Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

O DINHEIRO

O dinheiro é custoso de ganhar.

Ecl 5,11:

Doce é o sono do operário, quer coma muito ou pouco; quem se farta de riquezas não logra conciliar o sono.

Almeida e a Nova Tradução na Linguagem de Hoje se expressa assim:

  5.12   Doce é o sono do trabalhador, quer coma pouco, quer muito; mas a fartura do rico não o deixa dormir.

  5.12   O trabalhador pode ter pouco ou muito para comer, mas pelo menos dorme bem à noite. Porém o rico se preocupa tanto com as coisas que possui, que nem consegue dormir.

Eu vou preferir esta última: na primeira expressão, me parece que ‘operário’ restringe o personagem enfocado àquele empregado fabril – que não é o caso considerado pelo Coélet, enquanto ‘trabalhador é mais genérico; na segunda afirmação, ’ fartar’ dá a entender que o rico está saciado, satisfeito, empanturrado de bens, o que evidentemente nunca acontece e não é, estou certo, a abordagem do Pregador.

Quem deita com fome, com a barriga roncando, consegue ter bom sono? Quem se empanturra de alimento, tem bom sono? Não acredito. Em um ou outro caso, talvez a fartura de bebida forte consiga dar um sono ‘pesado’, mas repercute em forte dor de cabeça no dia seguinte. O sono ‘doce’, tranqüilo, só é obtido com equilíbrio na alimentação. Assim, o que diz o Eclesiastes só pode ser entendido como força de expressão, baseado em 1) quem trabalhou duro durante o dia, tem de seu corpo a exigência de um descanso reparador; 2) quem se dedicou a seus afazeres com honestidade não tem remorsos a perturbar-lhe o descanso noturno; 3) quem se aplicou em suas obrigações, não teve sobra de tempo para elucubrações, devaneios de grandeza.

Interessante que estando aí a referir-se à paga do trabalhador, somente mencione a porção destinada à alimentação.  Será que, àquela época, fosse esta a única necessidade básica da população não rica? E isto nos leva a considerar um texto da Cabala, que até acredito já o tenha citado, mas é oportuno repeti-lo:

Tudo o que existe em cada mundo é dividido em quatro níveis: Inanimado, Vegetativo, Animal, e Humano. Estes correspondem aos quatro níveis de desejo. De forma similar, cada objeto consiste de quatro subníveis de desejo:

                        A aspiração pela sustentação de sua existência corresponde ao nível inanimado de desenvolvimento.

                        A aspiração pela fartura (riqueza) corresponde ao nível vegetativo de desenvolvimento.

                        A aspiração por poder, fama, e honra corresponde ao nível animal de desenvolvimento.

                        E a aspiração por conhecimento corresponde ao nível humano.

Assim, percebemos que recebemos a primeira parte do desejo – pelo que é necessário e por prazeres animais – de um nível inferior ao nosso. Satisfazemos os desejos por riqueza, poder e honra através de outras pessoas. Os desejos por educação e conhecimento são encontrados através de objetos superiores.

Estariam os pobres daquela época mergulhados somente nas aspirações do subnível do inanimado?

É óbvio que a cultura e as preocupações da época em que foi elaborado o texto não podem ser, nem de longe, comparadas à atual. Mesmo hoje, ainda que fiquemos restritos ao nosso Brasil, basta compararmos o modo de vida nas diferentes regiões e notaremos que as exigências para uma vida razoável são outras. Mas, na média (os economistas são fanáticos em usá-las), na média da população brasileira pode-se verificar que a alimentação corresponde a apenas um terço de suas necessidades básicas. Vejam:

Ponderação dos grupos de produtos para o cálculo do INPC
Alimentação e Bebidas

31,76%

Habitação

18,65%

Artigos de residência

7,43%

Vestuário

5,59%

Transportes

17,56%

Saúde e cuidados pessoais

8,69%

Despesas pessoais

6,08%

Educação

2,56%

Comunicação

1,67%

SOMA

100,00%

Fonte: IBGE

Desde 1940, para protegê-lo do maior poder de decisão do empregador, o trabalhador brasileiro tem direito a um salário mínimo que, segundo a nossa constituição, deve atender as suas necessidades básicas e de sua família (considerada uma família média – 2 filhos, salvo erro):

A nova constituição do Brasil de 1988 estabelece no capítulo II (Direitos Sociais) artigo 6 o direito de todo trabalhador a um salário mínimo. A cláusula IV define o valor do salário como “capaz de atender a suas [do trabalhador] necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social”. Esta cláusula também garante reajustes periódicos a fim de preservar o poder aquisitivo do trabalhador.

