Acabei de ler O SAGRADO, de Nilton Bonder. Vocês sabem que sou fã deste Rabino. E, como os últimos ‘post’s’ da série SERMÕES PARA MIM MESMO (eheheh, já é uma série, viram só!) tem falado sobre Dinheiro e Riquezas, não posso deixar de oferecer-lhes apenas um capítulo deste livro (eu preferiria colocar todo o livro, mas a editora Rocco pode não gostar!). De qualquer forma fica a recomendação para que o adquiram e o leiam (depois da degustação do abaixo, duvido que não o façam!).

QUEM É RICO?

 

Aquele que se satisfaz com o que é e tem.

                Esta não é uma medida de quantidade, mas de qualidade. Não se refere a atitudes de conformismo ou de ganância, que são relativas à quantidade. O que se diz aqui é que a riqueza tem a ver com a capacidade de absorver, de usufruir, mas do que acumular e coletar.

                A incapacidade de fastio e satisfação denota situações de poder. Quando a criança começa a deixar o “bolo” para depois, caso tenha vontade mais tarde, demonstra que está mais desejosa de poder do que dos benefícios que alguma coisa possa proporcionar. Está mais no território do poder do que da riqueza. E como vimos acima, este é um território que fomenta frustração e insatisfação.

                Para ser rico é necessário humildade.

                Por humilde entenda-se o contentamento por sermos parte de algo muito belo e maravilhoso. E para termos a consciência de que estamos incluídos nesse conjunto de qualidade que conhecemos como vida, se faz necessário abdicar da busca por poder. Martin Buber dizia que ser humilde não é ser menos do que os outros, mas é definitivamente não ser mais. Essa é uma definição de abdicação de poder a que nos referimos. Por conta de nossa natureza humana, só conheceremos a gratidão e a alegria se renunciarmos ao poder.

                Essa é uma grande confusão de nosso mundo. Os poderosos ou pretendentes ao poder não podem ser ricos. Isso porque ser rico é uma medida de fastio, de preenchimento, e que depende, portanto, de limites. Estes limites estão no bolo que se pode comer no momento, no descanso que se pode usufruir no momento, no prazer do momento e assim por diante. O poder vê no fastio um degrau a um novo possível patamar de fastio. Essa incapacidade de satisfação interdita a riqueza aos poderosos.

                A maior de todas as provas é o temor de perda da riqueza. Esse temor não provém de ser rico, mas do temor de perder o poder que garante o acúmulo e a abastança. O medo da carência não é uma questão de riqueza, mas de poder.

                Satisfazer-se com o que se tem não significa deixar de almejar e esforçar-se para ter o que precisa. Porém, uma vez que os resultados desse esforço se consolidam, devemos gozá-los como verdadeiras riquezas, não caindo na tentação de compará-las com outras riquezas como é usual no campo do poder.

                A experiência da riqueza depende da humildade, que é o sentimento de sermos criaturas, de sermos parte de algo à parte da fonte. Alguém que tenha um par de sapatos e dele usufrua, pode ser mais rico do que alguém que tenha 10 pares de sapatos. Ou uma pessoa que tenha o mesmo que o outro, mas o outro almeje mais, o primeiro indivíduo é mais rico. A medida da carência é o que determina o grau de riqueza.            Quanto mais carência, quanto mais expectativa e falta, menos se é rico.

                O segredo, neste sentido, estimula o desejo daquilo que falta. Não deixe de buscar tudo o que falta na sua vida, apregoa categoricamente. Sim, focalize em tudo que lhe falta e você estará gradativamente ficando mais pobre.

                A outra possibilidade é entrar em contentamento com o que se tem. Tudo o que não se tem é assim sacrificado, posto à parte, como doação.

Comenta o rabino Larry Kushner que os dois primeiros mandamentos são faces de uma mesma verdade. De um lado “Eu sou Deus”, do outro “não deverás ter outros deuses diante de ti”. Como as chances maiores são de que esses “deuses” sejamos nós mesmos, é como se essa verdade estampasse de um lado “Eu sou Deus” e do outro “Você não é”.

Este dizer da “boca” de Deus não é produzido nem por sede de autoridade nem por temor à competição, mas como um direcionamento fundamental para ajudar o ser humano em sua difícil caminhada pela vida.

O teólogo Rubem Alves diz que Deus ao criar os animais tomou em suas mãos porções iguais de desejo e de poder e fez com elas a massa que gerou os leões, as borboletas, os pingüins e os mosquitos. Essa é a razão de estarem sempre felizes e ricos porque o seu desejo é exatamente do tamanho do seu poder. Por isso dormem tranqüilos sem as angústias com o dia de amanhã, recebendo sem pressa as dádivas de cada dia, sejam dores ou prazeres. E mesmo em sua morte, quando o poder que têm começa a se ir, o desejo progressivamente também se apaga. Mas Ele nos fez diferentes. Ele precisava de nós, talvez de nossa espera. E por isso fomos feitos de uma massa diferente: ao muito desejo, imagem e semelhança do desejo de deuses, Ele juntou pouco poder!

Para ser rico um ser humano tem que sacrificar desejos e com isso perceber o sagrado. Ou sacrificar seus poderes para que a humildade o aproxime do sagrado. Como nunca teremos maestria sobre nossos desejos, que por natureza são de magnitude divina, e nem capacidade para ampliar nossos poderes além de abdicá-los, a gestão da riqueza de um ser humano é constante.

Contentar-se com o que tem é a direção do enriquecimento.

Os segredos que estimulam desejos de proporções divinas diante de poderes tão ínfimos, empobrecem terrivelmente um individuo.

O SAGRADO; BONDER, Nilton; Editora Rocco Ltda., Rio de Janeiro; 2007; IV-LEI DA TRAÇÃO, Quem é rico?, pg.s 122 a 125.

 

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