Setenta anos é o tempo de nossa vida,

oitenta anos se ela for vigorosa;

e a maior parte deles é fadiga e mesquinhez,

pois passam depressa, e nós voamos.

Salmo 90:10.

O DINHEIRO ou AS RIQUEZAS

O rico sem sepultura

Ecl 6, 3-6:

Bíblia de Jerusalém

(3) Suponhamos que um homem tenha cem filhos e viva muitos anos: – por muitos que sejam os seus anos -, se não pode saciar-se de seus bens e, no fim, não recebe uma sepultura, eu afirmo: é melhor um aborto.

(4) Ele chega num sopro e se vai às escuras, e a escuridão encobre seu nome.

(5) Não viu o sol nem chegou a conhecer nada, porém descansa melhor do que o outro.

(6) E, mesmo que alguém vivesse duas vezes mil anos, se não desfrutou dos bens, não vão todos ao mesmo lugar?

Um pequeno esquema para o que diz o texto:

 Introdução:

A – Sinais de boa vida:

A.1 – Longevidade (100 anos, 2.000 anos)

A.2 – Gerar muitos filhos
B – Sinais de sofrimento

B.1 – Não se fartar (saciar) dos próprios bens

B.2 –  Não receber sepultura (sepultamento decente)

C – Conclusão:

                Está em pior condições que um aborto, pois aquele (depois do sofrimento)iria para o mesmo lugar que este (sem sofrimento)

Introdução:

Vamos lembrar o verso 6.2 de Eclesiastes:

Deus concedeu a um homem riquezas, bens e honra, sem que lhe falta nada de quanto possa desejar.

Consideremos outras benesses que lhe foram concedidas.

A – Sinais de boa vida:

A.1 – Longevidade (100 anos, 2.000 anos)

O Dicionário Aurélio, no seu título sob o assunto, traz uma citação interessante:

“Autoridades científicas estão de acordo quanto à longevidade dos quelônios. Havia, há poucos anos e talvez ainda lá esteja hoje, na Ilha de Santa Helena, a tartaruga que foi vista pelos olhos de Napoleão (Eurico Santos, Histórias, Lendas e Folclore de Nossos Bichos, p. 148)”

Portanto, no reino animal parece ocorrer com freqüência, as centenas de anos. Encontrei uma notícia de um pescador chinês que logrou capturar tartarugas de 500 anos. Se quiserem ver:

http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1936137-EI8145,00.html

 

A Wikipédia nos trás informações importantes, dando destaque à qualidade de vida:

A expectativa de vida no nascimento é também um indicador de qualidade de vida de um país, região ou localidade. Pode também ser utilizada para aferir o retorno de investimentos feitos na melhoria das condições de vida e para compor vários índices, tais como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

É calculada considerando-se, além das taxa de mortalidade geral e infantil segundo a classe de renda, o acesso a serviços de saúdesaneamentoeducaçãocultura e lazer, bem como os índices de violênciacriminalidadepoluição do local onde vive a população.

Entre nós brasileiros, a expectativa de vida média é de 73,17 anos, sendo que as meninas podem alcançar 77 anos, enquanto que os marmanjos ficam com 69,4 anos. Vivemos menos que muitos “hermanos” e temos que nos cuidar bastante para chegar à média mundial, conforme informa o Estadão, em 10/dezembro/2010, citando o IBGE:

Apesar dos avanços nos últimos anos, a expectativa de vida do brasileiro continua abaixo de outros países em desenvolvimento como Venezuela (73,8), Argentina (75,2), México (76,1), Uruguai (76,2) e Chile (78,5).

No Japão, a esperança de vida ao nascer é a maior do planeta, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), de 82,7 anos, seguido de Islândia, França, Canadá e Noruega. Nos Estados Unidos, a expectativa média de vida é de 79,2 anos.

http://www.estadao.com.br/noticias/geral,expectativa-de-vida-no-brasil-passa-a-732-anos-diz-ibge,647908,0.htm

Estudo feito pela pesquisadora KATHERINE BOUTON, estudo de 80 anos, liga Longevidade a Prudência e Persistência:

De fato, “bons modos à mesa” é o mais próximo da resposta correta. Alegria, otimismo, extroversão e sociabilidade podem tornar a vida mais divertida, mas não necessariamente a estenderá, Howard S. Friedman e Leslie R. Martin descobriram em um estudo que cobriu oito décadas. Os traços-chave são prudência e persistência. “Os resultados claramente revelaram que o melhor traço de personalidade da infância prognosticadora da longevidade era a consciência”, eles escreveram, “as qualidades de uma pessoa prudente, persistente, bem organizada, como um professor-cientista , algo obsessivo e de modo algum despreocupado”

http://noticias.terra.com.br/ciencia/noticias/0,,OI5094447-EI238,00-Estudo+de+anos+liga+longevidade+a+prudencia+e+persistencia.html

Alguns personagens bíblicos viveram bem mais do que esperamos viver hoje:

Henoc – 365 anos (Gn 5:23)

Abraão – 175 anos (Gn 25:7)

Isaac – 180 anos (Gn 35:28)

José – 110 anos (Gn 50:26)

Moisés – 120 anos (fonte: Wilkipedia)

Portanto, quando em Ecl 6:6 o Pregador fala em alguém que vivesse 2.000 anos, está usando de dramatização para dar maior colorido à sua argumentação.

