Parâmetro Vitruviano diz que só é possível ser feliz na proporção divina, ou seja, a altura do teto da sala tem de ser proporcional ao tamanho de uma pessoa, as refeições têm de ser distribuídas apenas de acordo com a fome, e comer folhinhas de ouro não alimenta ninguém.

                É fácil esquecer disso – eu mesmo tenho uma sala com um pé-direito que me surpreende a cada vez que entro nela. Além disso, parece existir uma lei do cosmos que indica que a energia de dinheiro parado, acumulado, não faz bem.

Tenho uma grande admiração por este autor. Dou ênfase ao último parágrafo da citação acima:

Parece existir uma lei do cosmos que indica que a energia de dinheiro parado, acumulado, não faz bem.

ESPERO CONTINUAR