É pena que os nossos políticos não dêem muita bola para este artigo constitucional:

Vigência                             Salário mínimo necessário                        Salário mínimo real

Abril/2007 a fevereiro/2008                                       R$ 1748,49                                R$380,00

Março/2008 a janeiro/2009                                        R$ 2025,12                                         R$ 415,00

Fevereiro/2009 a dezembro/2009                          R$ 2039,28                                         R$ 465,00

Janeiro/2010 a fevereiro/2010                                 R$ 1995,28                                         R$ 510,00

Março/2010 a dezembro/2010                                 R$ 2222,99                                         R$ 545,00

Mas é óbvio que o rico, no afã de não se apartar de sua riqueza, sempre irá dar ao pobre o mínimo necessário para que ele seja uma força de trabalho, uma ferramenta para colaborar no aumento de seus bens. Portanto, para que se preocupar com isto…

E quanto aos ricos, coitadinhos, não conseguem dormir à noite: onde guardar esta fortuna, como protegê-la, como triplicá-la? Vocês sabiam que até o rei Davi se angustiava?

SALMO  4

1  OUVE-ME quando eu clamo, ó Deus da minha justiça, na angústia me deste largueza; tem misericórdia de mim e ouve a minha oração.

2  Filhos dos homens, até quando convertereis a minha glória em infâmia? Até quando amareis a vaidade e buscareis a mentira?

Espero que os homens a que se refere não sejam só os pobres, pois, continuando sua prece até dá bons conselhos e termina com uma afirmação muito saudável:

8  Em paz também me deitarei e dormirei, porque só tu, SENHOR, me fazes habitar em segurança.

No SERMÃO anterior já comentamos sobre os portadores de riquezas e, sinceramente, ao contrário do que sugere o subtítulo da Bíblia de Jerusalém, para estes não é tão difícil acumular mais fortuna. Para o pobre sim, concordo com os bibliógrafos, é muito difícil ganhar dinheiro: levantar às 3 da manhã; tomar uma ou duas conduções lotadas; trabalhar 8 horas (pelo menos); tomar 2 ou 3 conduções lotadas e chegar em casa às 10 horas; não ter escola descente para os filhos; não ter com quem deixar os menores e sabê-los à mercê de mal intencionados; não ser assistido por um serviço de saúde minimamente adequado…

Mas voltando aos ricos, para ilustrar minha discordância, faço abaixo um pequeno resumo biográfico de um brasileiro afortunado, com dados obtidos na Wikipédia:

EIKE BATISTA

–              Filho de Eliezer Batista (ex-ministro das Minas e Energia; ex-presidente da Companhia Vale do Rio Doce, então uma empresa estatal).

–              Estudou 3 anos engenharia na Universidade de Aachen, na Alemanha mas acabou desistindo do curso por  considerá-lo muito monótono.

–              Ainda na universidade, começou vendendo seguros de porta em porta na cidade de Aachen. Depois, montou uma espécie de trading, ao negociar produtos estrangeiros com comerciantes da Europa e da África. Iniciou intermediando a venda de diamantes

–              Associou-se a um conhecido garimpeiro de Alta Floresta que permitiu que ele transitasse livremente pelos garimpos da região em troca de obter compradores para o ouro.                Reconhecendo o bom investimento, comprou a mina, o que lhe rendeu um patrimônio de 6 milhões de dólares aos 25 anos (teria pedido, aos 22 anos, um empréstimo de 500 mil dólares a dois joalheiros judeus, obtendo 6 milhões de dólares em apenas um ano).

–              No início dos anos 90, quando possuía uma considerável quantidade de minas, a mineradora canadense Treasure Valley interessou-se pelo negócio, dando a Eike uma participação de 11% da empresa em troca das minas no Brasil. Tornou-se o principal acionista e presidente da empresa cujo nome foi trocado para TVX .

–               Entre 1991 e 1996, o valor da empresa mais que triplicou, mas os negócios na Grécia causaram redução considerável dos lucros e Eike acabou renunciando ao comando da empresa em 2001, que acabou sendo comprada pela Kinross Gold Corp. em junho de 2002 por 875 milhões de dólares canadenses. Eike teria deixado a empresa com mais de um bilhão de dólares.

–              A partir daí, começou a criar novas empresas, ficando famoso no mundo empresarial pela inclinação para assumir riscos. É acusado de usar informações privilegiadas através do cargo do pai na direção da Companhia Vale do Rio Doce, quando começou a negociar com minas de ouro.

–              Em 2011 foi considerado o sortudo mais rico do Brasil, com patrimônio avaliado em US$ 30 bilhões.

Fácil, não?

ESPERO CONTINUAR