De qualquer forma, quem alcança longos anos de vida, se considera e é considerado um abençoado do Criador.

A.2 – Gerar muitos filhos:

Nasci em uma família numerosa: 10 filhos. No meu tempo de criança (só uns 60 anos atrás) já se falava que só pobre tinha família grande. O pessoal de fazenda, isto é, os trabalhadores rurais, é o que se dizia, davam preferência as famílias grandes para terem ajuda na lavoura. Depois se passou a defender que o grande número de filhos decorria da falha na educação da população mais humilde, que não possuía o conhecimento necessário para evitar a gravidez quase anual de suas esposas. Hoje o número de filhos é limitado para não prejudicar, por exemplo, o crescimento profissional dos pais.

Dizia-se que muitos filhos prejudicariam a educação dos mesmos, pois os pais não disporiam de tempo suficiente para acompanhá-los todos. Hoje, filhos únicos são educados apenas pelas escolas e aprendem que, pagando, têm todos os direitos, inclusive de serem promovidos sem nenhum conhecimento e revoltam-se contra professores que não lhes são obedientes.

Mas talvez eu esteja tendo coragem de dizer o acima por me ter caído em mãos um artigo de Rui Rosas da Silva, Doutor em Filosofia e sacerdote católico (Jornal “A Ordem”, de 26/08/99), 8º filho de uma família de 9 irmãos. Alguns trechos:

“Já quando eu nasci, ter nove filhos era considerado uma soberana estopada[i] por muito boa gente. Sobretudo, um disparate evitável. Lembro-me de alguém meu conhecido, pai dum único filho, que comentava com ironia maliciosa: “O difícil não é ter nove filhos, mas ter só um”.”

“Na família, aprendia-se a pensar nos outros e a respeitá-los duma forma tão simples e tão humana, que depois se tornava difícil entender questiúnculas próprias da vida escolar; o direito de posse total sobre uma bugiganga, a maneira como alguns se negavam a repartir uma “buchazita” com os outros, enfim, a dificuldade de emprestar um livro que se esgotara num determinado momento do ano letivo.”

“Hoje uma família numerosa é olhada com um misto de espanto e de incredulidade, quando os pais são pessoas normais e civilizadas. A chamada “cultura da morte”, que só considera lógica a existência de quem pode ter “qualidade de vida”, assusta-se com a fertilidade e procura semear a ideia de que só se geram muitos filhos nos meios miseráveis do Terceiro Mundo, onde ainda não tocou a sorte da anti-concepção”

“Não consta que haja pouco carinho e bem estar verdadeiramente humano numa casa com muitos filhos.”

http://www.apfn.com.pt/Boletim/2/familiasnum.htm

 

Porém, quando Coélet elaborava o seu texto, muito antes de meu nascimento, “ter muitos filhos” era sinal de benção divina e de poder. Dos filhos nasciam os clãs[ii], as tribos, que dominavam territórios e possibilitavam a defesa comum. Mas vamos lembrar que Israel surgiu de uma família de “apenas” 12 irmãos.

 

B – Sinais de sofrimento

B.1 – Não se fartar (saciar) dos próprios bens

Tenhamos em mente que “não se saciar de seus bens” é o fadário dos pretensos RICOS (Vejam, por favor, o texto de Nilton Bonder, postado em 20/6/2011 – QUEM É RICO?). Aqui, porém, no verso 3, parece que se trata de uma outra coisa. Não é a ânsia pelo poder que impede o saciar-se, mas uma forte razão externa, quiçá uma doença grave. Ainda assim persiste a indagação: e por que não se contentar com o que tem?

Emocionem-se com isto:

http://www.youtube.com/watch?v=AjuoFKFWV5E

Mas ouso ainda levantar mais uma questão: o não se fartar, conforme acima expus, está em conflito com as condições necessárias à longevidade – estas excluem aquelas. Mais um simples artifício de argumentação?

B.2 –  Não receber sepultura (sepultamento decente)

Mais uma vez nos valeremos da Wikipédia:

As práticas de sepultamento humano configuram uma manifestação de “respeito aos mortos”, cujas razões podem ter várias origens, como:

– Respeito pelos restos mortais é necessário, pois se deixados ao relento, os corpos poderão ser consumidos por carniceiros, o que é considerado um ultraje em muitas (mas não todas) culturas.

– O sepultamento pode ser visto como “fecho” para a família e amigos do falecido. Enterrar e ocultar o corpo é uma forma de aliviar a dor da perda física do ente querido.

– Muitas culturas acreditam na vida após a morte. O sepultamento é visto comumente como passo necessário para que o morto alcance esta “nova etapa”.

– Muitas religiões prescrevem uma maneira “correta” de viver, o que inclui os costumes relacionados com o tratamento dos mortos.

– Desde que passamos pela cultura agrícola, ele nos dá imagens comparativas fortes, pois assim como a semente o defunto é depositado numa cova para que possa nascer noutra forma

Aprendi também que na Europa os sepultamentos eram feitos nas Igrejas até que a peste negra tornou impossível SE manter este hábito. No Brasil, até 1820, as Igrejas também eram utilizadas como sepulturas – somente negros e indigentes eram enterrados. Uma boa parte dos cemitérios hoje em dia proporcionam sepulturas (a caixa mortuária não entra em contato direto com a terra – “enterro”).  Prática atual é a cremação, mas que ainda sofre muita resistência. Para ilustrar, um trecho de comentário de pastor Luterano:

A forma tradicional do sepultamento é o enterro, pois se entende, a partir de Gn 3.19, ser uma forma de devolver à terra o que da terra foi formado. Entremente, vem se tornando uma prática a cremação. Também é uma forma de devolução à terra. Os luteranos entendem que essa prática não contradiz os princípios cristãos.

http://www.luteranos.com.br/sepultamentos.html

À época do Eclesiastes, o não sepultamento seria o máximo de desrespeito ao defunto e, certamente, o máximo de humilhação para a família.

C – Conclusão:

Está em piores condições que um aborto, pois aquele (depois do sofrimento) iria para o mesmo lugar que este (sem sofrimento).

Lembro que no Sermão … XVIII, postado em 29/08/2010, já abordei este assunto         Aqui o Eclesiastes faz uma comparação e toma uma posição. Concordarei com ele?

Recuso-me.

Vejo no Universo uma ordem incrível. Tudo tem o seu lugar, tudo tem o seu momento, tudo o seu propósito. Por que seria diferente com o homem, esta criatura que pretendemos seja o ápice da “evolução”?  O conhecimento que hoje nos é proporcionado indica que, evitadas as guerras, a natureza ofereceria recursos de sobrevivência a toda humanidade. Se fosse reduzida a ganância de uma minoria, viveríamos no Paraíso.

Então, se nasci, já num primeiro momento posso curtir o amor de mãe e, por que não, também do pai, dos avós, dos irmãos… Já estaria em melhores condições que um aborto. A minha infância, mocidade, maturidade, tudo foi muito gostoso, assim como estes anos de “chorinho” (extras, lucro….). Sou exceção? Não é o que vejo com meus amigos e o que percebo proporcionarem as sociedades melhor posicionadas no mundo atual. Assim, o caminho é realmente o indicado por Lao Tsé “Ser rico é saber contentar-se com o que tem” amplamente defendido pelo rabino Nilton Bonder (Quem é rico?). E isto só considerando esta existência que agora usufruímos – o que haverá depois? Para que entrar em especulações?

Mas será que minha forma de pensar decorreria do fato que os obstáculos que me foram apresentados em minha vida não se comparam, nem de longe, com aqueles descritos pelo escritor bíblico (alguns com recursos de ênfase bem acentuados)? Quem sabe não aprendi nunca a pensar como uma pessoa financeiramente abastada (tudo o que precisei sempre me foi concedido com generosidade, mas me parece que está longe do sentido de “riqueza” defendido pelo Coélet).

Na Bíblia, o caso de Jó parece exemplar para o que expõe o Eclesiastes. Mas após duas catástrofes se arriba com muita riqueza, poder, reconhecimento, etc… Se quando a dor física e moral era mais cruel também desejou  ter sido um aborto, arrependeu-se do que disse e fez as pazes com seu Deus e consigo mesmo. Ontem vi uma reportagem sobre uma desafiadora maratona na mais gélida região de nossa Terra e um dos atletas deixou uma frase que certamente teria o aval de Jó: “A dor é passageira mas a desistência é permanente”.

Mais uma hipótese: suponha alguém que nasceu em tapera paupérrima, só aprendeu a trabalhar e apenas ganhou o suficiente para a sobrevivência; de três de seus filhos, dois morreram à míngua em hospital público e o terceiro o tráfico de drogas o eliminou; em idade avançada, enfermo e sem parentes, vegeta em um Asilo. Se este amigo viesse a pensar: “Seria  melhor ter sido um aborto”, eu não ousaria censurá-lo, pois a minha dor seria a de ter pertencido a uma geração que nem de longe conseguiu eliminar tais sofrimentos a um ser humano, um semelhante a mim.

ESPERO CONTINUAR


[i] Aurélio: 4.Fam. Erro, cincada, asneira

[ii] Aurélio: 1.Nas sociedades teutônica e escocesa, designação original de tribo constituída de famílias de ascendência comum.  2.Antrop. Unidade social formada por indivíduos ligados a um ancestral comum por laços de descendência demonstráveis ou putativos